domingo, 30 de dezembro de 2018

Lusíces

As armas e os barões assinalados,
que da ocidental praia lusitana,
têm já apenas o passado
e o castelo arruinado, ruido em cabana.


E já vai longe Vasco da Gama.
Tão longe como terras de Vera Cruz
e tão perdido como a pura seda indiana.

E o astrolábio, de nada serve quando há luz.
E a praia, oriental ou ocidental, se lusitana,
nunca teve sol português que lhe fizesse jus.


As armas e os barões assinalados,
que derrubados pelo capricho anglo-saxónico,
não chegaram a passar de contos do passado,
de epopeias e relatos de feitos heroicos.


E já cá não estão Camões nem Pessoa,
Florbela, Bocage nem Cesário.
Resta muito pouca coisa boa,

Para além das contas que sobram deste rosário,
que vimos desfiando desde Goa
até nos termos desterrado no luso calvário.


As armas e os barões assinalados
já escasseiam na velha Portugália.
Como escasseiam fadados a cantar o fado
desde que subiu ao trono a malfadada Amália.


Já pouco há de português em Portugal!
Apenas o que nos dizem que reza a história,
escrita por alguém que é também história igual.

E dos livros, ninguém aprende a glória,
e os nobres barões assinalados do mundo actual,
vivem dias gloriosos, mas são a verdadeira escória.




Zéphyro   30-12-2018

(Em Surdina)

(em surdina)
Toda a aspirina é o remédio!
(em surdina)
Toda a varina é assédio!
(em surdina)
Toda a bolina é um tédio!


(em surdina)
Toda a menina é natureza!
(em surdina)
Toda a latrina é beleza!
(em surdina)
Toda a mina é riqueza!


(em surdina)
Uma assassina é perdoada!
(em surdina)
Uma vitrina cheia de nada!
(em surdina)
Uma chacina feita à pedrada!


(em surdina)
Nem todo o ardina trás boa nova!
(em surdina)
Nem toda a cantina o povo aprova!
(em surdina)
Nem todo a sina é uma sova!


(AOS GRITOS)
Todos os santos são aflitos!
(AOS GRITOS)
Todos os salmos são conflitos!
(AOS GRITOS)
Todas as almas são atritos!




Zéphyro   30-12-2018

Que é feito?

Que é feito dos favos de mel
do teu sorriso de menina?
Que é feito do Bolero de Ravel
que nos teus olhos nunca desafina?


Terão ficado largados na dor,
desfiados pelos dias lestos
onde nos esquecemos do amor?


Ou terão ficado junto com os restos,
de tudo o que já teve mais sabor,
servido em trajes mais modestos?


Que é feito do açucar da tua voz
quando era trova cada palavra tua?
E que é feito entretanto de nós,
emaranhados em tanta amargura?


Terá sido o futuro
a saquear-nos o presente?
A derrubar-nos como a um muro?


Terá sido alguém em especial, ou toda a gente?
Terá sido demasiada luz, ou demasiado escuro
a fazer de nós uma estrela cadente?


Que é feito dos frutos nos teus passos
quando vinham sempre para mim?
E que é feito do apogeu de abraços
e das mil e uma noites de Aladim?


Terão sido demasiadas noites comigo?
Ou terá sido apenas a fantasia
e o fascínio pelo perigo,


a transformarem cada noite em dia,
a fazer da magia castigo
e a roubar-nos a alegria?


Mas que é feito de tudo que era doce outrora?
Será que se afogou em pranto a paixão?
Será que, como todos que amo, já foi embora
e me deixou a braços solos com a ilusão?


Que é feito da doçura?
Que é feito da ternura
que me fez querer estar aqui?


E o que é feito da candura?
E o que é feito da loucura?
E o que é feito de mim sem ti?




Zéphyro   30-12-2018

Mea Culpa

É culpa minha haver fome
onde quer que ela haja.
Pois sou do tipo que esbanja,
que enche o prato e nunca come.


