Não sei como verter em palavras aquilo que sinto...
Porque nem sempre estou certo daquilo que sinto...
Por vezes sinto tristeza e depressão,
outras, sinto o coração em euforia.
De vez em quando sinto a noite e a escuridão
e de quando em vez sinto a clareza da luz do dia.
Não sei como verter em palavras aquilo que sou...
Porque nem sempre estou certo daquilo que sou...
Por vezes sou uma sombra sem significado,
outras, o sangue azul da realeza.
De vez em quando sou um louco revoltado
e de quando em vez sou a razão e a certeza.
Não sei como verter em palavras aquilo que vejo...
Porque nem sempre estou certo daquilo que vejo...
Por vezes vejo a futilidade ignorante de toda a gente,
outras, vejo a beleza, a esperança e a bondade.
De vez em quando vejo um mundo inconsequente
e de quando em vez vejo em todo o mundo liberdade.
Não sei como verter em palavras aquilo que quero...
Porque nem sempre estou certo daquilo que quero...
Por vezes quero a morte e quero o nada,
outras quero a sorte e o calor de um abraço.
De vez em quando quero correr todos à porrada
e de quando em vez, quero estar completo com aquilo que faço.
Não sei como verter em palavras as palavras em que penso...
Porque nem sempre estou certo das palavras em que penso...
Por vezes penso em desfazer que rima com esquecer
outras, penso em arte que rima com estandarte.
De vez em quando penso em morrer que rima com desaparecer
e de quando em vez penso em amor que está em toda a parte.
Zéphyro 13-06-2019
Poesia e Palavras ao Vento
Blogue de poesia, pensamentos e devaneios
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Larápio de emoções
Quero um estômago vazio
a roncar de fome
dentro da minha barriga farta.
Quero tremer toda uma noite de frio
enquanto a miséria consome
cada caloria que me enfarta.
Quero um peito mutilado
pelo gume de uma navalha
que por sorte não me matou.
Quero um braço amputado
enrolado numa mortalha
e banhar-me em toda a dor que me causou.
Quero velar um amor perdido
para as garras de alguém melhor
que lhe deu o que eu não pude.
Quero cair por terra vencido
após duelar-me com fulgor
e desperdiçar a minha juventude.
Quero punição pelos meus erros,
na forma de uma pena de morte
ou de uma vida encarcerado.
Quero chorar entes em tristes enterros
e quedar-me sozinho entregue à minha sorte
enquanto me sinto incompleto e desamparado.
Quero ser filho da orfandade
e não ter a quem recorrer
para um abraço solidário.
Quero ser largado na sociedade
sem ter virtudes com que me defender
nem caminho que me guie ao calvário.
Quero toda a dor que alguém teve
a latejar dentro de mim como tambores
de uma antiga celebração tribal.
De outro modo, estar vivo de que serve
se nem medos nem tremores,
apenas o dia a dia, sempre mortiço e banal.
Zéphyro 13-06-2019
a roncar de fome
dentro da minha barriga farta.
Quero tremer toda uma noite de frio
enquanto a miséria consome
cada caloria que me enfarta.
Quero um peito mutilado
pelo gume de uma navalha
que por sorte não me matou.
Quero um braço amputado
enrolado numa mortalha
e banhar-me em toda a dor que me causou.
Quero velar um amor perdido
para as garras de alguém melhor
que lhe deu o que eu não pude.
Quero cair por terra vencido
após duelar-me com fulgor
e desperdiçar a minha juventude.
Quero punição pelos meus erros,
na forma de uma pena de morte
ou de uma vida encarcerado.
Quero chorar entes em tristes enterros
e quedar-me sozinho entregue à minha sorte
enquanto me sinto incompleto e desamparado.
Quero ser filho da orfandade
e não ter a quem recorrer
para um abraço solidário.
Quero ser largado na sociedade
sem ter virtudes com que me defender
nem caminho que me guie ao calvário.
Quero toda a dor que alguém teve
a latejar dentro de mim como tambores
de uma antiga celebração tribal.
De outro modo, estar vivo de que serve
se nem medos nem tremores,
apenas o dia a dia, sempre mortiço e banal.
Zéphyro 13-06-2019
domingo, 6 de janeiro de 2019
Quando te escrevo poemas
Quando te escrevo poemas,
ou é para te exaltar e cantar o meu amor,
ou para gritar e desabafar a minha dor
e afugentar de ti os meus problemas.
