quinta-feira, 17 de março de 2016

Já não me sei quando não te sou

Como uma borboleta que esvoaça sem sentido,
na crueza de um planalto inóspito,
sem flores nem ervas nem vida,
só vento e frio e chuva e solidão.

Sou eu longe de ti, longe de mim, longe de nós.
Sou eu que me rebusco e já não me sei,
apenas porque não te sou.

Um cão aturdido a correr em circulos,
no encalço da própria cauda fugidia,
sem esperança, sem fôlego e sem triunfo,
só estupidez e ânsia e cansaço.

Sou eu quando não me vejo, longe de ti, de mim, de nós,
que me esmiuço e descabelo sem me saber ser,
apenas porque não te sou.

A minha terra é em ti,
onde o eu e o tu se fundem,
num nós que é singular como duas bolachas,
unidas pelo recheio de creme que as faz uma.

Sou da terra onde tu estás,
sem distinguir onde começa o meu corpo
e onde acaba o teu, o nosso,
siameses que somos, pegados pela alma.

Um jazigo que ninguém mais visita,
onde não arde nenhuma chama de companhia,
onde ninguém chora uma ausência demorada
que nem defunto sei ser sem estar contigo.

Sou assim longe de ti, de mim, de nós,
quando me revolvo no solo frio
e não me sei porque não te sou.

Um farrapo de tecido desfraldado,
esvoaçando a meia haste,
uma bandeira de pátria que já não existe,
que só paira triste e consternada e mal amada.

O meu lugar é o chão que tu caminhas,
é a planta dos teus pés, marcada nas areias
brancas e quentes de uma praia só nossa,
de um paraíso longínquo onde ninguém nos sabe, só nós.

Já não me sei quando não te sou,
de tanto que te fui sem me ser eu.
De tanto que respirei o ar que tu respiras,
sedento como o amor que só tenho perto de ti.


Zéphyro 17-03-2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

As águas turvas do Douro

Tenho em mim as águas turvas do Douro
depois de uma semana de chuvas,
torrenciais e ininterruptas.

Nas estradas, pelas bermas,
desce o entulho e o lodo.
Dos montes e das serras,
escorrem as lamas, as pedras
e os restos de vegetação morta.

Tudo desagua no douro sujo,
castanho como o Zambeze,
que acolhe a morte que vem
invariável com o dilúvio.

Tenho em mim todo esse douro turvo,
lamaçal que corre ribombante
e bate descarado contra os diques,
contra as margens e barragens.

Do alto das serras,
mais parece uma estrada tortuosa,
palmilhando entre os sulcos das vinhas
e dando de beber à paisagem embriagada.

Em mim, como no Douro,
pousa tudo o que já se foi
e que a força do tempo oblitera
e arrasta para fora do leito de morte.

Corre em mim até que,
ao final de longos dias de borrasca,
assenta num qualquer confim do eu,
como sedimentos de terra perdida,
que hão-de ser despojados no mar
e fazer sal das suas águas frias.


Zéphyro  09-03-2016