Fecho os olhos para dormir,
mas o sono não vem...
E esta (minha) voz na minha cabeça:
- Vais falhar! Ah ah ah!
Cala-te Eu, que sou melhor que tu,
pois mesmo não tendo sono,
continuo a querer dormir!
Cala-te, que não sabes o que dizes!
Abro a boca para comer,
mas a fome não vem...
E sempre a mesma voz tirana,
monocórdica como a minha:
- Vais falhar, falhado! Ah ah... Ah!
Cala-te! Mesmo sem fome,
continuo a querer comer e tu,
que não és senão eu,
precisas também do alimento,
jocoso e nutritivo que te me dou!
- Vais falhar!
Cala-te!
- Vais falhar!
Cala-te!
- Falhado!
CA-LA-TE!
Mesmo sem força vou vencer-me
e vencer-te e vencer tudo e todos
que duvidam da minha fé,
que põe em causa a minha vontade.
Aquela que me roubaste junto com a liberdade!
Mesmo sem voz continuo a gritar,
mais alto que aquela voz sumida,
na minha cabeça surda por não suportar
ouvir-me por mais um segundo no tempo...
- Vais falhar!
Não vou! Já triunfei!
Desde o primeiro minuto que desisti de ti
e optei por mim, ainda que,
sejamos um só, indissolúvel, como a canela,
que servia para apagar o cheiro a morte
do corpo dos mortos mais vivos que eu!
Mesmo sem quereres, tento desejar!
Mesmo sem sonhos, procuro a luz...
A luz no fundo do túnel que, deus me ajude,
não será nenhum comboio na minha direcção!
Cala-te! Não sabes o que és,
mas eu, sei o que te sou e isso,
torna-me melhor que tu!
- Vais falhar!
Não vou! Já te venci, que o meu corpo,
já não te obedece, ainda que não me obedeça!
A minha alma, já não te roga,
ainda que não creia em mais nenhuma verdade!
Hei-de encontra-la e hei-de perder-te
e hei-de berrar na tua cabeça que já foi minha:
- Quem é o falhado agora?!?! Ah... Ah... Ah...
Mesmo cego vejo o fundo do poço!
Mesmo mudo, grito em plenos pulmões!
Mesmo surdo, ouço esse meu berro,
na minha voz que já não ordenas!
Cala-te! Já não me és o que já te fui.
Não preciso do teu perdão, nem da tua empatia!
Sou grande, sou rei, sou vivo... como tu, sem mim!
Zéphyro 10-10-2015
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