Sempre que te falo, falo em binómios
e espero sempre que espantes os meus demónios
ou que sejas a morte que me traz a calma.
Sempre que te escrevo, são os meus neurónios,
obtusos e pouco dados a matrimónios,
a desnudar-te as chagas da minha alma.
Quando te escrevo poemas,
geralmente espero ajuda.
Geralmente, é um deus me acuda
que almeja as palavras mais amenas.
Sempre que te falo, falo do fundo.
Do mais escuro de mim, do mais imundo
que os meus sentimentos podem sentir.
Quando te escrevo, dura apenas um segundo
até me deixares ao desabrigo, como um vagabundo
que entregou a vitória e deixou de competir.
Quando te escrevo poemas,
posso ser puro e ser casto.
Posso ser mais brilhante que um astro,
mas geralmente, sou eu apenas.
Sempre que te falo, sonho que escutas...
E sonho que entendes e que acabaram as lutas
e que podemos viver, simplesmente.
Mas se te escrevo palavras astutas,
não me descartes depois do prazer, como se faz às putas...
Senão tenho de recomeçar e escrever tudo novamente.
Zéphyro 06-01-2019
ou é para te exaltar e cantar o meu amor,
ou para gritar e desabafar a minha dor
e afugentar de ti os meus problemas.
Sempre que te falo, falo em binómios
e espero sempre que espantes os meus demónios
ou que sejas a morte que me traz a calma.
Sempre que te escrevo, são os meus neurónios,
obtusos e pouco dados a matrimónios,
a desnudar-te as chagas da minha alma.
Quando te escrevo poemas,
geralmente espero ajuda.
Geralmente, é um deus me acuda
que almeja as palavras mais amenas.
Sempre que te falo, falo do fundo.
Do mais escuro de mim, do mais imundo
que os meus sentimentos podem sentir.
Quando te escrevo, dura apenas um segundo
até me deixares ao desabrigo, como um vagabundo
que entregou a vitória e deixou de competir.
Quando te escrevo poemas,
posso ser puro e ser casto.
Posso ser mais brilhante que um astro,
mas geralmente, sou eu apenas.
Sempre que te falo, sonho que escutas...
E sonho que entendes e que acabaram as lutas
e que podemos viver, simplesmente.
Mas se te escrevo palavras astutas,
não me descartes depois do prazer, como se faz às putas...
Senão tenho de recomeçar e escrever tudo novamente.
Zéphyro 06-01-2019
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Ser é tramado
A depressão é um estado
em que a razão jaz num corpo inanimado
que não sabe caminhar como os demais.
E o que quer que mova é estar parado...
E uma multidão é estar isolado...
E os dias morrem todos iguais.
A motivação é uma longa espera,
uma árvore nua em plena primavera,
que não sabe dar-se à luz solar.
E a alegria... quem nos dera...
E não mais desta agonia que parece uma fera
e não nos deixa ressuscitar.
Cada linha do horizonte é um novelo
que faz de cada sonho um pesadelo
e de todo o sono faz letargia.
E o abismo seduz com o seu apelo.
E o nada... já estou a vivê-lo.
E a paz é uma mera fantasia.
O Eu, é só mais um além do resto.
E o meu já é tão mau que até detesto.
Só me resta o escuro do meu ego apagado.
Um dia talvez, nem marasmo nem deserto!
E tudo o que está longe, fique talvez mais perto!
E que eu consiga não ser, pois ser é tramado.
Zéphyro 04-01-2019
em que a razão jaz num corpo inanimado
que não sabe caminhar como os demais.
E o que quer que mova é estar parado...
E uma multidão é estar isolado...
E os dias morrem todos iguais.
A motivação é uma longa espera,
uma árvore nua em plena primavera,
que não sabe dar-se à luz solar.
E a alegria... quem nos dera...
E não mais desta agonia que parece uma fera
e não nos deixa ressuscitar.
Cada linha do horizonte é um novelo
que faz de cada sonho um pesadelo
e de todo o sono faz letargia.
E o abismo seduz com o seu apelo.
E o nada... já estou a vivê-lo.
E a paz é uma mera fantasia.
O Eu, é só mais um além do resto.
