quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os abutres

Vais acordar do sono estremunhado,
assustado com um murmúrio crescente.
Com um som indefinido de madeira a estalar,
de louça a mover-se nos armários
e o vento a fazer agitarem-se as persianas.

São os abutres, que se agigantam,
como sombras na noite escura
e que se fazem a ti, cobiçando a tua carne.

Vais sentir um calafrio na espinha,
um arrepio nefasto que te traz desassossego.
Não haverá mais conforto para o teu sono,
mais calor no sangue que te corre as veias
e te mantém preso ao mundo vivo.

São os abutres, que te esvoaçam em redor,
batendo languidamente as suas asas negras,
contando o tempo que te falta respirar ainda.

Vais sentir uma dor lancinante
e a carne a ser-te arrancada dos ossos.
Vais desejar estar já morto há dias,
vais suplicar para que parem a tortura
e vociferar em desespero todos os credos que ignoraste.

Mas os abutres, não irão parar de debicar-te,
de banquetear-se com o teu corpo ainda quente
e com os teus orgãos ainda vivos.

Vais esfregar os olhos sem que vejas,
imerso que estarás no breu eterno
que te acolhe na terra das sombras.
Apenas o cheiro a morte te servirá de companhia
e as gargalhadas de triunfo te servirão de consolo.

São os abutres, que se riem de ti à socapa
e dançam em redor do teu cadáver, tombado no chão do inferno.
São os abutres, que te esperam desde que nasceste.


Zéphyro  09-12-2015

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Gorgulho no ópio do povo

Infestaram de gorgulho o ópio do povo,
arrozais carcomidos que não alimentam,
não saciam, nem sustentam mais ninguém.

Os pobres, desvairados pela fome,
apartam o bicho feio à unhada.
Mas nada há já a fazer pela salvação,
que se resguardava nos pântanos ledos.

Semearam urze e ervas daninhas
nos nossos campos de cravinas e estrelícias.
Tingiram de fungo a cor e os aromas,
que não chegam ao nariz de mais ninguém.

Os pobres, apodrecidos pelo mofo
daquilo que já foram jardins esmeros,
sucumbem às mãos uns dos outros,
na ânsia de assim encontrar partilha.

Pintaram de negro as ondas da maresia,
berços que embalavam o sono daqueles,
a quem a sorte foge quando acordados.

Pobres coitados rodeados de insónia,
jazidos na mortalha preta
à qual antes chamávamos casa,
na qual antes tínhamos abrigo,
para a qual antes, sempre fugíamos
medrosos que eramos do escuro das ruas.

Gorgulho no ópio do povo...
Buracos apagados onde costumavam brilhar
os alvos dentes de um sorriso de petiz.
Mofo, bafio, tudo de ruim,
onde ainda ontem, só havia alegria
e a ignorância própria dos felizes,
dos leigos e desprovidos do cheiro fajuto
que agora empesta a nossa terra estéril.



Zéphyro  07-12-2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ego, o pigmeu irrascível

Não sou de prostrar-me ajoelhado
e bradar aos céus por clemência e misericórdia.
Sou mais de pontapear pedras e desaforos
na direcção de todos aqueles que pecam,
os pecados que jamais ousaria pecar.

Não sou de penas ou piedades,
nem de esperanças em meias verdades,
sobre um deus que se esconde por trás
daquilo que outros escrevem em seu nome.
Sou mais de ficar arreliado,
de ficar extenuado, de tanto cuspir
naqueles que sofrem de braços cruzados,
à espera de um rasgo de genialidade alheia.

Sou só o meu ego, sem nada em volta!
Um pigmeu irrascível e encardido como os sonhos
infrutíferos de uma sociedade pálida,
sugada desde as entranhas por si mesma.
Sou só o meu ego, sem corpo nem alma.
Um pigmeu irrascível e obtuso que adora detestar
e detesta ser adorado.

Não sou de dar as mãos aos pobrezinhos,
não sou de carregar enfermos ao colo,
não sou de alimentar os famintos.
Sou mais de golpear as costas dos carrascos,
de enfiar-lhes os punhos nas ventas
e esventra-los com a mais romba das lâminas.

Não sou de orar, não sou de rezar, não sou de pedir!
Sou de desdenhar e desbravar,
de incendiar e conspurcar aquilo que os outros,
por manifesta estupidez, têm por imaculado.

Não sou carne, não sou osso.
Não sou sangue, não sou cabelo.
Sou apenas um ego, uma ideia que tenho de mim:
Um pigmeu irrascível viciado na fúria.

E ai de quem duvidar disso.



Zéphyro  02-12-2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Pequenos diamantes do diabo

É vermelho o diabo,
comprador compulsivo de almas.
É fogo o seu abraço
e são pequenos os diamantes
que transforma sempre em carvão,
bem mais quebrável, bem mais cru
que os sonhos que antes brilhavam.

Tem modos lascivos o diabo,
usurpador compulsivo de corpos,
vivos antes do seu toque luminescente,
mas insanamente mortos e enegrecidos,
depois de rapinados da pureza do seu brio...
Depois de despojados do adorno lapidado
a que alguns não resistem
a ferrar o dente sujo e analítico
que comprova a raridade da pureza desbravada.

Devemos viver com o que temos
e com aquilo que nos dá ou deixa o tempo,
na sua desmesurada pressa de fugir-nos.

O que fazer se é ódio o que nos dá?
O que fazer se é revolta o que nos deixa,
esquecida pelos sulcos do caminho?

Devemos brilhar com o brilho de outrora,
quando eramos pequenos diamantes brutos,
escondidos nos recantos de uma mina por descobrir.

O que fazer com o carvão
em que nos tornamos após a vinda do homem?
O que fazer com o negro da noite sem lua
em que se transformou a nossa preciosidade
e o nosso esmerado preciosismo?

É vermelho o diabo,
como os rubis que palpitam nas entranhas
daqueles que nada entendem de jóias...
Daqueles que não sabem que a jóia é apenas jóia,
até que o fóssil encrustado nas unhas do demo
nos rasga a superficie gutural dos medos,
para quedar-se no cerne da nossa inexistência,
tão éfemera como o que fomos ao existir,
quando ainda existíamos.
 
Pequenos diamantes, são vermes a seu tempo.
Pequenos diamantes, alimentam-se de brilho alheio,
como de chamas se alimenta a destruição
que o diabo vermelho apregoa a cada promessa que não cumpre.


Zéphyro  22-10-2015

sábado, 10 de outubro de 2015

Abstinência

Fecho os olhos para dormir,
mas o sono não vem...
E esta (minha) voz na minha cabeça:

- Vais falhar! Ah ah ah!

Cala-te Eu, que sou melhor que tu,
pois mesmo não tendo sono,
continuo a querer dormir!
Cala-te, que não sabes o que dizes!

Abro a boca para comer,
mas a fome não vem...
E sempre a mesma voz tirana,
monocórdica como a minha:

- Vais falhar, falhado! Ah ah... Ah!

Cala-te! Mesmo sem fome,
continuo a querer comer e tu,
que não és senão eu,
precisas também do alimento,
jocoso e nutritivo que te me dou!

- Vais falhar!

Cala-te!

- Vais falhar!

Cala-te!

- Falhado!

CA-LA-TE!

Mesmo sem força vou vencer-me
e vencer-te e vencer tudo e todos
que duvidam da minha fé,
que põe em causa a minha vontade.
Aquela que me roubaste junto com a liberdade!

Mesmo sem voz continuo a gritar,
mais alto que aquela voz sumida,
na minha cabeça surda por não suportar
ouvir-me por mais um segundo no tempo...

- Vais falhar!

Não vou! Já triunfei!
Desde o primeiro minuto que desisti de ti
e optei por mim, ainda que,
sejamos um só, indissolúvel, como a canela,
que servia para apagar o cheiro a morte
do corpo dos mortos mais vivos que eu!

Mesmo sem quereres, tento desejar!
Mesmo sem sonhos, procuro a luz...
A luz no fundo do túnel que, deus me ajude,
não será nenhum comboio na minha direcção!

Cala-te! Não sabes o que és,
mas eu, sei o que te sou e isso,
torna-me melhor que tu!

- Vais falhar!

Não vou! Já te venci, que o meu corpo,
já não te obedece, ainda que não me obedeça!
A minha alma, já não te roga,
ainda que não creia em mais nenhuma verdade!
Hei-de encontra-la e hei-de perder-te
e hei-de berrar na tua cabeça que já foi minha:

- Quem é o falhado agora?!?! Ah... Ah... Ah...

Mesmo cego vejo o fundo do poço!
Mesmo mudo, grito em plenos pulmões!
Mesmo surdo, ouço esse meu berro,
na minha voz que já não ordenas!

Cala-te! Já não me és o que já te fui.
Não preciso do teu perdão, nem da tua empatia!
Sou grande, sou rei, sou vivo... como tu, sem mim!


Zéphyro  10-10-2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Muros, humanidade e utopia

Sonho com um mundo sem muros,
onde ser sírio ou português,
sul africano ou inglês,
sejam meros acasos geográficos.

Um mundo sem fronteiras,
um mundo sem barreiras,
nem arame farpado de espécie alguma.
Uma enorme comunidade, verdadeira
e verdadeiramente comunitária,
onde sempre será bem vindo,
aquele que vier com boa vontade.

Ainda me lembro,
como se cá tivesse estado,
de uma mão cheia de ocasiões,
onde a humanidade só o foi,
por não existirem muros ou nacionalidades.

A última idade do gelo,
que levou mais de um terço
do mundo que pisávamos seco,
só não nos levou também, como espécie,
porque muros não havia
e os bravos, os corajosos, os humanos,
migraram e prosperaram noutras planícies.

O orgulho dos navegantes lusos,
que descobriram mundos oclusos,
só existe, porque não havia mapas,
nem havia cartas militares,
nem havia fronteiras.

Tudo era uma enorme incógnita
entaipada pelo desconhecimento,
desbravada pela liberdade e pela esperança,
de uma casa maior para criar os nossos filhos.
De novos sabores para os nossos pratos
e novas matérias primas,
com que erigimos as nossas cidades.

A humanidade acabou,
desde que erguemos o primeiro muro!

Agora, somos apenas homens e mulheres,
uns, mais humanos que outros,
porque vêm de mais longe,
porque vêm mais sujos e com parasitas
e não são merecedores da nossa paz.

A humanidade acabou,
quando o homem se fez gente!

Antes, quando eramos nómadas,
a nossa casa era onde
fossem mais verdejantes os prados,
onde fossem mais limpos os riachos
e mais fartos os animais.

Agora, que somos sedentários e gordos,
a nossa casa, é onde nos manda
o bilhete de identidade.
Ainda que esteja em ruínas,
ainda que já não haja terra que cultivar.
É esse o nosso lar e,
se porventura, tivermos de padecer com fome,
foi o destino que assim o quis!
 
Sonho com um mundo de homens humanos,
onde cada um, é livre!
Livre de buscar por alimento,
livre de procurar sustento,
sem que lhe chamem estrangeiro,
sem que seja alienígena e acabe alienado.

Sonho um mundo sem muros!
Onde a paisagem não tem limites,
onde, se estiver céu limpo,
podemos admirar todo o planeta.

Será que alguém escolheu onde nascer?!
Não, porra!
Mas todos deveríamos poder escolher,
onde criar os nossos laços.

Porque têm de morrer de fome
aqueles que nascem em terras sem sustento?
Se aqui, de onde vos escrevo,
todos os dias desperdiçamos alimento
e nos achamos, por isso, afortunados!
 
Sonho com um mundo aberto,
sem húngaros mal agradecidos e enmurados,
sem russos voadores endiabrados
e com homens e mulheres,
simplesmente humanos,
que não estourem com as bombas
e acabem feitos em bocados.

Será pedir demasiado?
 
 
Zéphyro  06-10-2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em abono da verdade...

Em abono da verdade, vos digo,
que a verdade, é uma concubina,
agarrada aos ossos de um velho endinheirado,
que lhe sustenta os vícios materiais!

Casas, carros, férias no estrangeiro.
Roupas, joias e respeitabilidade.
Tudo aquilo, que pode comprar o dinheiro,
cativa a grande manceba que é a verdade.

