Um poema, se for bem recitado,
ouve-se sempre no céu.
A voz funde-se com o tempo,
quando entoa sentimentos sublimes,
ocupa os espaços vazios do próprio espaço
e só pára em mãos celestes.
Só se detém se acompanhada
por harpas dedilhadas
e pequenas pancadas secas de xilofone.
Um poema, quando lido com alma,
ouve-se alto em toda a eternidade,
durante todo o universo.
Quando me recitarem, irás ouvir-me mãe?
Terás orgulho em mim
e verterás lágrimas de emoção
tocada pelas minhas palavras,
que disse e pensei sem estares cá para ouvir?
Quando se recita um poema,
passa a crer-se na metafísica.
Sincroniza-se a respiração com toda a existência
e o mundo passa a ser um só.
Dançando ondulantemente ao som
das mesmas palavras, proferidas
na linguagem universal da arte.
Será que vais entender o meu propósito, mãe?
Mesmo quando nem eu sempre me entendo
a mim mesmo e ainda menos ao que escrevi
e pensei sem estares cá para ouvir?
Um poema, bem recitado,
chega sempre ao céu, aos anjos
e ao próprio deus.
Mas o poeta, é matéria do inferno.
O poeta acaba sempre em cavaqueira
com o diabo, sem harpas nem xilofones.
Será que me ouves, mãe?
Será que me ouves e te orgulhas
antes de eu chegar lá abaixo?
Zéphyro 31-07-2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
A melhor forma de o dizer
Já tentei todas as formas
para te dizer o que tento dizer-te,
desde que te pertence a minha vida.
Cuidei que saberia, como mostrar
claramente a minha alma e o que puseste
habilmente dentro dela.
Cuidei que o faria com palavras despojadas,
que o faria com discurso ordinário,
ou com demonstrações vãs de desafecto.
Mas não disse nem fiz nada
de realmente concreto de vez nenhuma.
Foi tudo um marasmo de palavras ocas,
que se perderam no vento alheio,
uma panóplia de habilidades
sem habilitação para reabilitar.
Já tentei de todas as formas,
até com a poesia, que, dizem,
é a linguagem usada pelos deuses.
Cuidei que se deixasse os deuses
falarem por mim, encontrarias
a verdadeira religião nas suas vozes.
Cuidei que me crerias mais se os escutasses,
a dizerem-te ao ouvido os meus credos,
a rogarem-te ao ouvido pelos meus medos
e a guiarem os teus passos de mãos nas tuas costas.
Será que ouvirás a deus?
Será que temerás a deus e o amarás,
acima de tudo e de todas as coisas?
Ou talvez, deva tentar falar
através da voz que trazes muda
e surda bem escondida dentro de ti.
Sim, se me fizer ouvir pela tua voz
entender-me-ás de certeza.
Cuido que usarás as tuas próprias palavras
e cuido que encontrarás um novo sentido
nelas, ditas no segredo do teu coração.
Zéphyro 31-07-2015
para te dizer o que tento dizer-te,
desde que te pertence a minha vida.
Cuidei que saberia, como mostrar
claramente a minha alma e o que puseste
habilmente dentro dela.
Cuidei que o faria com palavras despojadas,
que o faria com discurso ordinário,
ou com demonstrações vãs de desafecto.
Mas não disse nem fiz nada
de realmente concreto de vez nenhuma.
Foi tudo um marasmo de palavras ocas,
que se perderam no vento alheio,
uma panóplia de habilidades
sem habilitação para reabilitar.
Já tentei de todas as formas,
até com a poesia, que, dizem,
é a linguagem usada pelos deuses.
Cuidei que se deixasse os deuses
falarem por mim, encontrarias
a verdadeira religião nas suas vozes.
Cuidei que me crerias mais se os escutasses,
a dizerem-te ao ouvido os meus credos,
a rogarem-te ao ouvido pelos meus medos
e a guiarem os teus passos de mãos nas tuas costas.
Será que ouvirás a deus?
Será que temerás a deus e o amarás,
acima de tudo e de todas as coisas?
Ou talvez, deva tentar falar
através da voz que trazes muda
e surda bem escondida dentro de ti.
Sim, se me fizer ouvir pela tua voz
entender-me-ás de certeza.
Cuido que usarás as tuas próprias palavras
e cuido que encontrarás um novo sentido
nelas, ditas no segredo do teu coração.
