Numa terra distante, reza a lenda, havia uma princesa sem trono e sem castelo onde reinar. Passeava entre as flores e seguia infantil as lebres saltitantes que buscavam santuário entre as ervas, ao som dos seus passos sem motivo.
Miosótis, diz a estória, era sozinha no mundo dos crescidos que seus pais haviam já partido, ardidos até ao osso naquele fogo de inverno, que transformou em inferno a biblioteca do palácio. Multidões acorreram de balde em punho, mas nada a fazer em relação aos carvões em que se tinha transformado tudo aquilo que conhecia, tudo aquilo que tinha como certo.
Um dia quente e solarengo, deixou para trás o casario e seguiu ao longo da margens o rio, que a levou até aos prados. Lá, descobriu então amigos e, no silêncio, a companhia que na mão lhe segurava.
À noite, o frio pelo medo das fogueiras e das corujas e cotovias a quebrar o vazio escuro, à noite, somente pena de si mesma e o breu à cabeceira, sem lamparina pela mão. Por vezes, acordava de um sonho, com gélidas gotas a descer-lhe as costas e rezava alto aos mil pontos no céu, dois dos quais papá e mamã certamente, para que a deixassem ver de novo o dia.
Oxalá o dia, lhe trouxesse o calor do sol e o amparo do tecto de uma gruta, para onde sempre cirandavam as aves pela matina. Bem via ela ao longe, os molhos de penas coloridas, abandonadas pelo alvoroço da primeira refeição do dia.
Havia entre as aves, um passarito mais pequeno, que a guiava aos tesouros que precisava descobrir. Um passarito de bico esguio, que conhecia toda a floresta e os seus favos de mel, mesmo que no alto dos aciprestes que, consigo, choravam a solidão. Lambuzava-se Miosótis e o mundo, agora doce, voltava a sorrir-lhe do alto de um penhasco. De lá, vinha o cheiro de flores esquecidas pelo tempo e o assobio prolongado do vento, em plena azáfama esvoaçante.
Subia ao morro todas as tardes a princesa e ficava a ouvir a melodia do seu amigo invisível. Não raras vezes, trazia-lhe pétalas soltas na corrente, ou avisava-a primeiramente que as nuvens iam chegar. De corrida para o refúgio da gruta, podia ainda ouvi-lo a sibilar desde a entrada, que nunca ultrapassava, temendo a rejeição.
Numa terra, lá longe das pegadas do homem, diz a lenda que o vento, se enamorou de uma menina com negra seda no cabelo, sempre revolto e selvagem em contraste com o olhar singelo. Lembrava-lhe as quimeras da juventude e a beleza de outrora, quando o mundo ainda era novo. Recordava-lhe das lutas empreendidas contra os mares e as ondas das tempestades, ribombantes como o seu peito enfeitiçado.
Uma tarde, não apareceu a princesa, no alto do penhasco e, dizem, chorou o vento em desalento e derrubou árvores à sua passagem, assustado pela ausência. Uma tarde, dizem os antigos, não subiu o monte a princesa, fugindo do amor que sentia e do medo de ser amada. Não poderia nunca merecer a exclusividade de uma brisa, nascida para correr o mundo de lés a lés. Não seria nunca capaz de rogar-lhe amor de volta, como uma qualquer romântica do alto do seu egoísmo.
Antes correr até ser noite e ficar em silêncio, lá, onde não a pudessem encontrar. Antes fugir das penas soltas e das pingas cristalinas, das chuvas do temporal.
Mas o vento revirou cada esquina, até chegar a Miosótis, já sem força para se esconder. Vergou em fúria o verde dos prados, para, nos braços do abandono, avistar a flor das flores almejando a sua chegada, entre lágrimas e inquietação.
Jurou-lhe amor eterno e jardins a perder de vista ao longo da viagem. Prometeu-lhe mundos, sem fundo e sem quedas nem traumas para sarar.
Numa terra distante, reza a lenda, havia uma princesa sem trono, que estendeu a mão ao vento. Partiram ambos, rumo à alvorada e aos suspiros mal contidos, nos peitos agora preenchidos pela partilha de um amanhã desconhecido. Nos olhos, agora marejados, pelo pranto da alegria da viagem sem retorno. Nos braços, agora enlaçados, pela jornada encetada com destino ao amor sem fim.