E o meu já é tão mau que até detesto.
Só me resta o escuro do meu ego apagado.
Um dia talvez, nem marasmo nem deserto!
E tudo o que está longe, fique talvez mais perto!
E que eu consiga não ser, pois ser é tramado.
Zéphyro 04-01-2019
domingo, 30 de dezembro de 2018
Lusíces
As armas e os barões assinalados,
que da ocidental praia lusitana,
têm já apenas o passado
e o castelo arruinado, ruido em cabana.
E já vai longe Vasco da Gama.
Tão longe como terras de Vera Cruz
e tão perdido como a pura seda indiana.
E o astrolábio, de nada serve quando há luz.
E a praia, oriental ou ocidental, se lusitana,
nunca teve sol português que lhe fizesse jus.
As armas e os barões assinalados,
que derrubados pelo capricho anglo-saxónico,
não chegaram a passar de contos do passado,
de epopeias e relatos de feitos heroicos.
E já cá não estão Camões nem Pessoa,
Florbela, Bocage nem Cesário.
Resta muito pouca coisa boa,
Para além das contas que sobram deste rosário,
que vimos desfiando desde Goa
até nos termos desterrado no luso calvário.
As armas e os barões assinalados
já escasseiam na velha Portugália.
Como escasseiam fadados a cantar o fado
desde que subiu ao trono a malfadada Amália.
Já pouco há de português em Portugal!
Apenas o que nos dizem que reza a história,
escrita por alguém que é também história igual.
E dos livros, ninguém aprende a glória,
e os nobres barões assinalados do mundo actual,
vivem dias gloriosos, mas são a verdadeira escória.
Zéphyro 30-12-2018
que da ocidental praia lusitana,
têm já apenas o passado
e o castelo arruinado, ruido em cabana.
E já vai longe Vasco da Gama.
Tão longe como terras de Vera Cruz
e tão perdido como a pura seda indiana.
E o astrolábio, de nada serve quando há luz.
E a praia, oriental ou ocidental, se lusitana,
nunca teve sol português que lhe fizesse jus.
As armas e os barões assinalados,
que derrubados pelo capricho anglo-saxónico,
não chegaram a passar de contos do passado,
de epopeias e relatos de feitos heroicos.
E já cá não estão Camões nem Pessoa,
Florbela, Bocage nem Cesário.
Resta muito pouca coisa boa,
Para além das contas que sobram deste rosário,
que vimos desfiando desde Goa
até nos termos desterrado no luso calvário.
As armas e os barões assinalados
já escasseiam na velha Portugália.
Como escasseiam fadados a cantar o fado
desde que subiu ao trono a malfadada Amália.
Já pouco há de português em Portugal!
Apenas o que nos dizem que reza a história,
escrita por alguém que é também história igual.
E dos livros, ninguém aprende a glória,
e os nobres barões assinalados do mundo actual,
vivem dias gloriosos, mas são a verdadeira escória.
Zéphyro 30-12-2018
(Em Surdina)
(em surdina)
Toda a aspirina é o remédio!
(em surdina)
Toda a varina é assédio!
(em surdina)
Toda a bolina é um tédio!
(em surdina)
Toda a menina é natureza!
(em surdina)
Toda a latrina é beleza!
(em surdina)
Toda a mina é riqueza!
(em surdina)
Uma assassina é perdoada!
(em surdina)
Uma vitrina cheia de nada!
(em surdina)
Uma chacina feita à pedrada!
(em surdina)
Nem todo o ardina trás boa nova!
(em surdina)
Nem toda a cantina o povo aprova!
(em surdina)
Nem todo a sina é uma sova!
(AOS GRITOS)
Todos os santos são aflitos!
(AOS GRITOS)
Todos os salmos são conflitos!
(AOS GRITOS)
Todas as almas são atritos!
Zéphyro 30-12-2018
Toda a aspirina é o remédio!
(em surdina)
Toda a varina é assédio!
(em surdina)
Toda a bolina é um tédio!
(em surdina)
Toda a menina é natureza!
(em surdina)
Toda a latrina é beleza!
(em surdina)
Toda a mina é riqueza!
(em surdina)
Uma assassina é perdoada!
(em surdina)
Uma vitrina cheia de nada!
(em surdina)
Uma chacina feita à pedrada!