Zéphyro 31-07-2015
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Capitão Fantasma
Eramos um grupo de jovens,
imberbes, franzinos e subnutridos.
De nós, fez o Capitão homens feitos,
de barba rija e preparados para a morte.
Eramos fracos, ganapos sem fé nem grei,
mas a nós, o Fantasma entrincheirou-nos,
bem enlameados nos fígados do inimigo
e fizemos prevalecer o nosso deus,
fizemos imperar a nossa ordem.
Eramos uma ilha de gente deserta,
sem ligações por terra a mais ninguém
e sem poderio para vencer nos mares.
Mas, o Capitão Fantasma, o nosso pai,
deu-nos uma casa e deu-nos uma família
e deu-nos uma causa e deu-nos uma mochila.
Com ele nos corações, já empedernidos
pela dureza dos nossos dias
e com as mochilas nas costas,
iremos mais uma vez deitar por terra
o inimigo que não respeita a nossa lei.
Vencê-lo-emos no seu território,
implodiremos os corações das suas cidades.
Nunca voltaremos da demanda,
mas, O Eterno Capitão, prevalecerá,
aqui, ou noutro mundo qualquer,
fazendo homens dos coitados meninos
que a guerra santa deixou sem mãe.
Zéphyro 29-07-2015
imberbes, franzinos e subnutridos.
De nós, fez o Capitão homens feitos,
de barba rija e preparados para a morte.
Eramos fracos, ganapos sem fé nem grei,
mas a nós, o Fantasma entrincheirou-nos,
bem enlameados nos fígados do inimigo
e fizemos prevalecer o nosso deus,
fizemos imperar a nossa ordem.
Eramos uma ilha de gente deserta,
sem ligações por terra a mais ninguém
e sem poderio para vencer nos mares.
Mas, o Capitão Fantasma, o nosso pai,
deu-nos uma casa e deu-nos uma família
e deu-nos uma causa e deu-nos uma mochila.
Com ele nos corações, já empedernidos
pela dureza dos nossos dias
e com as mochilas nas costas,
iremos mais uma vez deitar por terra
o inimigo que não respeita a nossa lei.
Vencê-lo-emos no seu território,
implodiremos os corações das suas cidades.
Nunca voltaremos da demanda,
mas, O Eterno Capitão, prevalecerá,
aqui, ou noutro mundo qualquer,
fazendo homens dos coitados meninos
que a guerra santa deixou sem mãe.
Zéphyro 29-07-2015
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Confesso
Estou a ficar louco, confesso.
Já quase não distingo os dias
uns dos outros e todos me parecem
uma longa viagem ao centro do nada.
Estou a ficar louco, confesso.
Esbracejo para manter-me à tona
da realidade que se entrelaça em mim
como o remoinho de um rio selvagem,
puxando-me para o fundo, para dentro,
para baixo, mais abaixo que sei lá o quê.
Sinto na boca o gosto da loucura
quando recordo acordar pela manhã.
O gosto azedo e indefinido
que se desconhece se é bom
ou se é a fonte de todos os males.
Estou a ficar louco confesso.
Vestiria eu mesmo o colete de forças,
se encontrasse em mim sanidade para me mexer,
se soubesse em mim lucidez para abrir os olhos.
Imploraria eu mesmo por eutanásia,
se tivesse em mim noção de estar vivo,
se nascesse em mim a coragem para morrer.
Zéphyro 27-07-2015
Já quase não distingo os dias
uns dos outros e todos me parecem
uma longa viagem ao centro do nada.
Estou a ficar louco, confesso.
Esbracejo para manter-me à tona
da realidade que se entrelaça em mim
como o remoinho de um rio selvagem,
puxando-me para o fundo, para dentro,
para baixo, mais abaixo que sei lá o quê.
Sinto na boca o gosto da loucura
quando recordo acordar pela manhã.
O gosto azedo e indefinido
que se desconhece se é bom
ou se é a fonte de todos os males.
Estou a ficar louco confesso.
Vestiria eu mesmo o colete de forças,
se encontrasse em mim sanidade para me mexer,
se soubesse em mim lucidez para abrir os olhos.
Imploraria eu mesmo por eutanásia,
se tivesse em mim noção de estar vivo,
se nascesse em mim a coragem para morrer.
Zéphyro 27-07-2015
terça-feira, 21 de julho de 2015
Bichos à solta
Um animal ao peito de uma senhora,
geralmente é uma estola.