Em abono dela, vos digo,
que é uma bactéria, de boca em boca,
contagiando de morte e pedra
todos aqueles a quem toca!

Está na boca do pobre, que a vende,
está na boca do rico, que a entende!
Está nas crianças fantasiosas de hoje em dia,
está na maldade, como está na alegria!

Em abono da verdade, vos digo,
que a verdade é uma meretriz
de perna ao léu à beira da estrada,
por onde passam todos os dogmas.

Está no clero e na política,
está na ganância e na semítica
sociedade capitalista europeia,
que a vende como verdade, embora seja uma ideia.

Em abono dela, vos digo,
que é de todos e não é na verdade
de ninguém que não a pague,
pelo preço indicado na etiqueta.

É uma peça, uma mercadoria,
negociada, como um objecto qualquer,
que se paga a pronto e não se fia,
é para quem pode e não para quem a quer.

Em abono da verdade vos digo,
que a verdade é uma mentira!
Repetida mil vezes desde a orla da cidade,
até chegar verdadeira ao coração das gentes.

É um deus que não existe!
É um diabo que nos assiste
numa luta desbravada.
É uma crença desmesurada,
numa palavra que nada vale,
à qual já ninguém resiste.
 
É um pedaço de carne crua,
é um menino, abandonado na rua...
É o perfume francês de uma dama,
é o esterco de uma fossa,
e uma ferida que se inflama!
A verdade, é minha e vossa,
a verdade, não é nada!


 
Zéphyro  05-10-2015

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O maior erro da minha mãe


A minha mãe, sempre foi uma vencedora! Esse, foi o seu maior erro.
Quando aos dezasseis anos, alguém lhe disse: "Estás grávida", ela mesmo se sabia uma criança ainda. Não preparada para as lides da maternidade, que buscou sempre com a sua rebeldia vitoriosa, mais típica de rapazinho rufia. Quando se soube de esperanças, não perdeu a esperança de encontrar carinho ainda, apesar de ter brevemente que o esmerar em outro ser, em outro seu.
Fugiu das responsabilidades iniciais e das noites mal dormidas? Fugiu sim! Fugiu até, de autocarro, quando, já com as águas estouradas, se viu às portas do hospital, ainda sem o seu carinho desejado. Mas não errou porém aqui.
Fugiu com medo! E, como todos os vencedores, escondeu-se do medo que sentia... e escondeu o medo que sentia, dentro de si, já tão só e cheia de medos dispares e diversos.
A minha mãe era uma vencedora! Sempre o foi! Mesmo quando, com vinte anos e uma menina recém chegada a um mundo ligeiramente mais carinhoso, lhe disseram: "Tens uma doença sem cura."
E não teve cura a doença, tanto, que foi a cura que a levou. Foi a tentativa magnânima e infrutífera da cura, que lhe foi debilitando o corpo, com que nos abraçava e se fazia abraçar, ás escondidas.
A pele, rebentou em mil impinges, o cabelo, caiu, fraco como as folhas de uma árvore morta. Os rins, mal funcionavam e nas mãos, eram quase chagas as gretas que se abriam. Mesmo nas dobras dos dedos. Dificultando a ternura e o correctivo, servindo de barreira à própria mão, para que se estenda, para dar e receber.
Os ossos, fracos e sem cálcio, a cara inchada como um mocho, o coração intermitente... nada apagaram de si o ar de vitória! Aquele ar de quem afronta o mundo. Aquele ar lampeiro e vaidoso, como uma bicicleta que adornamos, quando a sabemos menos veloz que as outras.
Por ser assim, vencedora, se fechou sozinha, a chorar, para que ninguém a visse em fraqueza, mil e uma vezes. De todas as que, outras mil e uma vezes, se viu arremessada contra a parede pelos pontos altos da doença. Que, volta e meia, saia do falso controlo letárgico em que se espraiava e estocava forte, o metro e cinquenta de corpo da minha mãe.
A minha mãe, sempre foi uma vencedora! Esse foi o seu maior erro!
Como vencedora que foi, viveu sozinha tudo que temeu a sua alma atormentada. A cada vez que teve medo de morrer, empurrou-nos, a todos, para fora de si. Como uma leoa ferida, que se afasta para sofrer. A cada vez que teve medo de nos perder, fez questão de dizer-nos como nos dispensava. Apesar de sabermos, todos nós, que não era de todo verdade.
Era uma vencedora a minha mãe e deus, estava sempre do seu lado. Rezou a deus com toda a veemência e esperança, mas, quando se viu sem opção, até partir, decidiu partir sozinha.


Zéphyro  28-29-2015

sábado, 26 de setembro de 2015

E se todos os refugiados fossem génios?

E se todos os refugiados fossem génios?
Se tivessem já louros e prémios,
em áreas diversas do desporto e da cultura,
que será que aconteceria?
Se em países fronteiriços,
como por exemplo a Hungria,
deixassem de ser vistos como mestiços,
que tentam arrombar, para conspurcar,
as pacíficas metropoles europeias.

Como seria então?
Se todos os refugiados tivessem ideias
claras sobre a fisica quântica,
ou fossem astros da semântica,
ou novos Pelés e Maradonas.
Se saltassem barreiras e corressem maratonas
ou tivessem ganho em crianças,
as olimpíadas da matemática,
ou dominassem qualquer temática
sobre políticas e economias futéis.
Como seria então?
Seriam então os refugiados úteis?

Interrogo-me se aquele menino
e o seu desenho inocente de criança,
não serviriam de fiança,
para abrir-lhe a porta e a vista,
se não trouxesse morte o seu desenho,
mas arte de um consagrado artista.

Indago-me se aquela menina,
que puxa a avó pelo braço,
já ela tão seca e carcomida
que nem para si mesma tem balanço,
não estaria mais gorda e composta,
bafejada pelo ar condicionado fresco,
do seu prórpio automóvel com capota,
se em vez da avó,
trouxesse a rolar pelo chão arenoso,
um barril de petróleo das arábias.

Será que aí, as portas europeias,
todas tão célebres e tão sábias,
abrir-se-iam, mudando de ideias,
tão só porque é sempre bem recebido
aquele que traz a negra energia?

Só porque mais vale quem traga magia
e riqueza em vez de temer pela vida?

Só porque mais vale quem traga valor,
do que quem peça para mostrar o seu com trabalho?

E se todos os refugiados fossem génios,
audazes piratas informáticos
ou até poetas boémios?
Será que os tratávamos ainda como estrangeiros?
Ou será que os veríamos como porquinhos mealheiros?
Uma espécie de hino á universalidade,
onde provaríamos que um génio,
merece sempre a chave da cidade?

Ainda que venha por mal alguém,
será sempre bem vindo desde que deixe algo em troca.
Algo de valor, e não um bando de gente peçonhenta,
que não tem onde cair morta.
Nem sequer interessa, se são só velhos,
se são só crianças, nem interessa
se são pessoas, se são boas ou se são más.
Não trazendo a genialidade consigo,
pouco importa se procuram a sorte,
ou se procuram apenas a paz.

E se todos nós fossemos refugiados?
E se os sofás confortáveis, onde estamos sentados,
com as nossas lindas famílias do lado,
explodissem quatro vezes ao dia?

Se as nossas dispensas sempre tão repletas,
de repente, ficassem desertas,
porque bombardearam toda a cidade,
O que será que aconteceria?

Fugiríamos para Gaza,
para Israel ou para a Síria?
Levando uma saca de roupa
e nem toda a gente da família,
que havia já ficado pelo caminho?
Entregues á fome e á sede,
ao calor e ao martírio
que os levou antes da maior idade?

E se lá, fossemos nós refugiados?
E se fossemos barrados na entrada, por não trazermos genialidade?


Zéphyro  26-09-2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Prolepse

Sinto claramente,
quando entras na sala
e a luz de uma espécie de sol interior,
irrompe pelas janelas e ilumina
os olhos marejados de quem ouve
as palavras que escrevi para ti.
Mesmo quem nunca te conheceu,
sentiu claramente a tua presença
e o teu orgulho imenso a preencher a sala.
A abraçar-me e acariciar-me a nuca,
não cabendo em ti de tão inchada,
por teres um filho que se fez poeta.
O vestido que trazes fica-te bem,
tão brilhante como a aura de diamante,
ametistas e lapis lazulli,
que trazes pendurada no teu regaço.
Tão alvo como o salão frio,
em que finalmente se fez dia.


...


Sinto claramente, quando me olhas,
durante um sono que não me parece sono,
nem parece sonho ou pesadelo.
Olhas-me e vês-me já mais velho
do que algum dia chegaste a ser,
mas também, os anjos não têm idade...
Vieste mais uma vez, da terra do nunca
e do tudo, que pode ser o nunca
se encontrar as pessoas certas,
na pele dos arcanjos que me vão guiar.
Vieste para certificar que tudo está pronto,
a mala feita para a viagem,
os testamentos assinados, na mesinha de cabeceira,
e a alma descongestionada daquilo,
que foi a minha vida depois de teres partido, pecado.
Pena que não saibas de tudo o que fiz
e principalmente, daquilo que desfiz,
mal, um dia, nos viraste as costas.


...


Olho a porta dos fundos,
única porta que alcanço com os olhos,
ou com a parte deles que não arde,
nas chamas de todo o mal que fiz.
Olho a porta, porque sei, claramente,
como o cristal que te fez mulher um dia,
que desces já para vir visitar-me.
Não estás já acostumada ao calor abrasador,
nem ao desnível da descida, abrupta,
como uma queda anunciada,
do cimo do mais alto dos píncaros mortais.
Mas sei que vens!
Sabes que sei, que esperas ver-me hoje!
Tu vais ver-me hoje!
Oxalá chegues ainda a tempo,
pois é curto o turno do porteiro
e ouvi, que mais ninguém hoje está para chegar,
pois, entretanto, entre mortos e estilhaços
o mundo fez-se um sítio melhor.



Zéphyro  19-09-2015

42 segundos

Leva uns escassos 42 segundos
a livrarmo-nos de um peso.
De um grito que estava preso
em mordaça gutural,
pelo nó apertado de um laço.

Pouco menos que um minuto,
leva a tirar o peso bruto
da espada sustida pela bigorna.
Só um verdadeiro rei,
poderá almejar em resgata-la,
para mais tarde, no alto de um grito,
emudece-la e outra vez amordaça-la.

Quarenta e dois segundos... só!
Para bradar a quem queira ouvir.
Conhecidos, sobrinhos, irmãos e avó,
todos reunidos numa mesa mais curta que o esperado,
que leva menos de nada a desarmar em debandada.
Só um Rei, para assistir do trono,
o espaço deixado livre,
nas cadeiras dos que não quiseram mais ouvir.

Um urro de dor urgente,
uma voz isolada num mar de gente,
as palavras loucas de um vagabundo.
Tudo estava bem, mas de repente
a garganta soltou o que deveras sente
e levou só 42 segundos.


Zéphyro  19-09-2015

Penas de embuste

Há quem uses frondosos cocares
de penas e plumas coloridas.
Talvez para mascarar rostos,
de feições menos conseguidas
e almas a transbordar de nada
e insanidade afogueada.

Há quem use penas
e apenas tenha as penas,
porque por dentro,
até faz pena de tanta solidão
e tanto oco que se tem como fartura.

Mas e se, um dia, as penas vão,
como as pessoas que já foram nossas,
como aqueles a quem algures, amamos?
Nesse tempo, a solidão,
era ainda um mal que lamentávamos nos outros.
Nesse tempo, as penas,
era só embustes, que desdenhávamos... nos outros!

Há quem use penas como embuste,
para ocultar o desamor pela vida
e a falta de acutilância das armas,
que carregam para as batalhas.

Batalhas enormes, contra gladiadores,
que se escondem amarados no sangue,
que dantes, pulsava bem mais forte,
dentro de um peito, que, sem penas,
ainda tinha coração.

