quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Miosótis nas asas do Vento

Numa terra distante, reza a lenda, havia uma princesa sem trono e sem castelo onde reinar. Passeava entre as flores e seguia infantil as lebres saltitantes que buscavam santuário entre as ervas, ao som dos seus passos sem motivo.
Miosótis, diz a estória, era sozinha no mundo dos crescidos que seus pais haviam já partido, ardidos até ao osso naquele fogo de inverno, que transformou em inferno a biblioteca do palácio. Multidões acorreram de balde em punho, mas nada a fazer em relação aos carvões em que se tinha transformado tudo aquilo que conhecia, tudo aquilo que tinha como certo.
Um dia quente e solarengo, deixou para trás o casario e seguiu ao longo da margens o rio, que a levou até aos prados. Lá, descobriu então amigos e, no silêncio, a companhia que na mão lhe segurava.
À noite, o frio pelo medo das fogueiras e das corujas e cotovias a quebrar o vazio escuro, à noite, somente pena de si mesma e o breu à cabeceira, sem lamparina pela mão. Por vezes, acordava de um sonho, com gélidas gotas a descer-lhe as costas e rezava alto aos mil pontos no céu, dois dos quais papá e mamã certamente, para que a deixassem ver de novo o dia.
Oxalá o dia, lhe trouxesse o calor do sol e o amparo do tecto de uma gruta, para onde sempre cirandavam as aves pela matina. Bem via ela ao longe, os molhos de penas coloridas, abandonadas pelo alvoroço da primeira refeição do dia.
Havia entre as aves, um passarito mais pequeno, que a guiava aos tesouros que precisava descobrir. Um passarito de bico esguio, que conhecia toda a floresta e os seus favos de mel, mesmo que no alto dos aciprestes que, consigo, choravam a solidão. Lambuzava-se Miosótis e o mundo, agora doce, voltava a sorrir-lhe do alto de um penhasco. De lá, vinha o cheiro de flores esquecidas pelo tempo e o assobio prolongado do vento, em plena azáfama esvoaçante.
Subia ao morro todas as tardes a princesa e ficava a ouvir a melodia do seu amigo invisível. Não raras vezes, trazia-lhe pétalas soltas na corrente, ou avisava-a primeiramente que as nuvens iam chegar. De corrida para o refúgio da gruta, podia ainda ouvi-lo a sibilar desde a entrada, que nunca ultrapassava, temendo a rejeição.
Numa terra, lá longe das pegadas do homem, diz a lenda que o vento, se enamorou de uma menina com negra seda no cabelo, sempre revolto e selvagem em contraste com o olhar singelo. Lembrava-lhe as quimeras da juventude e a beleza de outrora, quando o mundo ainda era novo. Recordava-lhe das lutas empreendidas contra os mares e as ondas das tempestades, ribombantes como o seu peito enfeitiçado.
Uma tarde, não apareceu a princesa, no alto do penhasco e, dizem, chorou o vento em desalento e derrubou árvores à sua passagem, assustado pela ausência. Uma tarde, dizem os antigos, não subiu o monte a princesa, fugindo do amor que sentia e do medo de ser amada. Não poderia nunca merecer a exclusividade de uma brisa, nascida para correr o mundo de lés a lés. Não seria nunca capaz de rogar-lhe amor de volta, como uma qualquer romântica do alto do seu egoísmo.
Antes correr até ser noite e ficar em silêncio, lá, onde não a pudessem encontrar. Antes fugir das penas soltas e das pingas cristalinas, das chuvas do temporal.
Mas o vento revirou cada esquina, até chegar a Miosótis, já sem força para se esconder. Vergou em fúria o verde dos prados, para, nos braços do abandono, avistar a flor das flores almejando a sua chegada, entre lágrimas e inquietação.
Jurou-lhe amor eterno e jardins a perder de vista ao longo da viagem. Prometeu-lhe mundos, sem fundo e sem quedas nem traumas para sarar.
Numa terra distante, reza a lenda, havia uma princesa sem trono, que estendeu a mão ao vento. Partiram ambos, rumo à alvorada e aos suspiros mal contidos, nos peitos agora preenchidos pela partilha de um amanhã desconhecido. Nos olhos, agora marejados, pelo pranto da alegria da viagem sem retorno. Nos braços, agora enlaçados, pela jornada encetada com destino ao amor sem fim.


