Porquê? Porque sim, sou eu que mando!
Já fui demónio, já fui doutor e fui comando,
posso matar um homem com as mãos nuas.
Respeita, então as minhas costas,
que talvez eu chicoteie as tuas
se não gostar das tuas respostas
ou se acordar de rabo para a lua.
Já matei leões e fiz furor em festivais.
Fui o rei dos foliões e fui quem bebeu mais,
tenho a melhor boca e a melhor pontaria.
Sei amestrar bichos selvagens,
vivo de noite e durmo de dia.
Respiro veneno e cuspo coragem,
sou veloz como a luz e sei fazer magia.
Razão?! Já nasci eu dono dela!
E não vim nu, mas na minha melhor farpela,
preparado para ser amado, por rapaz ou rapariga,
que se enfeitice pela minha grandeza
com a nobreza do meu sangue e com o rei na minha barriga,
Que me bajulem, como os ecologistas à natureza
e me desejem, como o infiel a uma nova amiga.
Que me transportem no regaço de uma liteira,
e me rezem de joelhos, com fé e dor verdadeira
e talvez eu até tenha deles misericórdia.
Quiçá me vista dos trapos que me oferecem
e até guarde de todos boa memória,
recorde com piedade de tudo o que padecem
e os faça, à força, aplaudir a minha vitória.
Zéphyro 29-09-2017
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Reféns do silêncio
A boca abre e a garganta dispara,
silvos sem som, sopros sem sentido.
E a vergonha do silêncio, estampada na cara
e o grito de dor, no peito contido.
Zumbidos distantes furam o nada
e o nada, ofendido prossegue sozinho
o caminho atroz, de boca emudecida.
O som dos seus passos, abafados pela calçada
e os risos calados, largados pelo caminho,
na beira da estrada e ao largo da vida.
Reféns do silêncio respiram pudor
e sorvem as leis alheias, agradecidos,
como se ser mudo, fosse um favor,
ou um presente que recebem, de braços estendidos.
Linguajares sem fonética,
dialetos guardados no escuro da bruma,
vergada perante o império amordaçado.
E gentes, vazias, empaladas pela ética,
vão caindo e morrendo, uma a uma,
sem queixumes nem fado malfadado.
Zéphyro 28-09-2017
silvos sem som, sopros sem sentido.
E a vergonha do silêncio, estampada na cara
e o grito de dor, no peito contido.
Zumbidos distantes furam o nada
e o nada, ofendido prossegue sozinho
o caminho atroz, de boca emudecida.
O som dos seus passos, abafados pela calçada
e os risos calados, largados pelo caminho,
na beira da estrada e ao largo da vida.
Reféns do silêncio respiram pudor
e sorvem as leis alheias, agradecidos,
como se ser mudo, fosse um favor,
ou um presente que recebem, de braços estendidos.
Linguajares sem fonética,
dialetos guardados no escuro da bruma,
vergada perante o império amordaçado.
E gentes, vazias, empaladas pela ética,
vão caindo e morrendo, uma a uma,
sem queixumes nem fado malfadado.
Zéphyro 28-09-2017
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
A sul do paraíso
Já se dorme no paraíso
e eu, aqui, sozinho e acordado.
Buscando nas paredes pelo teu sorriso,
fantasiando que a minha sombra, és tu ao meu lado.
O paraíso fica a norte,
e eu, a sul, esperando o regresso,
cuidando que aqui sou já meia morte,
uma peça a retalho, por metade do preço.
Já sonha a noite o paraíso
e eu desacordado sem estar a dormir,
só sonho sonhar deitado contigo.
Só sonho com tudo aquilo que preciso,
só quero que a insónia me deixe partir
para o paraíso a norte, onde está o meu abrigo.
Zéphyro 30-08-2017
e eu, aqui, sozinho e acordado.
Buscando nas paredes pelo teu sorriso,
fantasiando que a minha sombra, és tu ao meu lado.
O paraíso fica a norte,
e eu, a sul, esperando o regresso,
cuidando que aqui sou já meia morte,
uma peça a retalho, por metade do preço.
Já sonha a noite o paraíso
e eu desacordado sem estar a dormir,
só sonho sonhar deitado contigo.
Só sonho com tudo aquilo que preciso,
só quero que a insónia me deixe partir
para o paraíso a norte, onde está o meu abrigo.
Zéphyro 30-08-2017
Pardal Pardacento
Pousou-me no ombro, esta manhã, um pardal,
tristonho, desbotado e pardacento.
Falou e bem, digo eu, por sinal,
do que vê lá do alto, em tom de lamento.
E disse que as dunas se vão como vento,
a cada Verão, sem despedidas,
sem saudades ou nostalgia.
E disse que o tempo, corre sempre lento
se nos apanha distraídos a gastar a vida
e nos gasta as vidas se o contarmos, por magia.
Pousou-me um pardal sem graça no ombro,
se estivesse a graça naquilo que vemos.
Veio lá de longe, sei lá eu de que escombros,
refém em fuga das coisas que temos.
E falou-me do cárcere a céu aberto,
da liberdade fingida e do cinismo,
o que resta, agora, da grande capital.
E falou-me que ninguém existe em concreto.
São todos meras réplicas de um pequeno sismo,
como todos, irrelevante, ténue e superficial.
Um pardal pardacento palrou-me ao ouvido.
Em tom de segredo, fez uma confissão:
Despojou-se no caminho das cores sem sentido
e se era hoje pardal, já fora pavão.
E é livre agora, como um dente de leão,
soprado ao vento pelos lábios de uma criança
livre, que ainda o tempo não gastou.
E só procura o que precisa, sem ambição.
E não deseja, não espera, nem alcança,
para além do aconchego do ombro onde pousou.
Zéphyro 29-08-2017
tristonho, desbotado e pardacento.
Falou e bem, digo eu, por sinal,
do que vê lá do alto, em tom de lamento.
E disse que as dunas se vão como vento,
a cada Verão, sem despedidas,
sem saudades ou nostalgia.
E disse que o tempo, corre sempre lento
se nos apanha distraídos a gastar a vida
e nos gasta as vidas se o contarmos, por magia.
Pousou-me um pardal sem graça no ombro,
se estivesse a graça naquilo que vemos.
Veio lá de longe, sei lá eu de que escombros,
refém em fuga das coisas que temos.
E falou-me do cárcere a céu aberto,
da liberdade fingida e do cinismo,
o que resta, agora, da grande capital.
E falou-me que ninguém existe em concreto.
São todos meras réplicas de um pequeno sismo,
como todos, irrelevante, ténue e superficial.
Um pardal pardacento palrou-me ao ouvido.
Em tom de segredo, fez uma confissão:
Despojou-se no caminho das cores sem sentido
e se era hoje pardal, já fora pavão.
E é livre agora, como um dente de leão,
soprado ao vento pelos lábios de uma criança
livre, que ainda o tempo não gastou.
E só procura o que precisa, sem ambição.
E não deseja, não espera, nem alcança,
para além do aconchego do ombro onde pousou.
Zéphyro 29-08-2017
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