Mas e se um dia acaba a guerra?
Para quê usar penas se não há já
inimigos que intimidar,
nem pátrias para defender,
ou sequer donzelas, por cuja honra,
morrer ou matar?
Nessa altura, mais vale despojar o corpo,
de tudo aquilo que nunca foi nosso!
Mais vale viver em paz,
porque a guerra nunca existiu.
Foi apenas uma mera miragem,
que criamos na ânsia de justificar
o uso abusivo das penas, que, no fundo,
usamos apenas porque nos ficam bem.


Zéphyro  19-09-2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Sinto-me um asno

Sinto-me um asno ignorante,
sempre que ouço falar os velhos,
de pecuária e agricultura.
Reconheço que talvez,
não haja no mundo arte mais pura
que semear para colher
e engordar bichos para comer...
Mas faltam-me os termos e os vocábulos,
desconheço as ordenhas, palhas e estábulos
e nem saberia com a faca na mão,
que parte do porco golpear,
para respeitar o bicho, na sua partida.

Sinto-me um asno, um burro,
quando ouço conversas sobre políticas.
Devo confessar aprecio, os discursos e as sofísticas,
mas não sei distinguir esquerdas de direitas,
nem manusear foices ou apertar nós de gravata.
Não entendo as economias,
nem as finanças ou a defesa interna.
Tudo me parece uma grande lobotomia,
uma espécie de lavagem ao cérebro,
que daria mais jeito termos deixado,
lá longe na era das cavernas, na época em que tudo o que sabíamos,
era como esventrar rapidamente um porco.

Sinto-me um asno absoluto,
quando me falam de propaganda
e do marketing orientado, para a fraqueza dos pobrezinhos
que não resistem ao pecado
e acabam só com as vestes do corpo, coitadinhos
e uma maleta de recordações e produtos dentários.
Só porque sei que ainda ontem,
ainda tinham créditos bancários....
Mas a sanguessuga astuta chamada publicidade
chamou-os ao perto e falou-lhes ao ouvido.
Levou-lhes tudo, dinheiro, casa, identidade
e nem uma faca lhes deixou, muito menos um porco para matar.

Tudo o que sei, é no fundo, a poesia!
E não é apenas por ser a única,
capaz de rimar inferno com maresia
e ignorar sabiamente toda a palha que traz no bico,
essa grande ave chamada democracia.
Mas, porque sejam os homens cristãos ou ateus,
crentes agricultores ou excelsos bancários ricos,
se ele existe, somos filhos do mesmo deus
que não sabe porcos, nem créditos, nem requisitos.
E só a poesia o descreve, sem margem para duvidas,
que homem para ser sábio, precisa de um par de tomates.
Eu cá, sinto-me um asno, porque apesar de ser poeta,
raramente ando com os meus.


Zéphyro  17-09-2015

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O sexo dos poetas

Diz-me, mulher, como é o sexo dos poetas?
É mergulho deliberado,
no ardor de uma fogueira,
que cuida mergulhar
num mar de pétalas de malmequer?

Diz-me, como é o sexo dos poetas, mulher!

É abraçar um vendaval em fúria,
destruidora de urbanismo,
que se cuida brisa e luxúria
incandescente como um gemido teu
na voz de comando de um profeta?

Diz-me, agora, mulher, como é o sexo de um poeta!

É ser levado de castigo,
no dorso de um cavalo paladino
e cuidar que são as mil e uma noites
e o tapete de Aladino
a sobrevoar fantasias de carnes vorazes?

Diz-me, imploro mulher, como é o sexo dos audazes!

É cair largado num abismo
de prazer descontrolado e furioso,
que abre o chão das terras num sismo,
que cuida, simplemente, que o mundo,
pode ser lido como um livro?

Diz-me, amor, como é fazer amor comigo?


Zéphyro  16-09-2015

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Também as putas compram pão

Ainda antes da perna alçada na parede
de um portal aberto de pensão,
antes do primeiro cliente, que chega a pé,
que mora logo ao virar da esquina,
todas as putas compram pão,
numa saca de pano como todo nós.

Compram pão e fiambre cortado fino,
para o pequeno almoço do menino
e depois, saem para trabalhar.
Pegam na bolsa com os trocos,
com as borrachas, os batons e os toalhetes
e saem... para trabalhar, como todo nós.

Que culpa têm elas de amar os seus meninos?
Que culpa têm elas, de amarem bem menos
a si mesmas e aquilo que representam?
Compram pão! Sim!
Por vezes, uns pasteis sortidos ao domingo,
dia santo, de ficar em casa com as lamentações
e o menino que não veio para o lanche.
Compram pão! Sim!
E por vezes, ainda têm tempo de deixar pronta
a sopa para o almoço, que o menino trabalha perto
e talvez venha almoçar a casa.

Ainda antes do primeiro aconchego do bidé
e da primeira mirada perdida no tecto branco,
ainda antes do primeiro baloiçar afogueado,
com cheiro a bagaço matinal à mistura,
Todas as putas cuidam dos filhos!
E, as que não têm filhos, cuidam dos filhos das outras,
que ficaram já pelo caminho.
Ao encargo de uma doença venérea ou de um fígado fraco,
que não aguentou a exigência do dia a dia...

Todas elas compram pão! Pão, é respeito!
Todas elas procuram no pão, o que lhes falta,
em amor próprio e tempo para amar melhor
a todos aqueles que estão fora dos pardieiros,
para onde saiem todos os dias, menos ao domingo.
Para trabalhar, sim! Para trabalhar!
E os filhos, bom, os filhos esses,
tomam sempre o pequeno almoço da mamã,
antes de se enfiarem aperaltados,
nos seus carros pretos com motorista
e irem fazer o que quer que eles fazem, lá nos parlamentos,
lá nos tribunais e nos gabinetes dos ministérios.


Zéphyro  15-09-2015

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A voz de Ana e o meu mundo nos vossos olhos


É verdade! Todos Vocês Estiveram Lá!
Eu sabia que iam estar lá!

Obrigado a todos por fazerem parte deste dia, por tornarem possível este sonho, que adorei e quero continuar a adorar partilhar convosco!



Tudo começou com um ribombo.
Avassalador, quase atroz,
que deixou o auditório preso
à sede por um novo grito.

Nos vossos olhos, ora lágrimas,
ora sorriso mal disfarçado e alegria contagiante,
o meu mundo até agora secreto.

A voz de negro, de Ana,
ecoou pela sala e abriu as portas,
abriu os mundos contidos em papel
e todos os céus bradados em silêncio até então.
Fez o Zephyro extravasar a sala,
sair esbaforido em direcção ao mar,
correr livremente para ser, finalmente, um vento!

Nos vossos olhos, fixados nas palavras,
a soberba e a inquietação muda,
o negro e a cor, como numa caveira do dia dos mortos.

A voz pontiaguda, de Ana,
trespassou directo as vossas peles
e entrou de rompante nas vossas entranhas,
nas vossas almas, também agora a descoberto.
Como um ferro quente e indolor,
como um pecado revelado em surdina,
como uma conta demasiado alta para pagar!

Na voz livre, de Ana,
Fui Mary Poppins e vocês o meu chapéu de chuva!
Fui um idolo num andor, transportado pelos vossos ombros!
Fui um viajante, levado por vós, ao meu destino.
Na voz e nas cordas do senhor da boina,
que as repuxava como se estivessemos nós do outro lado
e fossemos meras marionetas.

Nos vossos olhos, então,
o meu mundo e uma divida eterna, quem paga agora?!
O caraças do papel!


Marco Nascimento  14-09-2015













quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Adoro gente de mochila às costas

Adoro os estudantes carregados,
de livros e lições e equipamentos de ginástica.
Levam sonhos e ilusões
ainda por desbravar, misturados
com os restos da merenda mal comida
durante o intervalo grande da manhã.
 
Adoro os turistas da baixa,
de sandálias e mapas na mão, que desvendam a cada esquina.
Levam garrafas de água e agasalhos
porque leram algures que, à noite,
a cidade arrefece a olhos vistos
e planeiam não dormir muito na jornada.
 
Adoro o povo que vai à praia,
armado de guarda sóis e para ventos e farneis para um regimento.
Levam vontade e toalhas de banho,
porque qualquer praia do aterro
pode ser ilha do pacífico
se veranearmos com a trupe certa.
 
Adoro os peregrinos e caminhantes,
de cajado e barbas longas pela ausência de sedentarismo.
Levam esperança e resolução,
às costas da fé que sempre lhes dá
um móbil para continuar a caminhar,
apesar dos pouco solidários comparsas de ideologia.
 
Adoro os vagabundos sujos,
que se debatem por dias menos miseráveis juntando.
Levando atrás de si resmas de cartões,
cobertores velhos e latas de conserva.
Carregando consigo as rugas
de todas as vississitudes bafejadas pela vida.

Adoro gente de mochila!
Uma mochila marca sempre uma viagem,
seja ela para onde for.
Marca sempre um sonho de mudança e novidade.
Mostra a todos que apesar de virmos de longe,
queremos ser de qualquer lugar.
 


Zéphyro  10-09-2015

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Também há os que desistem

Há demandas demasiado duras,
pelas quais muitos
desistem puramente de lutar.

Há muitos Golias por aí
e muito poucos Davides,
com coragem e fundas poderosas,
com pontaria e godos perfeitos.
Há demandas demasiado duras,
entre as quais só estão os duros
e entre eles, também há os que desistem.

Há muitos libertadores por aí
e muito pouca liberdade.
Mesmo o Zeca, só a conquistou,
porque sabia da nesga por entre as grades.
Sabia da negligência da vigília
dos guardas que ocupavam as torres.

Ainda os há, os Zecas.
Mas agora, a prisão é tão grande
como a sede de fraternidade!
E há os que enfrentam e morrem honrados
e os que se acobardam e vivem,
vidas longas e mais ou menos regaladas.

Há demandas demasiado duras,
demasiado globais e ostensivas.
Fosse o mundo ainda passível,
de ser conquistado pela espada pesada
de um vimaranense ambicioso e feio!
Pela pá enfarinhada e resoluta,
de uma padeira gorda e bigoduda
ressábiada pela falta de sexo!

Há muitos super herois por aí,
mas poucos que tenham super poderes
em escala ao vilanismo dos vilões!
Há os que tentam e ostentam cartazes,
mas também há os que desistem,
se calhar mais audazes,
que sabem que o mundo precisa de estar preso.


Zéphyro  09-09-2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Desculpa se não olhei para ti

Desculpa se não notei ontem,
quando chegaste mais tarde a casa,
que tinhas ido ao cabeleireiro,
pôr-te mais bonita para mim.
Eu bem queria mas não vejo,
porque me perco demasiadas vezes
a cogitar o mundo e como salva-lo!

E não vi quando estreaste
o novo vestido que compraste,
especialmente para mim.
Não reparei como te assentava bem
e como marcava a tua cintura,
como realçava a tua anca
e mostrava, sedutoramente, as tuas pernas.
Eu bem tentei mas acabei
por ficar aquém do sulco da escada
de onde melhor poderia observar-te
e dar-te a corte que mereces.

Desculpa também, amor,
se te não dei ouvidos quando falavas,
do que quer que falasses tu.
Desculpa se perdi o fio à tua meada
e me desaguisei com as tuas novidades.
Penso que devo ter ficado surdo,
a ouvir o interior de mim
e a minha voz cavernosa de profeta.
Sei que querias contar-me tudo,
sobre o tudo que vives por mim.
Sei que era importante, pelo menos
para ti e para os teus desassossegos.
 

Mas tenho o desassossego em mim!
E a fome do mundo para matar,
as guerras do mundo para desarmar,
os criminosos do mundo para perseguir...
Raramente me sobra tempo.
Desculpa, amor, se não olhei para ti,
mas devo ter ficado possesso
pelo ponto negro de sombra
que congemina contra a humanidade,
em conjunto com aquela parede branca.


Zéphyro  08-09-2015

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma harpa e um arpão

Havia um vilarejo,
onde moravam todos os velhos,
veteranos aposentados
das guerras do ultramar.
Um vilarejo largado,
á beira mar plantado,
por rasgos de valentia
e estocadas de marfim.

O ar sabe ao som da harpa,
dedilhada numa escarpa,
de costas voltadas ao mar.
E cheira a sangue podre,
de algum verme ou algum ogre,
perfurado por um arpão.