Zéphyro  29-01-2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Deus joga GTA

O Homem, é a sua obra. É a grandeza das empreitadas terrenas que, em derradeiro julgamento, elege o nome de um indivíduo como exequível de ocupar, em anos vindouros, a boca de analistas e historiadores.
Alguns, padecem e são lembrados ainda por gerações não contemporâneas. Seja qual for o caris da obra deixada. Como evidência, temos os exemplos de Hitler ou Gandhi, antagónicos no respeito pela vida alheia e na demanda que lhes encurtou a vida, ambos porém, enormes na marca que deixaram vincada no rosto de uma humanidade que teima em despertar.
Visto isto, tenho dado comigo a esmiuçar deus e todo o seu significado que, levado à letra, permite deduzir que está sujeito às mesmas regras que as suas marionetas de carne e osso: Deus é a sua obra!
Qual é então a obra de Deus? Bom, em primeiro apontamento, é uma obra extensa, quase ao nível de um omnipotente Nicholas Sparks. Levada a cabo ao longo de um bem mais alargado período de tempo, é certo, mas com a mesma carga emotiva e trágica, que, inevitavelmente, enjoa pela repetição. Valor seja dado ao norte americano, que, pelo menos, tem a decência de cobrar pelos seus livros, desresponsabilizando aqueles que não têm nos bolsos cheta, para gastar em cultura e outras pieguices.
Já deus, está em toda a parte e é de borla. Característica irrascível e inteligente arma de quem quer expandir horizontes para além de umas quantas tias azedas e chegar a auditórios mais auspiciosos que as adaptações hollywoodescas da propaganda.
O início, até foi bonito de assistir. Era um vê se te avias de arvorezinhas e rios e oceanos, uma amálgama de bichos e bicharocos a brotar em toda a parte. Mas o tédio apossessa-se de um artista, ora se apossessa. Quando tal, chega de benfeitorias e toca mas é a alegrar um bocadinho a coisa, polvilhando-a com malícia, vício e conspurcação, carregadas às costas pelos nossos antepassados humanoides. Aí sim, começou a diversão do deus nosso senhor, até então muito dado a causas meramente nobres.
Porque raio haveria o supremo fazedor de todas as coisas de visitar a feira popular e ficar-se só pelos enfadonhos carrinhos de choque e pelo comboio fantasma cujos fantasmas se escondem sempre atrás das mesmas esquinas? Ser supremo por ser supremo, mais vale uma boa mão carregada de bilhetes para a montanha russa ou qualquer outro carrossel que, eventualmente, vire tudo de cabeça para baixo.
Assim sendo, não se imiscuindo em demasia, é quase certo que deus se tenha, inclusivamente, associado a algumas colectividades, fomentadoras da paixão e da emoção na sociedade.
O futebol, por exemplo. É por demais óbvio que deus nutre uma muito especial simpatia pelo benfica. Não tivesse ele, só no ano passado, chamado a si o Eusébio e o Coluna. Logo estes dois, símbolos de toda uma nação de benfiquistas que, se quer ver a bola, paga bilhete como toda a gente ou, quando muito, subscreve a benfica tv. Ver de cima e sem pagar é que já é abuso, apenas compreensível no caso da águia Vitória, quando os jogos são em casa e no caso dos muitos personagens célebres que, exactamente por serem célebres, se abstêm de pagar ingresso de camarote para um espectáculo que, em suma, estão a agraciar e não a usufruir.
Mas nem só de pontapés na bola se alimenta o humor do pai de todos nós. Diz-se à boca pequena, que é um fervoroso admirador das novas tecnologias de informação, principalmente dos jogos de consola, para os quais tem todos os códigos de batota. Sabe-se que, queimou tempos e tempos a tentar descobrir sentido no "Paradise Caffe", através do seu Timex 48k. Tempo esse, só ultrapassado pelo despendido a jogar o "Street Fighter". Apenas o largou da mão quando chegou ao final do jogo com todos os lutadores... até com o Blanka que é mais lento que a justiça de certos países primeiromundistas.
Paulatinamente, o espaço à imaginação, aberto pela grave lacuna gráfica, foi abandonando os jogos e estamos em plena era da realidade virtual. Bem vale a experiência de simulação ganha no "SimCity". Só assim se compreende plenamente o nível de superioridade atingido por alguns criadores de arcádia dos dias de hoje.
Que viva o GTA! Quem quer ver deus, é numa qualquer sala de jogatana online, onde passa os dias e as noites, esquecendo-se até dos seus deveres de pai. Dizem os mais entendidos que desde Santana Lopes, ninguém passava tantas horas em salas de jogo.
Ele é fazer missões, é roubar carros, palmar carteiras, chacinar inocentes. Uma diversão pegada, enfim.
Felizmente há pontuação extra para quem atropelar velhinhos ou fizer de uma redacção de jornal um paredão de fuzilamento.

