Pousou-me no ombro, esta manhã, um pardal,
tristonho, desbotado e pardacento.
Falou e bem, digo eu, por sinal,
do que vê lá do alto, em tom de lamento.
E disse que as dunas se vão como vento,
a cada Verão, sem despedidas,
sem saudades ou nostalgia.
E disse que o tempo, corre sempre lento
se nos apanha distraídos a gastar a vida
e nos gasta as vidas se o contarmos, por magia.
Pousou-me um pardal sem graça no ombro,
se estivesse a graça naquilo que vemos.
Veio lá de longe, sei lá eu de que escombros,
refém em fuga das coisas que temos.
E falou-me do cárcere a céu aberto,
da liberdade fingida e do cinismo,
o que resta, agora, da grande capital.
E falou-me que ninguém existe em concreto.
São todos meras réplicas de um pequeno sismo,
como todos, irrelevante, ténue e superficial.
Um pardal pardacento palrou-me ao ouvido.
Em tom de segredo, fez uma confissão:
Despojou-se no caminho das cores sem sentido
e se era hoje pardal, já fora pavão.
E é livre agora, como um dente de leão,
soprado ao vento pelos lábios de uma criança
livre, que ainda o tempo não gastou.
E só procura o que precisa, sem ambição.
E não deseja, não espera, nem alcança,
para além do aconchego do ombro onde pousou.
Zéphyro 29-08-2017
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