O chumbo entra-lhes pelo peito
e estala os ossos à passagem
até se alojar num orgão vital qualquer.
Pode ter sido uma marta ou uma chinchila,
morto, apenas é uma estola que dá estilo.
Um touro a caminhar pelas ruas,
geralmente foi picado para a corrida
e não tenta apanhar quem lhe corre na frente,
apenas salvar-se da brasa do ferro.
Corre e tropeça, coitado,
sem direito a tapas e a sangrias,
mas sangra e transpira, pelas feridas destapadas.
Um urso de pé à janela,
é quase sempre um prisioneiro.
Salta arcos em chamas e corre ágil,
por cima de barris vazios de madeira.
Joga à bola e anda de monociclo
mas a janela, é de uma gaiola grande
e raramente o deixam juntar-se à mesa
com os comuns camaradas do circo.
Um chimpanzé amacacado de batões e purpurinas,
é apenas uma cobaia da mais fútil das ciências.
Não salta galhos, não come frutos
e vive numa gaiola sem janela,
que não veria mesmo que existisse
devido às reacções tóxicas nos olhos.
Passa o dia sentado, aguardando a morte,
ou a próxima sessão de maquilhagem,
que é mais ou menos a mesma coisa.
Deixem os bichos á solta!
Deixem que a marta salte para os pescoços
das senhoras mais elegantes
sem ter de ser uma estola morta.
Que possa o touro passear-se em Pamplona,
e ver as montras e apanhar bebedeiras
que o façam ter vontade
de alinhar nas festividades.
Permitam ao urso uma cavaqueira
com a dupla de trapezistas chineses
antes do espectáculo começar.
E, no fim, quando todos recolherem a casa,
felizes com os desempenhos dos artistas,
deixem que o urso beba um último copo,
na taberna com os demais,
para festejar mais um dia bem sucedido
na mais bela arte itinerante.
E os macacos... que o sejam sem macacadas!
Que possam pular com certeza
do próximo pulo a dar.
Que comam todos os frutos que puderem,
sem ter de borratar os lábiozitos,
tão bem coloridos de rosa choque.
Zéphyro 21-07-2015
geralmente é uma estola.
O chumbo entra-lhes pelo peito
e estala os ossos à passagem
até se alojar num orgão vital qualquer.
Pode ter sido uma marta ou uma chinchila,
morto, apenas é uma estola que dá estilo.
Um touro a caminhar pelas ruas,
geralmente foi picado para a corrida
e não tenta apanhar quem lhe corre na frente,
apenas salvar-se da brasa do ferro.
Corre e tropeça, coitado,
sem direito a tapas e a sangrias,
mas sangra e transpira, pelas feridas destapadas.
Um urso de pé à janela,
é quase sempre um prisioneiro.
Salta arcos em chamas e corre ágil,
por cima de barris vazios de madeira.
Joga à bola e anda de monociclo
mas a janela, é de uma gaiola grande
e raramente o deixam juntar-se à mesa
com os comuns camaradas do circo.
Um chimpanzé amacacado de batões e purpurinas,
é apenas uma cobaia da mais fútil das ciências.
Não salta galhos, não come frutos
e vive numa gaiola sem janela,
que não veria mesmo que existisse
devido às reacções tóxicas nos olhos.
Passa o dia sentado, aguardando a morte,
ou a próxima sessão de maquilhagem,
que é mais ou menos a mesma coisa.
Deixem os bichos á solta!
Deixem que a marta salte para os pescoços
das senhoras mais elegantes
sem ter de ser uma estola morta.
Que possa o touro passear-se em Pamplona,
e ver as montras e apanhar bebedeiras
que o façam ter vontade
de alinhar nas festividades.
Permitam ao urso uma cavaqueira
com a dupla de trapezistas chineses
antes do espectáculo começar.
E, no fim, quando todos recolherem a casa,
felizes com os desempenhos dos artistas,
deixem que o urso beba um último copo,
na taberna com os demais,
para festejar mais um dia bem sucedido
na mais bela arte itinerante.
E os macacos... que o sejam sem macacadas!
Que possam pular com certeza
do próximo pulo a dar.
Que comam todos os frutos que puderem,
sem ter de borratar os lábiozitos,
tão bem coloridos de rosa choque.
Zéphyro 21-07-2015
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