(em surdina)
Nem todo o ardina trás boa nova!
(em surdina)
Nem toda a cantina o povo aprova!
(em surdina)
Nem todo a sina é uma sova!
(AOS GRITOS)
Todos os santos são aflitos!
(AOS GRITOS)
Todos os salmos são conflitos!
(AOS GRITOS)
Todas as almas são atritos!
Zéphyro 30-12-2018
Que é feito?
Que é feito dos favos de mel
do teu sorriso de menina?
Que é feito do Bolero de Ravel
que nos teus olhos nunca desafina?
Terão ficado largados na dor,
desfiados pelos dias lestos
onde nos esquecemos do amor?
Ou terão ficado junto com os restos,
de tudo o que já teve mais sabor,
servido em trajes mais modestos?
Que é feito do açucar da tua voz
quando era trova cada palavra tua?
E que é feito entretanto de nós,
emaranhados em tanta amargura?
Terá sido o futuro
a saquear-nos o presente?
A derrubar-nos como a um muro?
Terá sido alguém em especial, ou toda a gente?
Terá sido demasiada luz, ou demasiado escuro
a fazer de nós uma estrela cadente?
Que é feito dos frutos nos teus passos
quando vinham sempre para mim?
E que é feito do apogeu de abraços
e das mil e uma noites de Aladim?
Terão sido demasiadas noites comigo?
Ou terá sido apenas a fantasia
e o fascínio pelo perigo,
a transformarem cada noite em dia,
a fazer da magia castigo
e a roubar-nos a alegria?
Mas que é feito de tudo que era doce outrora?
Será que se afogou em pranto a paixão?
Será que, como todos que amo, já foi embora
e me deixou a braços solos com a ilusão?
Que é feito da doçura?
Que é feito da ternura
que me fez querer estar aqui?
E o que é feito da candura?
E o que é feito da loucura?
E o que é feito de mim sem ti?
Zéphyro 30-12-2018
do teu sorriso de menina?
Que é feito do Bolero de Ravel
que nos teus olhos nunca desafina?
Terão ficado largados na dor,
desfiados pelos dias lestos
onde nos esquecemos do amor?
Ou terão ficado junto com os restos,
de tudo o que já teve mais sabor,
servido em trajes mais modestos?
Que é feito do açucar da tua voz
quando era trova cada palavra tua?
E que é feito entretanto de nós,
emaranhados em tanta amargura?
Terá sido o futuro
a saquear-nos o presente?
A derrubar-nos como a um muro?
Terá sido alguém em especial, ou toda a gente?
Terá sido demasiada luz, ou demasiado escuro
a fazer de nós uma estrela cadente?
Que é feito dos frutos nos teus passos
quando vinham sempre para mim?
E que é feito do apogeu de abraços
e das mil e uma noites de Aladim?
Terão sido demasiadas noites comigo?
Ou terá sido apenas a fantasia
e o fascínio pelo perigo,
a transformarem cada noite em dia,
a fazer da magia castigo
e a roubar-nos a alegria?
Mas que é feito de tudo que era doce outrora?
Será que se afogou em pranto a paixão?
Será que, como todos que amo, já foi embora
e me deixou a braços solos com a ilusão?
Que é feito da doçura?
Que é feito da ternura
que me fez querer estar aqui?
E o que é feito da candura?
E o que é feito da loucura?
E o que é feito de mim sem ti?
Zéphyro 30-12-2018
Mea Culpa
É culpa minha haver fome
onde quer que ela haja.
Pois sou do tipo que esbanja,
que enche o prato e nunca come.
Sou o culpado de toda e qualquer doença.
Preferi sempre viver na ignorância
e sou culpado, em última instância,
por não ter estudado ciência.
Também tenho a culpa da guerra...
Das crianças que morrem,
das bombas que explodem...
Sou do tipo que ao invés de beijar ferra!
Do tipo que ao invés de calar berra!
Ao invés de paz, vivo da desordem.
Sou culpado da precariedade
dos princípios da nova geração.
De andarem sempre de "smartphone" na mão
e de se esquecerem de viver de verdade.
Sou culpado das patranhas religiosas,
das peregrinações sem sentido
de quem quer que tenha sofrido
e superado com ajuda milagrosa.
Também tenho culpa da ganância...
E do consumismo...