Havia um vilarejo,
com gente velha, já sem ensejo,
que gastou os dias a recordar
as desventuras do ultramar.
Um vilarejo tristonho,
onde os sonhos são medonhos,
arrebatados pelo fogo,
alimentado pelo colmo dos telhados.

A terra cheira a sangue,
apesar das veias estanques,
dos velhos secos pelas memórias.
E sabe a mofo e musgo,
impelido a crescer no refúgio,
onde deixaram as suas vitórias.

Havia um vilarejo encantado,
para outros mal afamado,
onde uma harpa soava sem fim,
tocada solene na escarpa, de costas voltadas ao mar.
Um vilarejo em pedaços,
como velhas recordações e sonhos lassos,
esventrados em Africa
pelo silvo agudo de um arpão.


Zéphyro  07-09-2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Lançamento Zephyro



Finalmente, ao fim de tantos anos a nadar ao largo da poesia, decidi agora, aventurar-me em aguas mais profundas, longínquas e escondidas, em direcção ao horizonte.

No próximo dia 12 de Setembro, sábado, será o lançamento do meu primeiro livro.
Terá lugar na Cassa Allen, no Porto, pelas 17 horas.

Estão, obviamente, todos convidados, a fazer parte de um grande sonho da minha vida, que vou agora ver realizado.

Obrigado



Zéphyro



domingo, 16 de agosto de 2015

Uma arma na mão, nunca será um par de tomates

O meu patrão é um animal,
trata-me como lixo,
só porque sabe o quanto preciso do emprego.
Faz-me ficar de empreitada,
de um dia para o outro,
sem dormir e quase sem comer
e sem receber nada em troca pelo esforço.
Faço tudo e fico calado,
não tenho coragem de reivindicar
ou ainda perco o sustento.
Quando tenho a sorte de ir a casa,
geralmente semi desmaiado pela fraqueza,
só já tenho força para bater na mulher.
Para lhe infernizar a vida porque posso,
ali posso, quem manda sou eu!
Ao fim de semana, vou sempre caçar
com os amigos cobardes como eu,
que moram lá no casario.
Passa em correria saltitante a lebre
e eu nada hesitante,
miro-a pela ponta da espingarda
e alvejo-a, em cheio num dos flancos traseiros.
Quando não sou caçador,
sou a presa da sociedade.
Que me oprime e reprime e obriga
a obedecer a regras que abomino,
mas que sigo à risca, pois tenho medo.
Quando não visto as minhas calças,
camufladas de verde pardo,
não tenho mira para atirar em ninguém.
Nem sequer tenho braços para poder
com o peso másculo da caçadeira.
Sou um homem doente...
Passo horas em salas de espera,
porque os ricos sempre me passam à frente.
Nada digo, pois lá no fundo,
concordo com a minha inferior condição
de pobre que já se habituou a esperar.
Nas caçadas de fim de semana,
quando me digno a esperar,
culmino a espera com uma chumbada,
bem valente, mesmo no meio do peito,
de um veadozito escondido na folhagem.
Quase nunca falho, pois é boa
a minha pontaria e ainda maior
é a minha coragem, quando tenho a arma na mão.
Talvez um dia, a leve para os sítios
onde todos parecem melhores que eu.
Para os cafés onde todos são atendidos primeiro,
para os supermercados onde sou ludibriado na fila,
ou para as reuniões de condomínio,
onde nunca tenho voz que chegue para me fazer ouvir.
Oxalá então tenha a coragem para esperar...


Zéphyro  15-08-2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Traidor, delactor, filho da mãe...

O estafermo abriu a boca,
chibou-se todo e entregou,
num penico de louça,
os nossos nomes orgulhosos da pátria.
Traidor, delactor, filho da mãe...
Nem pelas horas em que o seu ser
era o nosso ser e o nosso ser o ser dele.
Nem pelas lutas, nem pelas putas,
feias e fajutas das ruelas de Portugal.
O patife desbocou-se,
e borrou-se dos afagos que levou.
Descodificou as nossas patentes
e entregou as nossas gentes ao deus de ará,
que já conhece os nossos credos
e o altar onde sacrificamos as nossas virgens,
se é que ainda as há.
Traidor, delactor, filho da mãe...
para não lhe chamar de piores nomes,
que bem merece por dizer tudo
a todos os que o quiseram saber.
Disse dos nossos esconderijos,
disse das nossas deambulações
e até contou da desventura das nossas viúvas,
sozinhas com um nome que já ninguém usa.
Nem pelas fogueiras que saltamos unos,
nem pelas bebedeiras que nos fizeram
desafiar vezes sem conta a vida.
Ora nos cornos de um touro preto à solta,
ora nos desfiladeiros da nossa liberdade.
Uma e outra vez fomos uns a alma dos outros,
uns o coração e a febre e o tesão dos outros.
Traidor, delactor, filho da mãe que também é nossa.


Zéphyro   11-08-2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Deuses de cativeiro

A cave era mais escura
que uma noite sem luar,
até porque não tinha janelas
e não interessava se havia ou não lua
e se havia ou não céu lá fora.
No tecto, a pequena gambiarra,
pendurada pelo gancho numa trave,
raramente acendia.
Apenas quando chegava o pão
e o couro do cinto ou o bambu
das varas que assobiam antes de aterrar.
Apenas quando vinha o carcereiro,
verificar o silêncio da mordaça
e o aperto tenaz dos atilhos,
nascia o sol pálido no mundo.
E que mundo... sujo, pequeno,
bafiento, prisioneiro no final das escadas
que vinham de cima, talvez do céu.
A cave era húmida como a tísica
e a tosse que não tem o que beber.
A cave rangia como madeira podre,
talvez por ser de madeira... e estar podre.
E se um naco de mundo caísse, um dia,
e soltasse os atilhos da trave
invariavelmente de pé?
No escuro, a sombra não brilha.
Porém, uma corrida só vale
se há pernas com carne para ela.
A cave, o mundo, faz doer a barriga,
e só a côdea dura de um pão,
uma vez ao dia, nem sei se de manhã
ou se pela noite,
não enche pulmão nem enche o corpo
de força e agilidade.
Fugir do mundo,
só pela porta da frente,
coagindo o carcereiro.
Ludibriando o carcereiro
com a astúcia sociopata
que fica no fundo de um corpo esfomeado,
agarrado aos seus restos
como arroz queimado
se agarra ao fundo de uma panela.
A cave era escura,
mas a cabeça era um coagulo pulsante,
mais escuro ainda,
sem traves onde pendurar gambiarras
que simulam o sol verdadeiro
que deve existir algures.
A cabeça era mais sinuosa
que a queda das escadas
que vinham do alto do mundo.
A cabeça fazia pilhagens na aurora,
desvirginava navalhas e cacos de garrafa.
Estrangulava com os atilhos
todos os pescoços distraídos
e mordia até saciar a fome de carne
uma bochecha que se aproximava
para contar ou ouvir um segredo ou um lamento.
A cabeça, podia correr escada acima,
chegar ao céu e ordenar a luz...
para que a cave não seja tão escura.
Há deuses, que cresceram em cativeiro
sem serem por isso menores
que os maiores deuses da humanidade.
Que cresceram em liberdade nas ruas,
motivados pela astúcia sociopata
que jaz no fundo de um corpo saciado,
enamorado pelos restos de si mesmo,
como o deus de cativeiro pela luz que não conhece.
Quem cresce prisioneiro de alguém,
acaba por viver sempre
prisioneiro de si mesmo.
Os deuses de cativeiro,
tiveram todo o tempo do mundo
para ouvir o que a vida lhes dizia,
para cheirar o que a vida lhes cozinhava,
para saborear o pitéu que ela lhes servia.
Sempre só ouviam o próprio medo,
só cheiravam a própria vergonha e fezes,
só saboreavam a própria carne
e o ferro que fica no céu da boca
quando não há nada que o tempere.
A cave, era escura.
Mais escura que o mar apagado
sem estrelas que reflectir.
E pesava, oprimia, detonava...
Mas nela, só ficam encarcerados os ossos,
que a alma é um deus, exilado em qualquer lugar.


Zéphyro  10-08-2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Podias ter sido tudo o que quisesses

Quando eras petiz ainda,
trazias sempre uma das mãos
agarrada na bainha das saias da tua mãe.
A outra, usavas para subtrair o mundo,
para arrancar-lhe pequenos pedaços,
dos quais te ias alimentando
enquanto te destacavas das multidões.
Podias ter sido o menino de ouro
de qualquer casal de elite,
o primogénito herdeiro legítimo
de qualquer fortuna do mundo.
Podias ter sido tudo o que quisesses.
Falavas pelos cotovelos
e tinhas sempre razão nos teus receios
e um ponto nas tuas questões.
Terias dado um excelente advogado
de causas perdidas, a última esperança
de um condenado para a vida.
Terias sido acérrimo de punhos cerrados
eriçando os pêlos de qualquer barra,
de qualquer tribunal.
Podias ter sido quem quisesses.
Podias ter sido um homem,
podias ter sido uma mulher,
até podias ser um grupo inteiro de gente
tal era o espaço que preenchias
com todo o teu saber.
Quando eras adolescente,
fazias-te deslocar pelo pequeno mundo enmurado,
seguido de perto por um arraial
de adolescentes como tu,
que te viam como uma espécie de profeta,
de todo um novo significado para as palavras.
Podias ter sido um magnânimo professor,
um mestre, que tiraria da cama
o maior dos gazeteiros
apenas com o carisma dos seus ensinamentos.
Podias ter sido tudo o que quisesses ser...
Quisesses tu ter sido algo.
Em que troço do caminho
perdeste tu a tua genialidade?
Terás esquecido tudo o quanto
quiseste um dia mostrar ao mundo?
Como se fosses o portador das imagens,
o tutor legal de todas as pinturas,
de todos os maiores artistas.
Podias ter sido o maior dos poetas
da era moderna e, na futura,
far-te-ias acompanhar pelos maiores
pensadores e filósofos da história.
Infelizmente, és só um defunto erguido,
que fala e mexe as pernas
como uma marioneta que alguém manipula
à distância segura de uma geração ou duas.
Podias ter tido o universo, qual bola,
a rolar-te nas palmas abertas.
Podias ter sido tu,
a operar a maior das marionetas.
Se não tivesses, algures, despojado o teu corpo
de toda a liberdade que precisas
para que o teu cérebro
queira correr o mundo de lés a lés.
Podias ter sido tudo que quisesses,
mas não és!

Zéphyro  07-08-2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Rei vai nu

Sonhei-me num sonho de verão,
senhor de todas as coisas,
dono de todas as praias
e rei de todas as ninfas.
Sonhei-me acordado e ao meu lado,
um criado mudo não tão mudo
quanto eu desejava que fosse.
Um criado, com gavetas e, nas gavetas,
um fundo falso escondido,
onde estão reféns todos os segredos
sórdidos e surdos que me fazem majestade.
Sonhei-me num sonho de verão,
nu e transpirado, cheio de areia
colada em grãos aos detalhes do meu corpo,
não tão firme, não tão duro,
que os sonhos raramente se deixam agarrar.
Caminhei no chão do sonho,
caminhei horas e gelei os pés
nas águas que, se escolhesse, estariam cálidas
como os beijos de uma boca maravilhada.
Mas não escolho e vou nu
e as águas são frias e escuras demais
para uma tarde de verão.
As rochas são sujas e a areia preta
e as algas roubam do ar à descarada
o perfume de ti, nua no meu encalço.
- O Rei vai nu! Dizes...
E eu, deixo que digas,
pois no sonho em que me sonhei,
sou realmente rei e vou nu na realidade.


Zéphyro  03-08-2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Será que vais ouvir-me?

