domingo, 17 de janeiro de 2016

Por entre gatos e gaivotas

Caminho por entre gatos e gaivotas
de encontro a ti, sem pressas.
Sei que não tens mais para onde ir,
chumbada que estás, inexistente,
dentro dessa vil caixa de madeira,
nas tuas ultimas vestes de adeus.

Vou de vela em riste, para ti,
ou talvez para mim...
Nem sei bem se me escutas quando te falo
ou se falo com medo de esquecer que estás cá ainda.
Estás dentro de mim,
na forma do que sou e do que me tornei.

Caminho cinzento, por entre gatos e gaivotas.
Gatos que se enroscam nas campas,
que trepam as arvores para se abrigarem da chuva
e gaivotas que gritam sem respeito pelos outros,
que, como tu, aguardam que chegue o seu alguém.

Vou cheio de fé e pedidos na algibeira.
Saúde, sorte, trabalho para pôr comida na mesa...
Raramente te dou aquilo que mereces,
talvez por não saber se o queres ao certo,
ou se são apenas desejos meus para ti,
como se continuasses entre nós
onde não há gatos e gaivotas.
Onde não há árvores nem chamas trémulas.
Só o medo, o frio e a chuvas de Janeiro.


Zéphyro  17-01-2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A invariável minúcia do Nada

Nas dobras dos meus dedos,
nas palmas da minhas mãos,
há calos que falam sobre tudo.

Porém, o tudo em que toquei, um dia,
é tão nada como aquilo que jamais vi.
Nacos de memória, agarrados ao cérebro,
como chiclet que se gruda na sola de um sapato.

Debaixo de um tapete, uma nuvém de pó,
uma bola de sarilho que alguém varreu
e escondeu, como tudo o que estorva.

Mas o pó, é nada!
E o nada estorva, porque nunca o detectamos
no meio da amalgama do que julgamos ser o pleno,
do que tomamos como real e palpável.

Nos escombros de um couraçado,
no convés feito sucata pelo tempo
e no tempo, roubado à socapa pelos dias,
que nada deixaram para trás.

Na nudez de uma folha em branco,
no caule ressequido daquilo que já foi flor
e que desengraçou com o passar da estação.

O nada está em toda a parte.
Como o único deus que existe,
mesmo que, banhados pela cegueira,
nos obriguemos a não crer nele.

A vida é nada!
A morte é nada!
Tudo é nada!

Eu sou nada!
E tu e vós e tudo o que vos rodeia,
são tão nada como tudo o resto.

Desprovidos de sentido,
iludidos com o livre arbítrio
que o nada vos deu de presente,
como um mágico que tira da cartola um coelho,
ou deixa que duas pombas surjam,
esvoaçando por debaixo de uma capa negra.

Na minha voz rouca,
meia presa na garganta de peles descaídas.
Na minha mão trémula e incerta,
de veias que já não latejam,
vazias de sangue que já não corre.

Aí está o nada e toda a sua minúcia.
Astuto como um puto de rua que se fez a si mesmo,
mascarando-se de tudo para nos ludibriar a vista.



Zéphyro  13-01-2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Só escrevo sobre o Amor

Tudo o que sei, é escrever sobre o Amor.

Seja ele puro, liberto ou possessivo,
seja ele embaraçado ou desprovido de rubor,
tento saber sobre outras coisas, mas nunca consigo
e só escrevo sobre o Amor.

Gostava de poder descrever o mundo,
de satirizar com o Homem imundo
e com a sua falta de honestidade.
De poder com as palavras, conter a fome do vagabundo,
que corre sujo e de corpo meio desnudo
as ruas movimentadas da minha cidade.

Queria saber de ciência politica,
para falar mal da gente semítica
que governa o nosso Portugal.
Enxovalhar a teologia e a mística
de uma igreja profana e raquítica
que teima em esconder-nos o santo graal.

Mas tudo o que sei, é escrever sobre o Amor.

Sobre o medo que sinto de amar sozinho,
sem te ter deitada ao meu lado,
olhando-me com olhos cheios de carinho,
dando-me a mão, mesmo quando estou errado.

Gostava de falar sobre as mentiras Russas,
sobre as guerras e as escaramuças
e sobre os atentados do estado islâmico.
Queria poder cuspir-lhes nas fuças
e pisar-lhes as mentes obtusas
que vêm salvação em espalhar o pânico.

Quem me dera ser nocivo, como uma âmpola de cianeto.
Ser corrosivo, insolente e violento
como o mundo onde hoje me vejo.
Um mundo chuvoso, feio e cinzento,
fugido do sol e repleto de vento,
sem réstia de esperança, ou ponta de desejo.

Mas só sei falar sobre o Amor.

Amor verdadeiro e desajeitado,
amor meio despido e amor nu.
E vivo assim permanentemente enamorado
e a culpada disso... és tu.


Zéphyro  06-01-2016