Sou o culpado de toda e qualquer doença.
Preferi sempre viver na ignorância
e sou culpado, em última instância,
por não ter estudado ciência.


Também tenho a culpa da guerra...
Das crianças que morrem,
das bombas que explodem...


Sou do tipo que ao invés de beijar ferra!
Do tipo que ao invés de calar berra!
Ao invés de paz, vivo da desordem.


Sou culpado da precariedade
dos princípios da nova geração.
De andarem sempre de "smartphone" na mão
e de se esquecerem de viver de verdade.


Sou culpado das patranhas religiosas,
das peregrinações sem sentido
de quem quer que tenha sofrido
e superado com ajuda milagrosa.


Também tenho culpa da ganância...
E do consumismo...
E do falso socialismo...


Sou do tipo de viciado desde a infância!
Do tipo de gastar com toda a ânsia
de quem ama o materialismo.


É culpa minha o desemprego
e a baixa taxa de natalidade.
Todo o mal da sociedade,
é responsabilidade minha, não nego.


Os transportes públicos sempre atrasados
deixando as paragens cheias de gente.
As escolas, com instalações indecentes
e os hospitais, a caírem aos bocados.


Também se devem a mim os impostos
e o preço galopante dos combustíveis.
E sou culpado do endividamento, a todos os níveis.


Sou do tipo que está sempre a postos,
para infligir dor, miséria e desgostos.
Sou mais de desprezo que de momentos inesquecíveis.


Mea culpa por todo o mal!
Mea culpa por todos os erros!
Mea culpa por toda a desilusão!


Vivo em penitência opcional.
Como se preparasse já o meu enterro
e o espaço onde vou sumir-me debaixo do chão.




Zéphyro  23-12-2018

Auto-Retrato

Um moreno pouco sereno.
Um nariz grande desde pequeno,
duas pernas inquietas e duas mãos curiosas.


Nos olhos maravilhas, na língua veneno,
um coração descompassado e um cérebro obsceno,
sedento do cheiro de todas as rosas.


Cheio de carácter, cheio de orgulho.
O sabor do caviar na escolha pelo entulho
e o conforto das penas em noites a ferros.


Indiferente. A toda a gente e ao barulho.
Um grão de arroz submerso em gorgulho
e o silêncio da morte numa alma aos berros.


Hedonista, convicto epicurista,
levemente egocêntrico e anarquista.
Um pensador de todas as sensações.


Realista, apaixonado à primeira vista,
por toda a natureza que exista
e por todas as grandes canções.


Analítico e introspectivo.
Um carente fugidío e esquivo.
Um mal amado que não se deixa amar.


Enraivecido, revoltado mas inofensivo.
Todas as linhas de todos os livros
que a solidão o fez devorar.


Bondoso, quase sempre generoso.
Ainda que um pouco mentiroso,
tão só por medo da realidade.


E sinistro e caótico e escabroso.
Imprevisível e até misterioso,
que o mistério sempre esconde a verdade.


E a arte, um pouco por toda a parte.
E o lar, lá longe para lá de marte.
Cravado em Oríon, bem na sua cintura.


E toda a poesia como baluarte
e demasiada lucidez que faz estandarte
da própria dor e da própria loucura.


O oxigénio, já escasseia a cada dia.
Junto com o amor ao próximo e junto com a alegria.
Tudo se desterra no peito já cheio de sequelas.


As perdas que fizeram pai de uma mera cria,
transformaram a irreverência em eterna melancolia
e de pouco serve ser matéria das estrelas...


Demasiado rancor traz consigo o conhecimento.
E chega a durar dias um simples momento,
ainda que não deixe para trás substância.


Demasiado abrigo, acaba por ser relento.
E o jejum, acaba por ser sustento.
E toda a sabedoria, apenas expõe a ignorância.


O tédio doentio e o pavor da doença.
A ausência de amor próprio e de pertença,
justificam por si tudo o resto.


Um moreno, que é bem menos do que pensa,
tão diferente que não aparenta diferença,
tão igual, que não sabe ser modesto.




Zéphyro  16-12-2018