Um poema, se for bem recitado,
ouve-se sempre no céu.
A voz funde-se com o tempo,
quando entoa sentimentos sublimes,
ocupa os espaços vazios do próprio espaço
e só pára em mãos celestes.
Só se detém se acompanhada
por harpas dedilhadas
e pequenas pancadas secas de xilofone.
Um poema, quando lido com alma,
ouve-se alto em toda a eternidade,
durante todo o universo.
Quando me recitarem, irás ouvir-me mãe?
Terás orgulho em mim
e verterás lágrimas de emoção
tocada pelas minhas palavras,
que disse e pensei sem estares cá para ouvir?
Quando se recita um poema,
passa a crer-se na metafísica.
Sincroniza-se a respiração com toda a existência
e o mundo passa a ser um só.
Dançando ondulantemente ao som
das mesmas palavras, proferidas
na linguagem universal da arte.
Será que vais entender o meu propósito, mãe?
Mesmo quando nem eu sempre me entendo
a mim mesmo e ainda menos ao que escrevi
e pensei sem estares cá para ouvir?
Um poema, bem recitado,
chega sempre ao céu, aos anjos
e ao próprio deus.
Mas o poeta, é matéria do inferno.
O poeta acaba sempre em cavaqueira
com o diabo, sem harpas nem xilofones.
Será que me ouves, mãe?
Será que me ouves e te orgulhas
antes de eu chegar lá abaixo?

Zéphyro  31-07-2015

A melhor forma de o dizer

Já tentei todas as formas
para te dizer o que tento dizer-te,
desde que te pertence a minha vida.
Cuidei que saberia, como mostrar
claramente a minha alma e o que puseste
habilmente dentro dela.
Cuidei que o faria com palavras despojadas,
que o faria com discurso ordinário,
ou com demonstrações vãs de desafecto.
Mas não disse nem fiz nada
de realmente concreto de vez nenhuma.
Foi tudo um marasmo de palavras ocas,
que se perderam no vento alheio,
uma panóplia de habilidades
sem habilitação para reabilitar.
Já tentei de todas as formas,
até com a poesia, que, dizem,
é a linguagem usada pelos deuses.
Cuidei que se deixasse os deuses
falarem por mim, encontrarias
a verdadeira religião nas suas vozes.
Cuidei que me crerias mais se os escutasses,
a dizerem-te ao ouvido os meus credos,
a rogarem-te ao ouvido pelos meus medos
e a guiarem os teus passos de mãos nas tuas costas.
Será que ouvirás a deus?
Será que temerás a deus e o amarás,
acima de tudo e de todas as coisas?
Ou talvez, deva tentar falar
através da voz que trazes muda
e surda bem escondida dentro de ti.
Sim, se me fizer ouvir pela tua voz
entender-me-ás de certeza.
Cuido que usarás as tuas próprias palavras
e cuido que encontrarás um novo sentido
nelas, ditas no segredo do teu coração.


Zéphyro  31-07-2015

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Capitão Fantasma

Eramos um grupo de jovens,
imberbes, franzinos e subnutridos.
De nós, fez o Capitão homens feitos,
de barba rija e preparados para a morte.
Eramos fracos, ganapos sem fé nem grei,
mas a nós, o Fantasma entrincheirou-nos,
bem enlameados nos fígados do inimigo
e fizemos prevalecer o nosso deus,
fizemos imperar a nossa ordem.
Eramos uma ilha de gente deserta,
sem ligações por terra a mais ninguém
e sem poderio para vencer nos mares.
Mas, o Capitão Fantasma, o nosso pai,
deu-nos uma casa e deu-nos uma família
e deu-nos uma causa e deu-nos uma mochila.
Com ele nos corações, já empedernidos
pela dureza dos nossos dias
e com as mochilas nas costas,
iremos mais uma vez deitar por terra
o inimigo que não respeita a nossa lei.
Vencê-lo-emos no seu território,
implodiremos os corações das suas cidades.
Nunca voltaremos da demanda,
mas, O Eterno Capitão, prevalecerá,
aqui, ou noutro mundo qualquer,
fazendo homens dos coitados meninos
que a guerra santa deixou sem mãe.


Zéphyro  29-07-2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Confesso

Estou a ficar louco, confesso.
Já quase não distingo os dias
uns dos outros e todos me parecem
uma longa viagem ao centro do nada.
Estou a ficar louco, confesso.
Esbracejo para manter-me à tona
da realidade que se entrelaça em mim
como o remoinho de um rio selvagem,
puxando-me para o fundo, para dentro,
para baixo, mais abaixo que sei lá o quê.
Sinto na boca o gosto da loucura
quando recordo acordar pela manhã.
O gosto azedo e indefinido
que  se desconhece se é bom
ou se é a fonte de todos os males.
Estou a ficar louco confesso.
Vestiria eu mesmo o colete de forças,
se encontrasse em mim sanidade para me mexer,
se soubesse em mim lucidez para abrir os olhos.
Imploraria eu mesmo por eutanásia,
se tivesse em mim noção de estar vivo,
se nascesse em mim a coragem para morrer.


Zéphyro  27-07-2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Bichos à solta

Um animal ao peito de uma senhora,
geralmente é uma estola.
O chumbo entra-lhes pelo peito
e estala os ossos à passagem
até se alojar num orgão vital qualquer.
Pode ter sido uma marta ou uma chinchila,
morto, apenas é uma estola que dá estilo.
Um touro a caminhar pelas ruas,
geralmente foi picado para a corrida
e não tenta apanhar quem lhe corre na frente,
apenas salvar-se da brasa do ferro.
Corre e tropeça, coitado,
sem direito a tapas e a sangrias,
mas sangra e transpira, pelas feridas destapadas.
Um urso de pé à janela,
é quase sempre um prisioneiro.
Salta arcos em chamas e corre ágil,
por cima de barris vazios de madeira.
Joga à bola e anda de monociclo
mas a janela, é de uma gaiola grande
e raramente o deixam juntar-se à mesa
com os comuns camaradas do circo.
Um chimpanzé amacacado de batões e purpurinas,
é apenas uma cobaia da mais fútil das ciências.
Não salta galhos, não come frutos
e vive numa gaiola sem janela,
que não veria mesmo que existisse
devido às reacções tóxicas nos olhos.
Passa o dia sentado, aguardando a morte,
ou a próxima sessão de maquilhagem,
que é mais ou menos a mesma coisa.
Deixem os bichos á solta!
Deixem que a marta salte para os pescoços
das senhoras mais elegantes
sem ter de ser uma estola morta.
Que possa o touro passear-se em Pamplona,
e ver as montras e apanhar bebedeiras
que o façam ter vontade
de alinhar nas festividades.
Permitam ao urso uma cavaqueira
com a dupla de trapezistas chineses
antes do espectáculo começar.
E, no fim, quando todos recolherem a casa,
felizes com os desempenhos dos artistas,
deixem que o urso beba um último copo,
na taberna com os demais,
para festejar mais um dia bem sucedido
na mais bela arte itinerante.
E os macacos... que o sejam sem macacadas!
Que possam pular com certeza
do próximo pulo a dar.
Que comam todos os frutos que puderem,
sem ter de borratar os lábiozitos,
tão bem coloridos de rosa choque.


Zéphyro  21-07-2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Os bichos que fogem do mar

Primeiro foi aquela velha nau quinhentista,
a dar à costa para amarar-se
num porto seco dos de agora.
Depois, emergiu o homem, bicho feio,
reluzente no seu fato de escafandro.
Trazendo em bolsas de cordame
todas as miudezas dos fundos do mar.
Marmotas e sardinhas,
mexilhões, ostras e ouriços,
um tritão e sete sereias.
Jaquinzinhos e caranguejos,
navalheiras, lingueirão e ouro perdido,
das menos capazes barcolas castelhanas.
Mas primeiro, a nau bela vicentina
com que galgámos mundo quando havia mundo.
Sem velas nem mastros, é certo,
mas inteira na segurança de um cais lusitano.
Atrás dela, tudo o resto que é bicheza
marginal, longínqua, corajosa e bravia.
Cobardes já há as andorinhas,
que abandonam o lar dos ninhos
pelo sol de terras mais sulistas e obliteradas.
Alinham-se e batem retirada, nos seus fatos pretos
aos primeiros sinais das chuvas
ainda mornas de outono.
Ah, mas aqueles bichos do mar,
todas aquelas criaturas com escamas,
com guelras e barbatanas,
comedoras de algas e plâncton
e homens e lulas bebé,
vêm todos ao meu encontro
nesta praia de prata ventosa
que lembra o agosto minhoto.


Zéphyro  07-06-2015

sábado, 6 de junho de 2015

Se a vida é uma escada...

Se a vida é uma escada,
eu vivo num vão dessa escada,
escondido por trás da balbúrdia
que sobe ou desce na minha ignorância.
Se a vida é uma escada, estanque,
nem sequer sei se sobe ou desce quem sobe e desce
a não ser que vá com pressa.
Sinto-me o único par de olhos sem óculos,
numa repleta sala de cinema a três dimensões.
O único a marchar a leste,
do paraíso que se queda a ocidente.
Se a vida é uma escada,
eu estou num vão arredado de consciência.
Como se toda a alma me tivesse deixado,
espremida das minhas tripas
pelas próprias mãos com que me detenho.
Preciso de um par de dedos, delicados,
que puxem e repuxem o lóbulo da minha orelha.
Preciso de um abraço silencioso e omnisciente.
Preciso de uma mão, firme,
enfiada entre as mechas do meu cabelo duro,
que afague o meu couro,
como se abraçasse toda a minha existência.
Se a vida é uma escada,
não subo... não desço.
Afastado dos degraus do passado
e do futuro, pelo vão escuro
e desprovido de ensejo
onde me escondo todas as noites.


Zéphyro  06-06-205

terça-feira, 21 de abril de 2015

Um regato que não desagua em parte nenhuma

Que triste ser um curso de água,
sem significado algum nem grandeza,
sem foz nem nascente,
nem montante nem jusante.
Apenas um riacho, ou menos que isso,
um mísero regato sem leito
que se esfuma a meio do percurso
por não ter onde cair morto.
Que triste correr em águas paradas,
que não aquecem nem arrefecem
e não desbravam nunca serra nenhuma.
Apenas um serandar sem sentido nem fé,
sem peixes nem penedos,
nem vida de espécie alguma.
Uma pasmaceira só, que respira por respirar,
sem dar nunca valor ao ar
que já não corre à sua volta.
Que triste ser um regato
que não é afluente de ninguém
nem tem espaço nos mapas
ou vales que o abracem.
É como ser orfão sem ter perdido os pais.
Como ser pai sem ter tido nunca um filho.
Como existir sem nunca ser de verdade.
Como pensar, sem concluir coisa nenhuma.


Zéphyro  21-04-2015

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Pequeno almoço na cama

O meu amor, adora um croissant quente
todos os dias ao acordar.
Isso e uma taça de morangos,
que segura pela rama enquanto suga
a polpa e morde a carne crua do fruto.
Todos os dias fico a vê-la comer,
lambendo inocentemente as migalhas tímidas
que teimam em segurar-se nos cantos da sua boca.
Fico a vê-la mordiscar com prazer
cada pedaço do que lhe levo na bandeja.
No final, sirvo-lhe sempre um café,
puro e forte que lhe carrega
de energia o corpo para mais uma jornada.
O meu amor, lambuza-se sempre na cama,
despojada de cobertas e lençóis,
desnudada de vestimentas excessivamente quentes.
Nunca falo enquanto ela rebola
no sustento que lhe sirvo com gosto.
Temo interromper-lhe os pensamentos
e roubar-lhe a sofreguidão com que esmiúça
em pequenos pedaços o pastel francês.
Pequenos pedaços que mastiga
enquanto me olha nos olhos,
com olhos de quem come e chora por mais.
O meu amor, toma sempre o pequeno almoço
na cama onde sonhou a noite inteira,
segura na servidão dos meus braços.


