sexta-feira, 13 de março de 2015

Um cadafalso e uma praça cheia de gente

Daqui por dez minutos, já os meus pés penderão na penumbra do cadafalso, agitando o ar vazio e fresco onde dois ou três putos se refugiam para jogar ao berlinde.
Junta-se sempre tanta gente no rossio em manhãs de enforcamento que a criançada, maçada por passar tanta hora de pé, se esconde debaixo do púlpito da morte, onde voltarão para a actuação do conjunto de variedades, lá mais para a tardinha. Já antevejo a cena... os meus pés a estrebuchar e uma data de moscardos esverdeados em redor, que nem direito a higiene pessoal tive, na última noite de cárcere. Só espero que algum eventual mau cheiro não afugente a multidão pois iria detestar morrer sozinho.
Catrapum! Ao meu lado esquerdo, já se abriu o primeiro postigo. O meu companheiro já rebaixado, ainda treme e ainda corre urina pelas suas pernas em direcção à brincadeira dos petizes. Nem lhe ouvi um pio, nem lhe vi nos olhos arregalados o medo, cobertos estavam pela sarapilheira do barrete que lhe cega a cabeça.
O povo, aplaude e apupa dividido na sua opinião, consigo ouvi-los, mas já me embarretam a mim também, não devo tardar. Ainda sinto o cheiro a chouriço assado e vinho, da barraca à direita do fontanário. Escuto vozes vindas de lá, onde alguém vai petiscando enquanto vidas humanas são ceifadas como trigo. Ao longe, a fanfarra a ensaiar no coreto em voz baixa os hinos que marcam o final da agenda matinal, a tocar dentro de momentos.
Sinto a corda rude a ajustar-se no meu pescoço e a respiração do meu carrasco no alto da minha nuca. Parece algo nervoso, com certeza, não quer equivocar-se no nó e na medida do pescoço com toda a praça a assistir. Sinto-lhe as mão trémulas enquanto pelos dentes cerrados lhe sai um "desculpa, vai em paz". Oxalá, condoído, não me aperte em demasia. É deveras desconfortável esta corda, que me pica a pele da garganta e me dá comichão impossível de coçar com as mão seguras atrás das costas.
Gostava de, dentro de segundos, poder ver a minha vida passar-me, num instante, pelos olhos como um filme. Como sempre me garantia o Tio Casimiro que acontece a toda a gente que está lúcido ás portas da morte. Mas esta maldita urticária não me permite concentrar. Não existe concentração possível com as fibras a penetrar-me a pele desta forma.
Catrapum! E agora foi o meu postigo a sorver-me, não sem antes soltar um guincho típico de assassino em final de carreira que se entedia com os últimos suspiros de quem perde o chão debaixo dos pés. Os meus, sacudidos por intensos espasmos do meu corpo em busca de uma salvadora golfada de ar, pendem já no oco do cadafalso. Moscas como previ, mas muitas mais que sempre buscam o mijo e o nojo. Nem sinal dos putos, que já fogem daquele corpo malcheiroso, pendurado em vergonha e desventura no rossio da cidade.
Disseram-me em tempos que traí a minha pátria e vendi a um espanhol abastado a minha única filha, que me deu a minha mulher, levada nova pela cólera dos dias.
Fui considerado culpado de conspirar contra o estado e estender ao inimigo a mão de uma lusa cheia de graça. Mas já não me defendo que já cá não estou.
O rossio, já em debandada para o almoço, perde algum do seu encanto, nesta manhã de domingo. Já só dois carrascos de cara destapada e um pároco no centro da praça, ensacam e benzem os corpos rígidos entre os quais está o meu.


Zéphyro  13-03-2015

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