E do falso socialismo...
Sou do tipo de viciado desde a infância!
Do tipo de gastar com toda a ânsia
de quem ama o materialismo.
É culpa minha o desemprego
e a baixa taxa de natalidade.
Todo o mal da sociedade,
é responsabilidade minha, não nego.
Os transportes públicos sempre atrasados
deixando as paragens cheias de gente.
As escolas, com instalações indecentes
e os hospitais, a caírem aos bocados.
Também se devem a mim os impostos
e o preço galopante dos combustíveis.
E sou culpado do endividamento, a todos os níveis.
Sou do tipo que está sempre a postos,
para infligir dor, miséria e desgostos.
Sou mais de desprezo que de momentos inesquecíveis.
Mea culpa por todo o mal!
Mea culpa por todos os erros!
Mea culpa por toda a desilusão!
Vivo em penitência opcional.
Como se preparasse já o meu enterro
e o espaço onde vou sumir-me debaixo do chão.
Zéphyro 23-12-2018
onde quer que ela haja.
Pois sou do tipo que esbanja,
que enche o prato e nunca come.
Sou o culpado de toda e qualquer doença.
Preferi sempre viver na ignorância
e sou culpado, em última instância,
por não ter estudado ciência.
Também tenho a culpa da guerra...
Das crianças que morrem,
das bombas que explodem...
Sou do tipo que ao invés de beijar ferra!
Do tipo que ao invés de calar berra!
Ao invés de paz, vivo da desordem.
Sou culpado da precariedade
dos princípios da nova geração.
De andarem sempre de "smartphone" na mão
e de se esquecerem de viver de verdade.
Sou culpado das patranhas religiosas,
das peregrinações sem sentido
de quem quer que tenha sofrido
e superado com ajuda milagrosa.
Também tenho culpa da ganância...
E do consumismo...
E do falso socialismo...
Sou do tipo de viciado desde a infância!
Do tipo de gastar com toda a ânsia
de quem ama o materialismo.
É culpa minha o desemprego
e a baixa taxa de natalidade.
Todo o mal da sociedade,
é responsabilidade minha, não nego.
Os transportes públicos sempre atrasados
deixando as paragens cheias de gente.
As escolas, com instalações indecentes
e os hospitais, a caírem aos bocados.
Também se devem a mim os impostos
e o preço galopante dos combustíveis.
E sou culpado do endividamento, a todos os níveis.
Sou do tipo que está sempre a postos,
para infligir dor, miséria e desgostos.
Sou mais de desprezo que de momentos inesquecíveis.
Mea culpa por todo o mal!
Mea culpa por todos os erros!
Mea culpa por toda a desilusão!
Vivo em penitência opcional.
Como se preparasse já o meu enterro
e o espaço onde vou sumir-me debaixo do chão.
Zéphyro 23-12-2018
Auto-Retrato
Um moreno pouco sereno.
Um nariz grande desde pequeno,
duas pernas inquietas e duas mãos curiosas.
Nos olhos maravilhas, na língua veneno,
um coração descompassado e um cérebro obsceno,
sedento do cheiro de todas as rosas.
Cheio de carácter, cheio de orgulho.
O sabor do caviar na escolha pelo entulho
e o conforto das penas em noites a ferros.
Indiferente. A toda a gente e ao barulho.
Um grão de arroz submerso em gorgulho
e o silêncio da morte numa alma aos berros.
Hedonista, convicto epicurista,
levemente egocêntrico e anarquista.
Um pensador de todas as sensações.
Realista, apaixonado à primeira vista,
por toda a natureza que exista
e por todas as grandes canções.
Analítico e introspectivo.
Um carente fugidío e esquivo.
Um mal amado que não se deixa amar.
Enraivecido, revoltado mas inofensivo.
Todas as linhas de todos os livros
que a solidão o fez devorar.
Bondoso, quase sempre generoso.
Ainda que um pouco mentiroso,
tão só por medo da realidade.
E sinistro e caótico e escabroso.
Imprevisível e até misterioso,
que o mistério sempre esconde a verdade.
E a arte, um pouco por toda a parte.
E o lar, lá longe para lá de marte.
Cravado em Oríon, bem na sua cintura.
E toda a poesia como baluarte
e demasiada lucidez que faz estandarte
da própria dor e da própria loucura.