Zéphyro   17-04-2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Cada vez mais bonita

Não sei como não te perseguem
os homens na rua, até à porta de casa.
Já te conheço há mais de meia vida
e estás cada vez mais bonita.
O céu, cada noite está mais escuro
e apagado de estrelas
e esburacada está a atmosfera
que não filtra a luz do sol
que nos mata todos os dias um pedaço.
Antes era bom o sol, agora faz doer.
Tu não, estás cada vez mais bonita
e cada dia mais quente do que ontem.
Nem sei como não rezam a ti nos templos
se há outros deuses e deusas
bem mais feias e bajuladas por homens e mulheres
e velhos e crianças de toda a parte.
Já metade da minha eternidade fugiu,
por entre as nesgas dos meus dedos
que ergo alto nas mãos com que te faço vénias
e tu, cada vez estás mais bonita.
Ao contrário do que dizem,
muito bons vinhos dão em vinagre a seu tempo,
capazes de embaraçar outros tantos Dionísios por aí.
Muitas almas emburrecem com a idade,
perdendo nas rugas de aventesma a sabedoria
de outrora, quando de noite ainda era cedo.
Tu não envelheces, ou pouco se nota.
E não é da minha vista que tenho todo o alcance ainda.
Simplesmente a idade, não tem tarimba suficiente
para te fazer viajar com ela.
Cada dia que passa, estás mais bonita
e eu mais grato de poder chamar-te minha.
Nem sei, honestamente, como só de te ver passar
não se ajoelham as árvores dos parques
envergonhadas pela falta de exuberância
das suas folhagens quando comparadas a ti.
Já caminho ao teu lado há meio mundo
e não te vi perder ainda réstia de graça,
não te vi deixar para trás, nas lamas,
nenhum passo deselegante ou desordenado.
Tudo em ti é sintonia
e tudo em ti é sinfonia
que não canso de escutar, todos os dias,
logo pela manhã e antes de deitar.
Tudo em ti é simbiose
e tudo em ti é metamorfose,
brotando do casulo de seda.
Que sorte tenho eu de poder assistir
ao teu bailado de borboleta colorida,
que esvoaça por toda a parte
mas poisa sempre nas minhas pétalas desbotadas.
Não sei como é possível alguém viver sem ti
e chamar belo ao que quer que seja que o rodeie.
Já abracei mais de meia morte
e tu cada vez mais viva,
cada vez mais bonita.


Zéphyro   16-04-2015

sábado, 11 de abril de 2015

O meu melhor amigo

O meu melhor amigo,
recebe-me sempre com o mesmo sorriso franco
a cada vez que regresso à aldeia.
Não lhe interessa se tenho dinheiro
ou como me corre o negócio na cidade.
Mal me avista, ao longe, o carro
todo ele se torna braços abertos,
num abraço tão acessível e sincero
que chega a ser mais santo que o do cristo rei de Almada.
O meu melhor amigo,
passa os dias no café,
com outros amigos de alguém
que aguardam pelos regressos.
Enquanto aguardam, partilham a esperança
que é quase tudo quanto têm que partilhar.
Porque será que só os pobres
parecem prontos para a igualdade?
Os verdadeiramente pobres,
que nem chegam a ser donos de condomínio,
dividem uns pelos outros os cigarros,
enrolados pela mão de algum deles,
espalhados na mesa como que a convite.
Alternam a voz que pede as rodadas,
que nenhum acaba por pagar.
Ainda assim o taberneiro,
também um pobre da aldeia,
lhes serve o refresco sem exigências.
O meu melhor amigo,
levanta-se sempre da mesa do café
mal avista, ao longe, o meu carro
a fazer tempestade das terras soltas
que enchem as curvas da estrada.
Quando saio do carro numa nuvem de poeira
é dele o primeiro rosto feliz que vejo.
É dele a primeira voz que ouço
a abençoar-me o regresso.
Porque será que só os pobres ficam felizes,
com o regresso de um rico à aldeia?
Talvez vejam nele o triunfo,
que teriam, eles mesmo, alcançado,
caso se tivessem dado ao trabalho
de vazar umas quantas vistas na escalada.
O meu melhor amigo,
não vazou nunca vista nenhuma.
Apenas, talvez, a sua
a cada vez que tenho de voltar
para a cidade depois do feriado.
Nesses dias, fica sempre a ver-me,
enquanto, ao longe, o carro se torna
num ponto cada vez mais difuso no horizonte.
Eu raramente o vejo acenar-me,
escondido que fica no pó esvoaçante
mas tenho sempre a certeza que ele lá está.
Que só tornará a sentar-se na mesa de café
após eu estar já longe da vista,
para retomar os jogos de cartas
e pedir mais uma rodada para todos
que agora é a sua vez
e bem precisa do aconchego de uma bebida.
O meu melhor amigo,
só retoma com a vida quando estou longe da vista,
mas sei que não chego nunca
a despovoar-lhe o coração,
nos tempos mortos que vai contando da mesa da taberna.


Zéphyro   11-04-2015

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O negro das ardósias


Tenho na alma o negro das ardósias
vazias, onde nunca se escreveu lição.
O negro das ardósias que arrelia
com um silvo que arrepia
ao esgravatar das unhas alheias ao que sou.
Sou por dentro uma sala de aula antiga,
desprovida de alunos e professora
que partiram já para escolas mais modernas.
Só cadeiras anafadas e carteiras de madeira
com sulcos, vazios de esferográficas.
Um mapa dos rios e províncias meio rasgado,
na parede amarelecida pela humidade
e as tabelas da tabuada penduradas na porta
com uma tacha ferrugenta
que não caiu por não ter chão.
Na alma, tenho o negro das ardósias,
onde nenhuma data está marcada
e onde ninguém escreveu sumário.
Apenas espaço livre para a sabedoria
que nunca chega a estas bandas
onde já não há ninguém
que dê cor ao entulho rude e negro
que tenho dentro de mim.
O negro das ardósias
onde nunca ninguém aprendeu nada
ou teve ensejo de ensinar.
Apenas o pó deixado pela falta de uso,
o apagador pendurado na lombada
e dois paus de giz por estrear.


Zéphyro   10-04-2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

As mechas de Sansão

Sansão era forte como um touro,
ou até dois, que dificilmente um touro,
derrotaria sozinho um exército de fariseus,
munido apenas de uma queixada de jumento.
Os seus braços eram arietes nas muralhas inimigas,
as suas pernas, eram troncos que marravam o solo
com a força de uma tormenta.
Mas a maior das suas forças era o seu cabelo,
longo e crespo como crina de um cavalo andaluz.
E eu? Que será de mim calvo que fiquei,
ainda na cara tinha as marcas do acne?
Que Dalila quererá trair-me
e cortar durante o sono
a força bruta que não tenho na cabeça?
Quem poderia derrotar eu sozinho
se nem um touro chego a valer?
Sansão valia dois, ou mais até!
E tinha mechas só comparáveis em beleza
com o ouro dos cabelos da Rapunzel.
Eu, estou praticamente careca.
Um ou outro tufo de lado,
por cima das orelhas, mas nem chego a parecer gente.
Assemelho-me mais a um dente-de-leão soprado pelo vento.
Como sobreviverei na selva dos dias
por onde passo sem bater em ninguém?
Como queria eu um punhal bem espetado nas costas
e acordar sem forças numa destas manhãs.
Que belo seria recupera-las mais tarde
para fazer ruir um coliseu qualquer
cheio de gente e apupos, mesmo estando careca...


Zéphyro   08-04-2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

Esta minha mania de em todo o lado ver poesia

Em todo o lado vejo poesia,
que mania...
Vejo-a nos corpos espalhados
ao longo da encosta chamuscada
de uma montanha destroçada,
nos pedaços perdidos de fuselagem fumegante
e no laranja choque das caixas negras.
Cheiro-a no podre dos dejectos
que alicerçam os nossos lares,
sempre tão atrasados para tudo
e sem tempo para nada
e no acre dos mijos
onde nos banhamos enclausurados
na nossa própria ignorância.
Em todo o lado vejo poesia,
que maldição...
Rimo na minha cabeça
Israel com Palestina
e é um soneto novo por cada velha guerra.
É metáfora quando pais violam filhos
e quando ricos roubam pobres
e quando governantes desgovernam.
É romance puro
cada um dos gritos de dor
das almas que sofrem todos os dias
em todo o lado por onde eu ande.
Ande eu longe ou perto de mim mesmo
há sempre alguém que chora a cada esquina,
sempre alguma criança perdida para sempre
para as garras do abandono e da penúria.
Em todo o lado vejo poesia,
que chaga...
Faço odes aos amores desencontrados
na amargura da traição da carne
e aos velhos que morrem sozinhos
em aldeias do interior
e que sozinhos permanecem até que o cheiro
da decomposição chegue ao luxo da cidade.
Ou será ao lixo da cidade?
Poesia em todo o lado,
que mania...
Até nos olhos negros das meninas indianas
que não chegam a existir, apenas  pertencem
e nos braços magros da fome africana,
pintalgada de moscas e de papos cheios de ar.
Sempre o raio da poesia,
que tormento...


Zéphyro  27-03-2015

sábado, 21 de março de 2015

Que saudade das maçarocas de milho

A avó gostava de sentar-se bem ali,
naquele recanto do terraço,
debaixo do umbral da garagem.
Ainda a consigo ver claramente...
De chapéu na cabeça, que a medo
a mãe lhe põe para proteger do sol.
A avó, veste sempre bata florida
e adora passar horas a dedilhar
maçaroca fora os pequenos bagos de milho.
Pequenos como os filhos que teve, muitos.
Pequenos como aqueles filhos que perdeu
para linhas malfadadas e garrafas de vinho barato.
Ao seu lado, um imenso saco de sarapilheira
vermelho e já esburacado pelas maçarocas pontiagudas.
À sua frente, uma bacia de plástico
que se vai enchendo de grãos
e sonhos que olha no espaço vazio em frente.
Às vezes, a avó cochicha qualquer coisa
enquanto se entretém com o milho.
Uma qualquer espécie de reza
a um qualquer santo longínquo
a quem rezam todas as velhotas.
Quando a avó reza, eu gosto de dormir
ao seu lado, embalada pelo suave bichanar
da sua voz enrouquecida pelo tempo.
O colo da avó é pequeno, mas é tão generoso
que parece albergar todos sonhos,
todos os refúgios do mundo.
Quantos filhos e netos
e sobrinhos e bisnetos,
albergou aquele colo sempre tão pronto.
Nem a dureza da vida vivida,
do trabalho e do peso nas costas
lhe enrijeceu o abraço, sempre tão terno.
Oxalá a mãe fique como a avó, um dia.
E vista sempre bata florida,
por cima do luto deixado pela vida.
Oxalá a mãe aprenda as rezas certas
e permita que durma no seu colo,
eu e os filhos que hei-de ter.
Pena que já não tenha o tio o terreno,
de onde vinham as maçarocas
que enchiam de sonhos as tardes de verão.
Mas prometo vasculhar tudo
e trazer uns quantos sacos, iguaizinhos
aos de antigamente e dedilharemos juntos
para relembrar o passado e os amores que lá ficaram.
A avó, amava sempre muito a toda a gente.


Zéphyro  21-03-2015

terça-feira, 17 de março de 2015

O homem que veio do sul

E eis que um homem veio do sul,
ainda catraio mal calçado,
para ocupar uma casita
nos baldios a sul do tejo.
Corria as ruas de calção reguila
roubava a fruta e fisgava gatos,
enquanto se lhe escoava o sangue da vista.
Ao homem que veio do sul, faltou-lhe a mãe
quando mais precisou dela
e faltou-lhe o pai, por sentir a falta dela.
Faltou-lhe tudo e um tudo nada
para que nada lhe faltasse.
O amor deram-lhe as tias
e uma avó mais lá para norte,
a semi orfandade fez dele verdade
e deu-lhe toda uma vontade
de não necessitar de mais ninguém.
E eis o homem que veio do sul,
a descer do céu escuro por magia
acompanhado a meio fundo
por um avião escondido na noite.
Eis que cai de pé, com rolamento à frente
e sai ileso, cada vez mais alto,
cada vez mais esperto e até já dobra
o seu próprio paraquedas.
O catraio fez-se um homem e que bem
há-de ter-lhe ficado a farda.
Depois correu e cheirou a vida
em cada esquina como um cão perdido,
em busca de novo lar.
Correu e nunca dormiu
bebeu firme e hirto
que as árvores morrem de pé.
E eis o homem que veio do sul,
todo cordas e correntes
porque a neve escorrega que se farta.
Lá para os cantões helvéticos
de manga arregaçada a pegar no boi
pelos cornos, como se faz no seu baldio
ribatejano a sul do tejo.
Ei-lo de bem com a vida
que não deixa nunca para trás das costas.
Ei-lo fiel escudeiro da beldade das herdeiras
e da honra da sua musa
a quem jamais faltará.
Até porque as boas tias e avós nortenhas,
já escasseiam nos dias de hoje
e à falta de árvores de fruto
quem iria matar-lhes a fome?