Miosótis, diz a estória, era sozinha no mundo dos crescidos que seus pais haviam já partido, ardidos até ao osso naquele fogo de inverno, que transformou em inferno a biblioteca do palácio. Multidões acorreram de balde em punho, mas nada a fazer em relação aos carvões em que se tinha transformado tudo aquilo que conhecia, tudo aquilo que tinha como certo.
Um dia quente e solarengo, deixou para trás o casario e seguiu ao longo da margens o rio, que a levou até aos prados. Lá, descobriu então amigos e, no silêncio, a companhia que na mão lhe segurava.
À noite, o frio pelo medo das fogueiras e das corujas e cotovias a quebrar o vazio escuro, à noite, somente pena de si mesma e o breu à cabeceira, sem lamparina pela mão. Por vezes, acordava de um sonho, com gélidas gotas a descer-lhe as costas e rezava alto aos mil pontos no céu, dois dos quais papá e mamã certamente, para que a deixassem ver de novo o dia.
Oxalá o dia, lhe trouxesse o calor do sol e o amparo do tecto de uma gruta, para onde sempre cirandavam as aves pela matina. Bem via ela ao longe, os molhos de penas coloridas, abandonadas pelo alvoroço da primeira refeição do dia.
Havia entre as aves, um passarito mais pequeno, que a guiava aos tesouros que precisava descobrir. Um passarito de bico esguio, que conhecia toda a floresta e os seus favos de mel, mesmo que no alto dos aciprestes que, consigo, choravam a solidão. Lambuzava-se Miosótis e o mundo, agora doce, voltava a sorrir-lhe do alto de um penhasco. De lá, vinha o cheiro de flores esquecidas pelo tempo e o assobio prolongado do vento, em plena azáfama esvoaçante.
Subia ao morro todas as tardes a princesa e ficava a ouvir a melodia do seu amigo invisível. Não raras vezes, trazia-lhe pétalas soltas na corrente, ou avisava-a primeiramente que as nuvens iam chegar. De corrida para o refúgio da gruta, podia ainda ouvi-lo a sibilar desde a entrada, que nunca ultrapassava, temendo a rejeição.
Numa terra, lá longe das pegadas do homem, diz a lenda que o vento, se enamorou de uma menina com negra seda no cabelo, sempre revolto e selvagem em contraste com o olhar singelo. Lembrava-lhe as quimeras da juventude e a beleza de outrora, quando o mundo ainda era novo. Recordava-lhe das lutas empreendidas contra os mares e as ondas das tempestades, ribombantes como o seu peito enfeitiçado.
Uma tarde, não apareceu a princesa, no alto do penhasco e, dizem, chorou o vento em desalento e derrubou árvores à sua passagem, assustado pela ausência. Uma tarde, dizem os antigos, não subiu o monte a princesa, fugindo do amor que sentia e do medo de ser amada. Não poderia nunca merecer a exclusividade de uma brisa, nascida para correr o mundo de lés a lés. Não seria nunca capaz de rogar-lhe amor de volta, como uma qualquer romântica do alto do seu egoísmo.
Antes correr até ser noite e ficar em silêncio, lá, onde não a pudessem encontrar. Antes fugir das penas soltas e das pingas cristalinas, das chuvas do temporal.
Mas o vento revirou cada esquina, até chegar a Miosótis, já sem força para se esconder. Vergou em fúria o verde dos prados, para, nos braços do abandono, avistar a flor das flores almejando a sua chegada, entre lágrimas e inquietação.
Jurou-lhe amor eterno e jardins a perder de vista ao longo da viagem. Prometeu-lhe mundos, sem fundo e sem quedas nem traumas para sarar.
Numa terra distante, reza a lenda, havia uma princesa sem trono, que estendeu a mão ao vento. Partiram ambos, rumo à alvorada e aos suspiros mal contidos, nos peitos agora preenchidos pela partilha de um amanhã desconhecido. Nos olhos, agora marejados, pelo pranto da alegria da viagem sem retorno. Nos braços, agora enlaçados, pela jornada encetada com destino ao amor sem fim.
Zéphyro 29-01-2015