quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Pardal Pardacento

Pousou-me no ombro, esta manhã, um pardal,
tristonho, desbotado e pardacento.
Falou e bem, digo eu, por sinal,
do que vê lá do alto, em tom de lamento.

E disse que as dunas se vão como vento,
a cada Verão, sem despedidas,
sem saudades ou nostalgia.

E disse que o tempo, corre sempre lento
se nos apanha distraídos a gastar a vida
e nos gasta as vidas se o contarmos, por magia.

Pousou-me um pardal sem graça no ombro,
se estivesse a graça naquilo que vemos.
Veio lá de longe, sei lá eu de que escombros,
refém em fuga das coisas que temos.

E falou-me do cárcere a céu aberto,
da liberdade fingida e do cinismo,
o que resta, agora, da grande capital.

E falou-me que ninguém existe em concreto.
São todos meras réplicas de um pequeno sismo,
como todos, irrelevante, ténue e superficial.

Um pardal pardacento palrou-me ao ouvido.
Em tom de segredo, fez uma confissão:
Despojou-se no caminho das cores sem sentido
e se era hoje pardal, já fora pavão.

E é livre agora, como um dente de leão,
soprado ao vento pelos lábios de uma criança
livre, que ainda o tempo não gastou.

E só procura o que precisa, sem ambição.
E não deseja, não espera, nem alcança,
para além do aconchego do ombro onde pousou.



Zéphyro  29-08-2017

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