O oxigénio, já escasseia a cada dia.
Junto com o amor ao próximo e junto com a alegria.
Tudo se desterra no peito já cheio de sequelas.
As perdas que fizeram pai de uma mera cria,
transformaram a irreverência em eterna melancolia
e de pouco serve ser matéria das estrelas...
Demasiado rancor traz consigo o conhecimento.
E chega a durar dias um simples momento,
ainda que não deixe para trás substância.
Demasiado abrigo, acaba por ser relento.
E o jejum, acaba por ser sustento.
E toda a sabedoria, apenas expõe a ignorância.
O tédio doentio e o pavor da doença.
A ausência de amor próprio e de pertença,
justificam por si tudo o resto.
Um moreno, que é bem menos do que pensa,
tão diferente que não aparenta diferença,
tão igual, que não sabe ser modesto.
Zéphyro 16-12-2018
Um nariz grande desde pequeno,
duas pernas inquietas e duas mãos curiosas.
Nos olhos maravilhas, na língua veneno,
um coração descompassado e um cérebro obsceno,
sedento do cheiro de todas as rosas.
Cheio de carácter, cheio de orgulho.
O sabor do caviar na escolha pelo entulho
e o conforto das penas em noites a ferros.
Indiferente. A toda a gente e ao barulho.
Um grão de arroz submerso em gorgulho
e o silêncio da morte numa alma aos berros.
Hedonista, convicto epicurista,
levemente egocêntrico e anarquista.
Um pensador de todas as sensações.
Realista, apaixonado à primeira vista,
por toda a natureza que exista
e por todas as grandes canções.
Analítico e introspectivo.
Um carente fugidío e esquivo.
Um mal amado que não se deixa amar.
Enraivecido, revoltado mas inofensivo.
Todas as linhas de todos os livros
que a solidão o fez devorar.
Bondoso, quase sempre generoso.
Ainda que um pouco mentiroso,
tão só por medo da realidade.
E sinistro e caótico e escabroso.
Imprevisível e até misterioso,
que o mistério sempre esconde a verdade.
E a arte, um pouco por toda a parte.
E o lar, lá longe para lá de marte.
Cravado em Oríon, bem na sua cintura.
E toda a poesia como baluarte
e demasiada lucidez que faz estandarte
da própria dor e da própria loucura.
O oxigénio, já escasseia a cada dia.
Junto com o amor ao próximo e junto com a alegria.
Tudo se desterra no peito já cheio de sequelas.
As perdas que fizeram pai de uma mera cria,
transformaram a irreverência em eterna melancolia
e de pouco serve ser matéria das estrelas...
Demasiado rancor traz consigo o conhecimento.
E chega a durar dias um simples momento,
ainda que não deixe para trás substância.
Demasiado abrigo, acaba por ser relento.
E o jejum, acaba por ser sustento.
E toda a sabedoria, apenas expõe a ignorância.
O tédio doentio e o pavor da doença.
A ausência de amor próprio e de pertença,
justificam por si tudo o resto.
Um moreno, que é bem menos do que pensa,
tão diferente que não aparenta diferença,
tão igual, que não sabe ser modesto.
Zéphyro 16-12-2018
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Ensaio sobre as coisas que ouço quando não falo
O silêncio não existe nem quando me calo!
A multidão fanfarrona que emprego,
dentro de mim, não me dá nunca sossego,
questionando tudo o que faço e corrigindo quando falo.
dentro de mim, não me dá nunca sossego,
questionando tudo o que faço e corrigindo quando falo.
Ouço consternado de tudo um pouco,
desde debates políticos acirrados,
passando pelos génios, precocemente enterrados
até as orações de todas as religiões me deixam louco.
desde debates políticos acirrados,
passando pelos génios, precocemente enterrados
até as orações de todas as religiões me deixam louco.
Escuto frases soltas sem serventia
e junto-as e reviro-as até terem sentido,
exprimo-as e exalto-as sem ser contido
até que se unam e floresçam em poesia.
e junto-as e reviro-as até terem sentido,
exprimo-as e exalto-as sem ser contido
até que se unam e floresçam em poesia.
E cânticos pagãos há muito esquecidos
e discussões vanguardistas sobre a morte.
E profecias, e sinestesias… até o norte
é enfiado goela abaixo dos meus ouvidos.
e discussões vanguardistas sobre a morte.