Zéphyro   17-03-2015

sábado, 14 de março de 2015

Um esteio ainda pesa

O meu pai era um esteio
dentro da casa onde cresci.
Penduravam-se nele todas as heras,
toda a ramagem e todos os medos da vida.
Respondia ele a todas as perguntas,
rompia ele todos os silêncios
e falava mais alto que todos os outros,
mais grosso que todos nós, que adorávamos ouvi-lo.
O meu pai era um esteio, uma viga
em pedras e ferro e todos os outros materiais
duros e duráveis desta vida tão efémera.
Só o tempo o foi carcomendo em pedaços
pequenos como os de pão que atirávamos aos patos
nos domingos de manhã, quando íamos ao parque.
Só o tempo o foi vergando e dobrando,
fazendo-o abandonar-se à sorte
e ficar todo coberto da vegetação selvagem
que proliferou nele muito além da sua partida.
O meu pai, pesava como um esteio,
levei-o eu à última morada, ao ombro esquerdo.
Ainda tentei que fosse no direito,
mas o primo Alfredo podia menos que eu
e já sofria das costas na altura...
... ainda sofre hoje, acho.
Esse, nunca foi o esteio de ninguém,
a trave mestra de lar algum.
O meu pai porém até enterrado
suporta com hombridade o peso de toda a terra
que tem em cima do caixão de madeira africana.
Tratada com verniz de acabamento avermelhado
como os violinos antigos, de quando a música soava melhor.
O jazigo dele, foi o último a abater-se
no cemitério onde ocupa agora uma gaveta.
Que ironia... uma gaveta, para quem já foi um mundo.
Que tristeza... uma mera gaveta, onde os ossos
nem espaço têm para formar um corpo.
São só um monte de ossos
e em nada homenageiam o homem que já sustentaram
que sustentava toda uma família às costas.
Aquelas costas que são agora apenas
um punhado de vértebras soltas, espalhadas
entre joelhos e rádios e perónios.
O meu pai é um esteio, desmanchado pelas honras
que sempre acolheu de peito aberto.
Um esteio, como muitos outros esteios
meio cobertos pelas areias do passado,
caídos nos sulcos de uma berma qualquer.


Zéphyro   14-03-2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Um cadafalso e uma praça cheia de gente

Daqui por dez minutos, já os meus pés penderão na penumbra do cadafalso, agitando o ar vazio e fresco onde dois ou três putos se refugiam para jogar ao berlinde.
Junta-se sempre tanta gente no rossio em manhãs de enforcamento que a criançada, maçada por passar tanta hora de pé, se esconde debaixo do púlpito da morte, onde voltarão para a actuação do conjunto de variedades, lá mais para a tardinha. Já antevejo a cena... os meus pés a estrebuchar e uma data de moscardos esverdeados em redor, que nem direito a higiene pessoal tive, na última noite de cárcere. Só espero que algum eventual mau cheiro não afugente a multidão pois iria detestar morrer sozinho.
Catrapum! Ao meu lado esquerdo, já se abriu o primeiro postigo. O meu companheiro já rebaixado, ainda treme e ainda corre urina pelas suas pernas em direcção à brincadeira dos petizes. Nem lhe ouvi um pio, nem lhe vi nos olhos arregalados o medo, cobertos estavam pela sarapilheira do barrete que lhe cega a cabeça.
O povo, aplaude e apupa dividido na sua opinião, consigo ouvi-los, mas já me embarretam a mim também, não devo tardar. Ainda sinto o cheiro a chouriço assado e vinho, da barraca à direita do fontanário. Escuto vozes vindas de lá, onde alguém vai petiscando enquanto vidas humanas são ceifadas como trigo. Ao longe, a fanfarra a ensaiar no coreto em voz baixa os hinos que marcam o final da agenda matinal, a tocar dentro de momentos.
Sinto a corda rude a ajustar-se no meu pescoço e a respiração do meu carrasco no alto da minha nuca. Parece algo nervoso, com certeza, não quer equivocar-se no nó e na medida do pescoço com toda a praça a assistir. Sinto-lhe as mão trémulas enquanto pelos dentes cerrados lhe sai um "desculpa, vai em paz". Oxalá, condoído, não me aperte em demasia. É deveras desconfortável esta corda, que me pica a pele da garganta e me dá comichão impossível de coçar com as mão seguras atrás das costas.
Gostava de, dentro de segundos, poder ver a minha vida passar-me, num instante, pelos olhos como um filme. Como sempre me garantia o Tio Casimiro que acontece a toda a gente que está lúcido ás portas da morte. Mas esta maldita urticária não me permite concentrar. Não existe concentração possível com as fibras a penetrar-me a pele desta forma.
Catrapum! E agora foi o meu postigo a sorver-me, não sem antes soltar um guincho típico de assassino em final de carreira que se entedia com os últimos suspiros de quem perde o chão debaixo dos pés. Os meus, sacudidos por intensos espasmos do meu corpo em busca de uma salvadora golfada de ar, pendem já no oco do cadafalso. Moscas como previ, mas muitas mais que sempre buscam o mijo e o nojo. Nem sinal dos putos, que já fogem daquele corpo malcheiroso, pendurado em vergonha e desventura no rossio da cidade.
Disseram-me em tempos que traí a minha pátria e vendi a um espanhol abastado a minha única filha, que me deu a minha mulher, levada nova pela cólera dos dias.
Fui considerado culpado de conspirar contra o estado e estender ao inimigo a mão de uma lusa cheia de graça. Mas já não me defendo que já cá não estou.
O rossio, já em debandada para o almoço, perde algum do seu encanto, nesta manhã de domingo. Já só dois carrascos de cara destapada e um pároco no centro da praça, ensacam e benzem os corpos rígidos entre os quais está o meu.


Zéphyro  13-03-2015

segunda-feira, 2 de março de 2015

Entretanto envelheci e defraudei as tuas expectativas

Quando te conheci era novo e bonito.
Podia lavar-se a roupa na minha barriga
e corria tanto e tão rápido
que havia quem me pedisse boleia para casa.
Quando me conheceste vestia sempre de preto.
O cabelo, dava-me pelos ombros
e tinha sempre sentido o que eu escrevia.
Tinha sempre fundamento o que eu dizia
e tu acreditavas-me tanto na altura...
Quando nos conhecemos, eu era um filósofo
e tinha estilo dos pés à cabeça.
Tenho pena de não ter podido manter-me
belo e jovem para ti,
de não poder dar-te o meu auge
e de te enganar como um iogurte
que destalha antes do final do prazo de validade.
Lamento, mas agora sou velho e feio.
Tenho a barriga gorda e mais peluda
e sabes bem que já não consigo correr.
Doem-me os joelhos, doem-me as costas,
falta-me o ar e falta-me vontade.
As roupas que visto, parecem da minha idade
e são tão desbotadas como o meu cabelo.
Estou a ficar grisalho e estou a ficar careca.
Poupo em produtos de higiene mas tenho sempre
tanto frio na cabeça agora.
Talvez devido a isso,
me tenham congelado as ideias
e, hoje em dia, quase já não digo nada
e quase não escrevo já poesia.
Umas linhitas sem fundamento sim
mas nunca mais as linhas líricas
e lindas de quando me conheceste.
Será que ainda acreditas em mim hoje?
Acreditas se te disser que sei
todos os segredos do universo?
Não acredito que acredites...
Agora já não sei mentir-te
e apanhas-me pelos olhos que te fogem acobardados.
Apanhas-me, porque se me esvaiu a filosofia
e agora, já só te tenho a ti.


Zéphyro  02-03-2015

domingo, 1 de março de 2015

Ao Pato Donald, nunca o vi de calças de ganga

O que vale, é que era pequeno o escritório, nunca gostei que me apresentassem gente. Pelo que vejo daqui, é a Paula dos recursos humanos, que está aqui ao meu lado de calças pretas, tipo licra e camisa florida. Usa óculos grandes, portanto não me esqueço mais da Paula. Ao lado dela, numa secretária individual, está o Carlos. É ele que trata da contabilidade e, provavelmente, é ele que trata também da própria roupa... se fosse a mulher, com certeza não o deixava vir trabalhar de fato e gravata para um escritório de gente na casa dos trinta, no qual nem sequer tem voto na matéria. Trata dos pagamentos e pronto. Autoriza tudo o que lhe mandam autorizar e pronto. Mas ainda bem que vem de fato e que o fato lhe fica mal. Até já Carlos. Tenho de ir conhecer o resto do escritório. Dois monos que estão numa ilha de duas mesas, mais uma mocita, logo á entrada da porta, que abre a mesma a quem chega e atende os telefones quando tocam. Ainda não os ouvi desde que cheguei.
A Ana, usa uma saiazita justa, que lhe fica muito bem, realça-lhe as curvas. Eu gosto, fica bem com a camisa branca de corte moderno, meia transparente nos ombros. Dá-lhe um ar profissional, mas não demasiado formal. Os monos, grafistas na empresa, os únicos aliás, um era o Adriano, que vestia calças de sarja vermelha, vá-se lá entender, o outro era o Rui, grande como uma casa, de camisa e calças largas, claras, ao estilo de pai de santo brasileiro. Usa um brinquinho parvo na orelha direita, talvez para reforçar que ainda só tem trinta e dois anos, apesar da obesidade móbida lhe dar ares de cinquenta e dois e que também é um grande maluco e até fuma umas coisas quando sai ao fim de semana.
Só falta o chefe, o único no andar de cima, é Dr. Gustavo o nome, e usa, bastante a prpósito, um estilo todo apaneleirado de calcinha semi justa e pullover de gola em bico, com uma camisinha azul com brilho, por baixo. Tudo em pendant com o pedantismo da figura e do cabelo empastado de gel. Também registei o Dr. Gustavo, embora ache que não o vou ver muitas vezes.
E passou o primeiro dia, entre os primeiros afazeres e receber um portátil para trabalhar em qualquer parte, mesmo quando estou em casa e almoçar com os novos colegas, dos quais me lembro de todos os nomes, que são sempre simpáticos e cordiais no primeiro dia de trabalho. Nessa noite, dormi com o falso conforto de me sentir adaptado ao novo trabalho... erro crasso.
Quando entrei, na segunda feira, segundo dia de trabalho, até pensei que era engano e que tinha entrado no escritório errado. Era normal naquele corredor de escritórios num prédio de vinte andares, de escritórios. As pessoas às vezes enganam-se. Mas não, alguém me passou nas costas e me dirigiu um claro e inequivoco "bom dia Luis" e o Luis sou eu. A pessoa em causa, é uma mulher, novita, que me faz lembrar vagamente a moçoila, da semana passada, a que atendia os telefones mais silenciosos do mundo, mas é impossível ter a certeza, estando ela de calças e casaco de malha.
Quando dou por mim, reconheço o espaço, reconheço vagamente os esgares na cara das pessoas, mas todos estão diferentes. Os monos vinham os dois de ganga e casaco, um de bombazine, outro de camurça castanha, o esticadinho da contabilidade, de lencinho ao pescoço, de calças cinza com risca preta, e a rapriga dos recuros humanos, que me apresentou a toda a gente, não me lembro agora do nome, está de de vestido comprido de lã, nem sei se já a vi mais gorda. Ainda bem que não veio o chefe, o Dr. Gustavo. Oxalá ainda seja o mesmo quando aparecer aqui um dia.
Que é isto afinal?! Já não pode confiar-se nas pessoas. Não pode esperar-se que se mantenham as mesmas no dia seguinte ao último em que as vimos? Porque teimam em mudar todos os dias a camuflagem, a indumentária e até as maquilhagens e os óculos, que antes eram para quem via mal, agora são também enfeites?
Porque razão não temos todos, armários cheios da mesma toilette que escolhemos quando ingressamos no mundo? Só tínhamos de ir alterando os tamanhos com a idade seríamos imensamente mais fiáveis e nem precisávamos de bilhete de identidade. Quem é aquele que vem ali de casaco de ganga e calça de treino da adidas? Só pode ser o Nuno, ninguém mais usa aqueles trajes. Quem é que vem a conduzir aquele carro que atropelou aquela velha? Não vi bem, mas pelos óculos de tartaruga, só podia ser a dona Alzira de Canidelo. Ouvi que nunca se habituou ao carro novo.
Não são tão fiáveis e divertidos, que nos proporcionam tantos momentos de alegria, os desenhos animados, por exemplo? Olhem o Pato Donald, inconfundível no seu fato de marinheiro da cintura para cima. Tem um closet cheio deles, todos iguaizinhos. Também há o Popeye, que traja de marinheiro e até tem tatuagens de âncoras nos braços, mas esse usa calças, ao contrário do Pato, logo são impossíveis de confundir.
O Mickey? Usa aqueles calções vermelhos parvos e já está, não inventa mais. O Bart? Usa aquela roupa de puto reguila, o cabelo espetado e pronto. Ainda tem o skate, para lhe assegurar a originalidade, eu já nem pedia tanto, basta-me que tenham cuidado com as roupas que vestem.
Nem só nos desenhos animados isto se passa. Cada qual, ter a sua indumentária única e intransmissível, só facilita a vida ao mundo, inclusive entre as referências religiosas, os nossos heróis. Eles nunca mudavam de roupa. Eu, pelo menos, Nunca vi o Jesus Cristo de calças de ganga, ou de botas à metaleiro, ou a correr de sapatilha e calção de licra abichanado. Nunca vi o Dalai Lama sem ser de túnica laranja, ou amarelo torrado ou lá o que é aquilo. Se me aparecesse à frente, de farta cabeleira e de vestimenta ocidental, ia lá acreditar que escrevinhava aquelas frases todas, que leio na internet que escreveu. Aquilo são frases que sim senhor, só ao alcance de referências religiosas, como, nomeadamente, o Dalai Lama.
Mesmo os deuses Hindus, ou têm trombas, ou têm muitos braços e trombas, e muitos braços e trombas e também cornos. São um tanto ou quanto parecidos, mas para os verdadeiros conhecedores, inconfundíveis também.
E eis-me ainda no escritório. Tenho tanto trabalho que fazer e não sei a quem peça que me arranje um cabo para ligar-me à rede com o computador. Na semana passada, quando me apresentaram os meus colegas, quando ainda pensei que fossem ser os mesmos na semana seguinte, disseram-me que era o Adriano que tratava dessas coisas, o que usava calças vermelhas de sarja, vá lá entender-se porquê.
Se calhar vou é para casa, aqui já não conheço ninguém.


