domingo, 30 de novembro de 2014

Céu no céu da tua boca

Seguras-me.
De joelhos na madeira fria
do chão pontuado a velas
que ardem e inebriam.
Morangos e incensos
e baunilhas e canelas.
Seguras-me.
Mostras-me a língua
e provocas-me sabendo
o quanto espero o calor
que tens à minha espera
no interior do teu sorriso.
Apertas-me.
Percorres-me.
E o Otis na aparelhagem
de braços doridos e estendidos
para nos segurar num só aperto.
Apertas-me sorrindo.
E a tua nuca ondulante
reflectida no espelho de tecto
iluminado pelo lusco fusco
das estrelas acesas no soalho.
Lá fora o céu.
E eu preso no céu da tua boca
entre suspiros, almejando liberdade
e desejando libertar-me em ti.
Olhas-me para dentro.
E os sons do teu beijo
misturam-se aos acordes da música
que já não oiço,
por ser só seiva, só saliva.
Letra que já não conheço
por ser só respiração e olhos presos
como o gutural grito
que se esconde no meu peito.
Consomes-me.
De olhos gratos em mim,
que agarras ainda,
de dedos e mãos húmidas 
como a noite que se corre lá fora.

Zéphyro  30-11-2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Analepse

Vejo, mal entreabres a porta do quarto,
a tua silhuete baixa,
desenhada no vazio iluminado
do hall de entrada.
Nem estico os braços do berço
pois sei que vens pegar-me.
Estás tão bonita,
mesmo no escuro.
Tão novinha ainda
e já a braços comigo.
Lá vens tu, apressada,
mas nunca falhas.
Oito braços como um polvo
e um colo sempre tão quente.
Cheiras tão bem.
Gostava de poder dizer-to,
mas por ora, apenas penso
nas tangerinas na ponta dos teus dedos.
...
Vejo que me olhas,
enquanto entro generoso
no quarto branco derradeiro.
Vês a minha silhueta,
desenhada no meado de tarde
que ilumina o corredor das mil janelas.
Poiso a minha mão no teu peito
outrora meu pão que me fez homem.
No teu peito imenso agora intermitente
e fundo como o teu olhar no meu.
Estás tão bonita.
Consigo vê-lo através da parafernália.
Através das máscaras, dos lençóis,
das agulhas e das máquinas que apitam.
Tenho saudades porém
das tangerinas das tuas mãos
poisadas agora no colo
que já foi meu e já foi mais quente.
Já sei falar agora.
E é tudo o que faço,
sem dizer contudo,
o que há para ser dito.
...
Sinto que me olhas...
e esperas que me volte
e arranque da tua boca
uma frase que há de ser última.
Vês a minha silhueta interrompida
pela porta de molas que se fechou.
Esperas ainda, talvez uns minutos mais.
Mas sei que sabes que espero ver-te amanhã.
Eu vou ver-te amanhã.
Imagino que vires a cabeça
para o lado no travesseiro
e feches os olhos profundos,
como os movimentos do teu colo
sedento do ar que escasseia.

Zéphyro 28-11-2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cabelos desgrenhados e cornucópias

Adoro quando vens menina.
De vestidinho singelo
e cornucópias no cabelo
atadas por fitas enlaçadas,
debruadas a frutos e purpurinas.
Adoro quando és formosa
e a tua vida é, toda ela,
uma enorme brincadeira
numa roda em cantilena:
"Mete, mete. Tira, tira..."
E só o elástico
te atrapalha os passos.
Às vezes, vens velhaca.
Montada na tua vassoura suja,
como os farrapos que trazes no corpo.
Nos cabelos desgrenhados,
só já há essa rede grisalha
e nada de arabescos ou caleidoscópios
na tua boca vazia de alvura.
Apenas uma enorme roda,
em redor de uma fogueira,
sem cantilena para cantar.
Nesses dias, trazes em ti
todo o negro da minha alma.
Contagiosa como um bocejo
e nefasta como caspa de pêlo de gato.
Quando és bruxa,
todo o chão é areia movediça
e a sombra dos teus cabelos
eriçados nas paredes do quarto.
Adoro quando vens leve
e menina dos meus olhos.
Só vénias e vassalagem,
sem penas ou camuflagem.
Só dentes e sardas no nariz,
sem verrugas nem joanetes.

Zéphyro  24-11-2014

sábado, 15 de novembro de 2014

Menina da franja

Menina da franja
que não passas, está cá
e és eu e os sonhos
que eu tenho para ti.
Menina meiga saltitante,
dona das brancas
da minha cabeça que estacou
e cresceu para te criar.
Menina da franja,
de sonhos rosa
como o laço que te enfeita
a moldura do rosto,
que já foi meu em pequenino.
Vivo através das tuas conquistas
e falhanços que são meus,
por não saber guiar-te por vezes,
mas nem eu ainda aprendi
todos os trilhos do nosso caminho.
Menina matraca, não sabes parar,
por medo talvez, da tua cabeça
no silêncio dos pensamentos.
Ou então sou eu,
a colocar-me no teu encéfalo
por que o quero para mim.
Menina da franja, tão linda,
tão pura como a água em que fervo
por temer que não sejas ninguém.