Zéphyro  28-01-2015

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo

Sou ateu!
Não há, por isso,
deus nenhum cujo nome,
queira defender com a vida.
Divina, só a liberdade
e, por ela sim, morreria
com todo o orgulho do meu ser.
Assim fez Charlie Hebdo
e a sua brigada de caneta em punho.
Deram a vida e o peito
às balas de quem não crê
na liberdade como deus Uno.
Morram infames assassinos da palavra!
A ceifar vidas a bel prazer,
em nome de um deus mesquinho,
que deveria unificar no respeito
e no amor pelo próximo.
Morram fundamentalistas sem fundamento!
Morram jihadistas muçulmanos!
Vergonha de todo um mar de gente
que roga ao mesmo deus,
sem ter fé ou recorrer à lei da bala.
Sou ateu!
Não desejo, por isso,
a morte de quem quer que seja,
nem tenho sede de vingança.
O meu deus não tem amarras,
não condena nem ordena.
Creio no deus homem,
que respeita o vizinho
como respeita a si mesmo.
Morram nações de merda
que teimam em entaipar ao povo
a vista para o mundo!
Morram mártires da falsa fé
e carrascos da santa sé!
Sempre a limitar o mundo,
que nos deu um nosso senhor
que nada tem de celeste.
Sou ateu, por isso,
apenas acredito na bondade
com que quero ser tratado
na minha passagem pela terra.
Efémera como a vida de Charlie.
Homem do mundo, como eu
e sem ponta de obscuridade.
Morram militares e heróis asquerosos!
Com armas onde deveriam ter
apenas mãos. Prontas e abertas
para dar e receber.
Morram filhos, morram pais,
morram polícias do mundo
que carece policiamento!
Sempre em busca de ouro negro
ou outro qualquer, que também brilhe.
Morram desertores da verdade!
Almas impuras de toda a parte.
Sempre quis ser um eu original
e viver dissociado de clichés
e longe de lugares comuns.
Mas não hoje, não aqui!
Moi aussi, Je suis Charlie!