Zéphyro   01-03-2015

sábado, 28 de fevereiro de 2015

De volta a casa

A central de camionetas estava cheia de gente. Grandes e pequenos em correria e farnéis e marmitas e soldados de farda e caqui camuflado a trocar paleio e a fumar cigarros uns atrás dos outros. Quando chegou a Lisboa, ainda  havia carroças e charretes nas ruas e raramente os magalas andavam contentes.
Cinquenta anos passam num ápice e só deixam marcas no corpo, se tivermos tempo de olhar para elas. Lucília, era pouco dada a curativos e ligaduras. Tinha pouco tempo para chagas e aflições. Vender cestaria de pé na feira não deixa espaço a pieguices. Talvez inche um pouco as pernas, mas a gente habitua-se a tudo com o tempo. Menos à solidão, que quanto mais é solidão, mais se entranha nos ossos como a humidade da zona ribeirinha da capital.
Há cinquenta anos, as pessoas ainda compravam cestas e seiras de vime e ainda dava para o pão ter arte nas unhas. Há cinquenta anos, ainda havia quem tivesse os três aos quinze anos e um mar de pretendentes com macheza em todas as algibeiras. Era só escolher um e Lucília escolheu. Era só aturar um e lavar-lhe sempre a roupa e cozinhar-lhe o almoço e pô-lo numa marmita embrulhado em folha de jornal. Cozinhar-lhe o jantar e servi-lo sempre a horas, para que saia de casa a horas e chegue ao grémio a horas da jogatana habitual.
Lisboa tinha mais luz, há cinquenta anos e cheirava mais a fruta e a castanhas. Andava mais gente nas ruas, agora, só desfiles de carnaval e  o circo na cidade. Castanhas, em uma ou outra esquina e já não cheiram ao de antigamente. A feira da Praça de Espanha, agora é só chineses e indianos e quinquilharia que não dura. A feira popular já não existe e a roda gigante, chamam-lhe segunda circular. Lucília nunca se acostumou aos carros e ao barulho dos carros, muito menos ao fumo dos carros. Fez-lhe falta o cheiro ao urze e ao alecrim que sempre lhe segredavam os bons dias ao acordar, quando ainda tinha futuro na aldeia. Meteu-a a madrinha numa carroça, à boleia com o Sr. Afonso, que vendia galinhas para a cidade grande. A viagem levava três dias na altura, agora eram três horas. Pena já ter morrido o Sr. Afonso e talvez tenham morrido também as mulas da carroça.
Apalavrada com um quarto no Cais do Sodré, na casa de uma matriene, prima afastada da madrinha, Lucília viu-se sozinha com a sua inocência e corrompeu-se ao primeiro patife de bigode. Trabalhava nas docas a carregar os barcos que saiam para as colónias com abastecimento para os soldados a honrar a pátria no além mar. Emprenhou-a ainda cheirava ela a campo e chutou-a para canto mal se lhe notou barriga. Foi talvez melhor assim. Era um bruto de Trás-os-Montes com queda pela bebida e pelos quartinhos de alugar à hora, no último andar da pensão.
A menina, ao nascer, já vinha roxa, que, dizem, sufocou dentro do ventre porque a mãe em pânico fechou as pernas como aprisiona o urso o abraço dentado da armadilha. Não chegou a vê-la Lucília e foi melhor assim, que era o trombil escarrado do pai.
Há cinquenta anos, poucos homens aceitavam uma mulher usada e suja pelo sémen de outro. Ainda por cima do norte. Os que aceitavam, eram ainda mais sujos e corria-lhes nas veias o sangue ganancioso e frio da capital. Pouco dado a trabalho, o Tavares, era conhecido como o tal da vida airada. Um balelas de um pelintra sem ter onde cair morto e que mantinha quatro mulheres, espalhadas pela cidade, a quem sugava o suor do rosto, directamente dos porta-moedas de crochet. Lucília era a única, sabia-o de certeza quando tinha vinte anos. Aos trinta, não tinha tanta certeza já, nem tinha tantos dentes na boca das tareias de entretanto. Aos cinquenta, quando ele foi parar com os ossos à cadeia, por desacatos em via pública e agressão a um agente da autoridade, jurou a si mesma não mais querer nenhum homem. Eram todos feios, porcos e maus, mesmo os que eram bonitos com os seus bigodinhos aparados. Principalmente esses.
Ao companheiro que odiava... visitou-o todos os dias na cadeia. Ia e vinha na furgoneta de um vizinho, que a deixava em sete rios e a apanhava no areeiro, todos os dias às três horas da tarde. Todos os santos dias, com excepção de alguns domingos, durante cinco anos, visitou o pobre na masmorra e viu-o mingar-se cada vez mais até desaparecer para o caixão da tuberculose.
A vida é triste quando já não há quem visitar. Quando não temos ninguém nosso, mesmo que há cinquenta anos vivamos nela, nenhuma casa chega a ser nossa. Numa cidade de estranhos, nem um século chega para chamar alguém de família.
A central estava cheia, agora já não há carroças, apenas autocarros, enormes, que fazem duas ou três viagens ao dia. A de Lucília já lá vinha e já trazia gente que entrara no campo das cebolas. Hoje em dia, já ninguém leva galinhas nas camionetas, ou bacalhaus inteiros e salpicões e garrafões de moscatel de Setúbal. Agora, as pessoas têm civismo, e só carregam pequenas maletas com rodinhas e umas pastas finas, onde carregam com os dedos.
Estava feliz por poder cumprir a promessa que fizera a si mesma. Voltar à terrinha e à casinha que a madrinha, ao morrer lhe deixara. Não por apreço, que a despachou ainda ganapa por não querer carregar-lhe o peso, mas porque, de facto, não tinha mais ninguém. De qualquer forma, Lucília era a orgulhosa dona de uma casita de pedra e um pedacito de horta onde podia semear umas batatas ou assim. Aos sessenta e cinco anos, estava ainda em boa forma e não tinha medo do trabalho no campo, era uma questão de relembrar e desemperrar movimentos oclusos durante meio século. Mas quem sabe, não esquece. Não fosse este sono, que não a deixava há meses e cantava de alegria os hinos de menina nos passeios até á Caparica.
Ia sentada logo atrás do motorista a olhar-lhe para a nuca já ligeiramente calva, os motoristas agora já não usam chapéu de serviço, e pensava como seria acordar no dia seguinte, já numa cama que é só sua e sem cestas para vender, de pé, por meia dúzia de tostões. Ao seu lado, um casalinho moderno, apertava, cada um para seu lado, um monitorzinho pequeno, nas tais pastinhas finas que muitos jovens usam debaixo dos braços. Devia ser engraçada o raio da maquineta, pois em vez de ir aos amassos e beijinhos que tanto ajudam a queimar o asfalto da viagem, iam cada um com o seu sorriso parvo, como quem lê uma piada diferente e a entende à sua própria maneira. Partilha? Zero. Paixão? Ainda menos. Mas é assim ser moderno, tem o seu preço. O que vale é que tudo se paga a prestações hoje em dia, apesar dos juros de bradar aos céus.
Ao olhar para o casalinho, sentiu o sono chamar por si no embalo da estrada. Era tão suave andar de carro agora e as estradas tão macias que pareciam lençóis, daqueles de flanela, das camas quentinhas que a esperavam de volta a casa.
O rádio da camioneta ia ligado, baixinho, e passava um qualquer programa vespertino destas rádios de agora e, o motorista, descontraído ria de qualquer coisa que umas pessoas diziam. Lucília não ouvia bem, mas também já quase não ouvia, mas apreciava a companhia ainda assim.
Ao meio dia, paragem numa área de serviço e já falta pouco para Castelo Branco. Daí a Alcains é um tiro e, até à aldeia de Lucília, perdida entre dois ribeiros, com a Gardunha à altura dos olhos, meia horinha ou pouco menos. Mal parou a viatura e todos se precipitaram para fora. Quinze minutos não é muito tempo e ainda chichis havia que fazer e umas sandochas para comprar, talvez, que a fome já apertava. Foi tal a azáfama e correria, que ninguém reparou na velhinha, adormecida na cadeira por trás do motorista. Ninguém achou estranho, que a uma velhinha, não urgisse fazer chichi. Ninguém se lembrou, que as velhinhas de certa idade, urinam como mulas da mesma idade, apenas não o conseguem fazer de pé.
Ao chegar á aldeola, deviam ser umas três da tarde, já só haviam duas pessoas na camioneta e saiam as duas ali. Que bom que podia voltar mais cedo a Lisboa hoje. A vida de motorista é cansativa e rotineira e sabe bem um diazito mais folgado. O Freitas ia fazer o turno de doze horas e podia ir à central poisar a viatura mal chegasse à capital. Depois, era só o metro até casa. O velhote que ia atrás, já desce pelas escadas, agarrado ao varão lateral pendurado na porta. Agarra-se com força, não vá o mundo fugir-lhe debaixo dos pés. Só faltava ir acordar a velha, que dormia ainda no banco da primeira fila.
Sonhava com uma horta de batatas gordas, das vermelhas, a escapulir-se da terra, com meio corpo de fora. Sonhava com verdejantes folhas de couve e as belíssimas sopas que havia de fazer com elas. Sonhava com a sua casa, da qual já não se lembrava. Sonhava e dormia, tão fundo e tão sossegada pelo aconchego do lar de outrora, que ninguém mais a acordou, nem mesmo o motorista, que a abanava aos berros, com a mão no ombro enrijecido e gelado.
Merda, já não consigo chegar mais cedo hoje a casa e toca de ligar ao INEM para vir buscar a velha.
 
 

Zéphyro   28-02-2015