quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Pequenos diamantes do diabo

É vermelho o diabo,
comprador compulsivo de almas.
É fogo o seu abraço
e são pequenos os diamantes
que transforma sempre em carvão,
bem mais quebrável, bem mais cru
que os sonhos que antes brilhavam.

Tem modos lascivos o diabo,
usurpador compulsivo de corpos,
vivos antes do seu toque luminescente,
mas insanamente mortos e enegrecidos,
depois de rapinados da pureza do seu brio...
Depois de despojados do adorno lapidado
a que alguns não resistem
a ferrar o dente sujo e analítico
que comprova a raridade da pureza desbravada.

Devemos viver com o que temos
e com aquilo que nos dá ou deixa o tempo,
na sua desmesurada pressa de fugir-nos.

O que fazer se é ódio o que nos dá?
O que fazer se é revolta o que nos deixa,
esquecida pelos sulcos do caminho?

Devemos brilhar com o brilho de outrora,
quando eramos pequenos diamantes brutos,
escondidos nos recantos de uma mina por descobrir.

O que fazer com o carvão
em que nos tornamos após a vinda do homem?
O que fazer com o negro da noite sem lua
em que se transformou a nossa preciosidade
e o nosso esmerado preciosismo?

É vermelho o diabo,
como os rubis que palpitam nas entranhas
daqueles que nada entendem de jóias...
Daqueles que não sabem que a jóia é apenas jóia,
até que o fóssil encrustado nas unhas do demo
nos rasga a superficie gutural dos medos,
para quedar-se no cerne da nossa inexistência,
tão éfemera como o que fomos ao existir,
quando ainda existíamos.
 
Pequenos diamantes, são vermes a seu tempo.
Pequenos diamantes, alimentam-se de brilho alheio,
como de chamas se alimenta a destruição
que o diabo vermelho apregoa a cada promessa que não cumpre.


Zéphyro  22-10-2015

sábado, 10 de outubro de 2015

Abstinência

Fecho os olhos para dormir,
mas o sono não vem...
E esta (minha) voz na minha cabeça:

- Vais falhar! Ah ah ah!

Cala-te Eu, que sou melhor que tu,
pois mesmo não tendo sono,
continuo a querer dormir!
Cala-te, que não sabes o que dizes!

Abro a boca para comer,
mas a fome não vem...
E sempre a mesma voz tirana,
monocórdica como a minha:

- Vais falhar, falhado! Ah ah... Ah!

Cala-te! Mesmo sem fome,
continuo a querer comer e tu,
que não és senão eu,
precisas também do alimento,
jocoso e nutritivo que te me dou!

- Vais falhar!

Cala-te!

- Vais falhar!

Cala-te!

- Falhado!

CA-LA-TE!

Mesmo sem força vou vencer-me
e vencer-te e vencer tudo e todos
que duvidam da minha fé,
que põe em causa a minha vontade.
Aquela que me roubaste junto com a liberdade!

Mesmo sem voz continuo a gritar,
mais alto que aquela voz sumida,
na minha cabeça surda por não suportar
ouvir-me por mais um segundo no tempo...

- Vais falhar!

Não vou! Já triunfei!
Desde o primeiro minuto que desisti de ti
e optei por mim, ainda que,
sejamos um só, indissolúvel, como a canela,
que servia para apagar o cheiro a morte
do corpo dos mortos mais vivos que eu!

Mesmo sem quereres, tento desejar!
Mesmo sem sonhos, procuro a luz...
A luz no fundo do túnel que, deus me ajude,
não será nenhum comboio na minha direcção!

Cala-te! Não sabes o que és,
mas eu, sei o que te sou e isso,
torna-me melhor que tu!

- Vais falhar!

Não vou! Já te venci, que o meu corpo,
já não te obedece, ainda que não me obedeça!
A minha alma, já não te roga,
ainda que não creia em mais nenhuma verdade!
Hei-de encontra-la e hei-de perder-te
e hei-de berrar na tua cabeça que já foi minha:

- Quem é o falhado agora?!?! Ah... Ah... Ah...

Mesmo cego vejo o fundo do poço!
Mesmo mudo, grito em plenos pulmões!
Mesmo surdo, ouço esse meu berro,
na minha voz que já não ordenas!

Cala-te! Já não me és o que já te fui.
Não preciso do teu perdão, nem da tua empatia!
Sou grande, sou rei, sou vivo... como tu, sem mim!


Zéphyro  10-10-2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Muros, humanidade e utopia

Sonho com um mundo sem muros,
onde ser sírio ou português,
sul africano ou inglês,
sejam meros acasos geográficos.