Zéphyro  09-01-2015

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nulidade das semanas

Há mais de uma semana que não acordo
com o teu sabor a inundar-me a boca.
Ultimamente, só acre e tabaco
que raramente escovo os dentes
antes de me deitar para dormir.
Faz-me falta o teu suor no meu suor
e o teu lado quentinho da cama
quando calha levantares-te mais cedo.
Hoje, acordei a tremer de frio
e não adiantou rolar no leito.
Não há marcas do teu corpo
nesta estreita cama de solteiro.
Não me irrito, há mais de uma semana...
Não me excito, há mais de uma semana...
Não existo, há mais de uma semana.
Ultimamente, dei férias ao que eu sou
quando estou dentro de mim,
alforriei aquele que existe
quando estou dentro de ti.
Sinto falta do teu mel a lambuzar-me
a pele em redor da boca, já seco, pela manhã.
Adoro estar sujo de ti e dos teus fluídos.
Tiro deles usufruto para que possa ver-te
mesmo estando longe de ti.
Há mais de uma semana não te tenho,
mas amanhã é sexta feira e não me escapas.


Zéphyro  22-01-2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Valquíria

Os dois irmãos empunhavam as suas pistolas erectas e luzidias, enquanto, recostados um no outro, fitavam horizontes opostos.
Um, via ainda a noite, mãe de todos os amantes, e a carne nua de Valquíria, gemendo por entre sugados beijos que juntam a fome à vontade de comer. Outro, olhava já o dia, sorrindo ténue nos confins do planalto, palco de infindáveis tardes de romance e piqueniques à sombra do grande carvalho, onde sempre se espraiava Valquíria, convidativa como algodão doce nas festas populares.
O dinheiro, divide-se e reparte-se em lotes os terrenos de plantio que lhes deixou a orfandade. Valquíria não se partilha! Partilhar, só o sangue e a raiva de morte um pelo outro.
Fazia três meses, que lhes entrara, de chancas porta a dentro, a soberba, na forma da mais delicada mulher que jamais pisara toda a terra conhecida. Entrou ela e o seu inebriante perfume, que remete para a luxúria das maçãs mordidas com sofreguidão.
Após essa manhã, em que a vila olhou de esguelha para a porta chiadeira, aberta em jeito de entrada triunfal, ia já a missa a meio, nunca mais foi a mesma a vida dos endinheirados irmãos Ventura.
Aquela morena altiva, que atravessava a nave da igreja desdenhosa, mexeu no âmago dos dois de tal forma, que o destino ficou traçado. Mal cruzaram olhares, avaliaram um no outro o mesmo enamoramento instantâneo e, certamente, um deles teria de morrer, um dia.
Os dois irmãos empunhavam as suas pistolas erectas e luzidias. Quem seria o traidor? Pois se um, fugiu e desposou a bela lá para os lados de espanha e o outro lhe lia poesias e enfiava na boca uvas e dedos e a língua bem ali, no cimo daquele planalto onde a noite e o dia trocavam turnos.
Valquíria era a santa, manipulada pelos horrendos brutamontes que a passavam de mão em mão, como uma garrafa de bagaço num dia de trabalho no campo. Valquíria era a pura. Privada da sua castidade, sem sangue em lençol branco, por dois vis abutres, que lhe debicavam eriçados e cobiçosos, as tenras carnes ensolaradas.
Quem seria o traidor? Como saber, se ambos espetaram na terra conquistada a bandeira que a reclama? Em última instância, o traidor, será aquele a cair primeiro e cujo sangue enferrujará a terra seca pelo estio.
Os dois irmãos, recostados um no outro, seguram as suas pistolas que parecem murchar com o aproximar da hora e parecem menos luzidias, como se o seu brilho que se apagasse com a noite já de saída.
Quando chegou a hora, Valquíria atrás do carvalho do pecado, viu por entre os farrapos de neblina a desventura dos Ventura, ambos jazidos na terra árida do planalto. Aproximou-se a medo e viu as armas prostradas mais além, ainda fumegantes dos disparos certeiros. Nos olhos arregalados e vítreos dos seus amantes só ódio de morte e medo da morte. Uma emoção em cada olho.
Ela não. Sem sobra de temor, teve ainda tempo de sorrir ao sol uma última vez, que já se erguia a meia altura. Depois partiu, com um sorriso nos lábios de triunfo que nem o projéctil na têmpora direita, foi capaz de apagar.
 

Zéphyro  21-01-2015