Na verdade, não sou vento,
nem transporto a primavera.
Sou movido a desalento
e ter-me é a minha quimera.
Na verdade não invejo.
Na verdade, nem me vejo.
Nem meu é o meu desejo...
Não espalho meias verdades
e nem a mim soa o que digo ao espelho.
Nem eu sou aquela figura triste,
cada vez mais pequeno, cada vez mais velho.
Não tenho na verdade poesia,
Na voz, na mente nem no olhar.
Sou mais um, que ousou um dia
mas não mais tornou a ousar.
Na verdade falo de cor.
Na verdade odeio a flor.
É-me indiferente o sol se pôr...
Nem as certezas que suponho,
me trazem a palavra esperada.
Na verdade sou oco e ordinário.
E lírico, só já sou no nada.
Na verdade sou enfadonho,
nada me apraz ou entusiasma.
Nada em mim é sincero e risonho
vagueio no tudo, como um fantasma.
Ao menos quisesse morrer
e não ver o tempo correr,
a soterrar-me comigo a ver.
A coragem se existe está perdida,
nos retalhos que albergo cá dentro.
Nesta parafernália a que chamo vida,
que conto e vejo e aguento.
Se ao menos tivesse algum dom.
Se ao menos soubesse uma arte.
Daquelas que todos admiram pelo que são,
e movem montanhas por toda a parte.
Mas não, nasci sem jeito,
sem força ou peito feito.
Sem ego, mania ou trajeito.
Sou mais um dos muitos que desconheço.
Dos que passam despercebidos e ficam assim.
Só tento encontrar-me e não apareço,
Vivesse eu dentro de mim...
26-11-2012