Um mundo sem fronteiras,
um mundo sem barreiras,
nem arame farpado de espécie alguma.
Uma enorme comunidade, verdadeira
e verdadeiramente comunitária,
onde sempre será bem vindo,
aquele que vier com boa vontade.

Ainda me lembro,
como se cá tivesse estado,
de uma mão cheia de ocasiões,
onde a humanidade só o foi,
por não existirem muros ou nacionalidades.

A última idade do gelo,
que levou mais de um terço
do mundo que pisávamos seco,
só não nos levou também, como espécie,
porque muros não havia
e os bravos, os corajosos, os humanos,
migraram e prosperaram noutras planícies.

O orgulho dos navegantes lusos,
que descobriram mundos oclusos,
só existe, porque não havia mapas,
nem havia cartas militares,
nem havia fronteiras.

Tudo era uma enorme incógnita
entaipada pelo desconhecimento,
desbravada pela liberdade e pela esperança,
de uma casa maior para criar os nossos filhos.
De novos sabores para os nossos pratos
e novas matérias primas,
com que erigimos as nossas cidades.

A humanidade acabou,
desde que erguemos o primeiro muro!

Agora, somos apenas homens e mulheres,
uns, mais humanos que outros,
porque vêm de mais longe,
porque vêm mais sujos e com parasitas
e não são merecedores da nossa paz.

A humanidade acabou,
quando o homem se fez gente!

Antes, quando eramos nómadas,
a nossa casa era onde
fossem mais verdejantes os prados,
onde fossem mais limpos os riachos
e mais fartos os animais.

Agora, que somos sedentários e gordos,
a nossa casa, é onde nos manda
o bilhete de identidade.
Ainda que esteja em ruínas,
ainda que já não haja terra que cultivar.
É esse o nosso lar e,
se porventura, tivermos de padecer com fome,
foi o destino que assim o quis!
 
Sonho com um mundo de homens humanos,
onde cada um, é livre!
Livre de buscar por alimento,
livre de procurar sustento,
sem que lhe chamem estrangeiro,
sem que seja alienígena e acabe alienado.

Sonho um mundo sem muros!
Onde a paisagem não tem limites,
onde, se estiver céu limpo,
podemos admirar todo o planeta.

Será que alguém escolheu onde nascer?!
Não, porra!
Mas todos deveríamos poder escolher,
onde criar os nossos laços.

Porque têm de morrer de fome
aqueles que nascem em terras sem sustento?
Se aqui, de onde vos escrevo,
todos os dias desperdiçamos alimento
e nos achamos, por isso, afortunados!
 
Sonho com um mundo aberto,
sem húngaros mal agradecidos e enmurados,
sem russos voadores endiabrados
e com homens e mulheres,
simplesmente humanos,
que não estourem com as bombas
e acabem feitos em bocados.

Será pedir demasiado?
 
 
Zéphyro  06-10-2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em abono da verdade...

Em abono da verdade, vos digo,
que a verdade, é uma concubina,
agarrada aos ossos de um velho endinheirado,
que lhe sustenta os vícios materiais!

Casas, carros, férias no estrangeiro.
Roupas, joias e respeitabilidade.
Tudo aquilo, que pode comprar o dinheiro,
cativa a grande manceba que é a verdade.

Em abono dela, vos digo,
que é uma bactéria, de boca em boca,
contagiando de morte e pedra
todos aqueles a quem toca!

Está na boca do pobre, que a vende,
está na boca do rico, que a entende!
Está nas crianças fantasiosas de hoje em dia,
está na maldade, como está na alegria!

Em abono da verdade, vos digo,
que a verdade é uma meretriz
de perna ao léu à beira da estrada,
por onde passam todos os dogmas.

Está no clero e na política,
está na ganância e na semítica
sociedade capitalista europeia,
que a vende como verdade, embora seja uma ideia.

Em abono dela, vos digo,
que é de todos e não é na verdade
de ninguém que não a pague,
pelo preço indicado na etiqueta.

É uma peça, uma mercadoria,
negociada, como um objecto qualquer,
que se paga a pronto e não se fia,
é para quem pode e não para quem a quer.

Em abono da verdade vos digo,
que a verdade é uma mentira!
Repetida mil vezes desde a orla da cidade,
até chegar verdadeira ao coração das gentes.

É um deus que não existe!
É um diabo que nos assiste
numa luta desbravada.
É uma crença desmesurada,
numa palavra que nada vale,
à qual já ninguém resiste.
 
É um pedaço de carne crua,
é um menino, abandonado na rua...
É o perfume francês de uma dama,
é o esterco de uma fossa,
e uma ferida que se inflama!
A verdade, é minha e vossa,
a verdade, não é nada!


 
Zéphyro  05-10-2015