E profecias, e sinestesias… até o norte
é enfiado goela abaixo dos meus ouvidos.
Gostava de poder guardar na memória
todas as piadas que me contam cá dentro
e todos pedaços de avisos agoirentos,
que cá vão passando até passarem à história.
todas as piadas que me contam cá dentro
e todos pedaços de avisos agoirentos,
que cá vão passando até passarem à história.
Não tenho porém espaço suficiente,
para demagogias sobre o capitalismo
nem para as vidas tresmalhadas ao cataclismo
e tento fixar-me só no que é importante.
para demagogias sobre o capitalismo
nem para as vidas tresmalhadas ao cataclismo
e tento fixar-me só no que é importante.
A paz, a luz, a arte e o amor são trigo.
Mas o refugo, o materialismo e a esperteza saloia,
juntos com o orgulho e ambição são o joio
que aparto de mim sempre que consigo.
Mas o refugo, o materialismo e a esperteza saloia,
juntos com o orgulho e ambição são o joio
que aparto de mim sempre que consigo.
O silêncio, é uma falácia que desconheço…
Sei ditados e dizeres, lengalengas e adágios.
Todos eles originais, que a loucura não faz plágio,
apenas vai ditando a bel prazer o mundo desde o começo.
Sei ditados e dizeres, lengalengas e adágios.
Todos eles originais, que a loucura não faz plágio,
apenas vai ditando a bel prazer o mundo desde o começo.
Passeei pelos prados do éden com Eva e Adão,
lutei na guerra dos 100 anos,
e fui nómada como os ciganos
e ensinei a Maomé o Corão.
lutei na guerra dos 100 anos,
e fui nómada como os ciganos
e ensinei a Maomé o Corão.
Assisti quando Abel sucumbiu aos pés de Caim,
fiz sacrifícios com Maias e Aztecas,
fui o primeiro dos judeus a caminhar até Meca
E o muro das lamentações foi inventado por mim.
fiz sacrifícios com Maias e Aztecas,
fui o primeiro dos judeus a caminhar até Meca
E o muro das lamentações foi inventado por mim.
Assisti em directo ao discurso de igualdade
de Martin Luther King no memorial de Chicago,
ajudei a escrever todas as obras de Saramago
e até quando caiu Pompeia eu estava na cidade.
de Martin Luther King no memorial de Chicago,
ajudei a escrever todas as obras de Saramago
e até quando caiu Pompeia eu estava na cidade.
O silêncio é uma realidade que ignoro…
Nem sei sequer se o quero para mim de tão pobre.
Talvez lá para o fim, seja tudo o que sobre,
mas para já respiro palavras por cada um dos meus poros.
Nem sei sequer se o quero para mim de tão pobre.
Talvez lá para o fim, seja tudo o que sobre,
mas para já respiro palavras por cada um dos meus poros.
Ouvi em primeira mão todos os concertos,
entoei todos os cânticos e cantei todos os hinos.
Fui cada um dos velhos e fui todos os meninos,
fui a verdura das serras, o azul dos mares e areia dos desertos.
entoei todos os cânticos e cantei todos os hinos.
Fui cada um dos velhos e fui todos os meninos,
fui a verdura das serras, o azul dos mares e areia dos desertos.
Fui guerreiro apache e mestre samurai,
fui vero como Lúcio,
todas as pérolas de Confúcio,
o espírito santo, o filho e o nome do pai.
fui vero como Lúcio,
todas as pérolas de Confúcio,
o espírito santo, o filho e o nome do pai.
Que faço eu com tanta existência e tanta loucura?
Não tenho mãos para tudo o que gostava de agarrar,
nem armas que não palavras com que lutar
e só o peito desnudo me serve de armadura.
Não tenho mãos para tudo o que gostava de agarrar,
nem armas que não palavras com que lutar
e só o peito desnudo me serve de armadura.
Talvez passe a falar comigo mesmo, em completo desalinho…
Ou talvez me transforme num profeta,
num orador, num sonhador ou num poeta.
Seja como for, o que tiver que ser, serei sozinho.
Ou talvez me transforme num profeta,
num orador, num sonhador ou num poeta.
Seja como for, o que tiver que ser, serei sozinho.
Zéphyro 29-11-2018
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