Zéphyro  15-11-2014

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Noite santa, noite calada

As fitas e as bolas
e as séries psicadélicas
de luzes coloridas,
já tinhas tu penduradas
no pinheiro de ramos falsos.
Mas o natal, não chegou a chegar.
Os presentes embrulhados
em lustro e fitas magenta
mas ninguém para os abrir,
que o natal não apareceu
e por isso ninguém mais veio.
Erva seca do jardim
e musgos verdes arrancados
das paredes ensombradas do casebre.
Fiel imagem da manjedoura,
mas o menino, não veio deitar-se nas palhas
que a virgem não deu à luz
e acabou-se a monarquia.
À falta de melhor,
o cavalo da barbie
enfiado no estábulo
a fazer a vez de burro,
mas ninguém para aquecer
com o bafo dos animais.
Veio o dia sem romaria
e tu especada tão triste
sem orações para ler à mesa,
que já nem família tens
para partilhar a consoada.
Não há cânticos de natal
sem crianças para os cantar
alegremente de porta em porta,
agasalhados por cachecóis.
Só os velhos não chegam.
Já nem úteis são
se não há agasalhos para tecer.
Tudo pronto menos tu
e o natal que se acabou,
de pé contigo à mesa,
de velas apagadas e azevinhos.

Zéphyro  14-11-2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Malhados e tresmalhados

Somos todos um rebanho!
Imenso e desgovernado
roendo relvas alienadas
no cimo de um planalto.
O pastor partiu para longe
e não lhe pomos vista em cima
desde o frio do inverno passado.
Só cá ficou o cajado, pousado no chão
sem firmeza para guiar
ou vergastar as costas daqueles que,
fogem de entre nós,
com destino a prados mais além.
Somos todos um rebanho!
Ainda que nascidos em clãs distantes,
sempre nos encontramos e marramos
nos mesmos locais verdejantes
e nas cabeças uns dos outros.
O nosso pai desistiu de nós,
cansado de barafustar
e de electrificar as cercas.
Dele, só restou o boné coçado,
abandonado na pedra fria
onde sempre se sentava.
Somos todos um manto branco!
Polvilhado, sem padrão definido,
por pontos negros e descabelados.
Já se foi a mão que nos tosquiava a pele
que já não aquece a nossa lã
e só nos querem os embaraços.
Só se quedou no chão a corda
com que nos amarravam as patas,
que sempre foi sugestivo o grupo
que nos berra á solta na pradaria.
Somos todos um rebanho
nicado sozinho nos ervados
com o dono em parte incerta.

Zéphyro  13-11-2014

Dissertação sobre o âmago do poeta

Longe vão os tempos dos trovadores e heróis românticos. Nos dias de hoje, ninguém tem fibra suficiente para dedicar toda uma vida de palavras a uma só musa.
Que seria feito da credibilidade de um marmanjão que passasse os dias a ver uma qualquer Leonor, a caminhar descalça para a fonte? Alguém levaria a sério as palavras de tão consternada alma, sempre de olhos fitos no mesmo horizonte?
Actualmente, o mundo é global! Uma imensa horta, de onde brotam os mais variados legumes e vegetais. Actualmente, o poeta é global! Uma vasta alma onde cabe de tudo um pouco. Até adubo para a terra nova.
Malogrado é o tempo dos sonetos e da Florbela, que passou a vida debatendo-se com um amor proibido. O maior que os homens da vida corrente, já quase sempre é filho único, sem irmãos para desejar às escondidas e demasiado afastado dos demais para encetar qualquer tabu. Abre asas e afia garras sem voar, que vive com dor e jamais ama perdidamente.
Os românticos dos tempos torpes, nada tinham senão a pena e o papel mata-borrão... isso e o que viam pela janela dos quartos alugados. O fingedor do novo século, madruga em casa própria... e dorme cedo, que amanhã é dia de trabalho e o autocarro sai sempre a horas.
Já não há penas e rosários nem orgulho lusitano. Já não há sonhos que comandem vidas, apenas pesadelos que as destroem e os fogos, já só ardem á vista de toda a gente. Sejam eles de amor ou de verão. Que saudades das bolas nas mãos da criançada… já furadas e arrumadas num recanto escuro da garagem. A petizada não sonha já e o mundo não pára de avançar em direcção a todos os abismos.
Onde está, então, o sentido do poeta actual? Onde está o âmago da questão com que se debate?
Está nas ruas, povoadas de carros que sujam! Está no governo, liderado por passos de coelho, avançando a passos de caracol! Está na música, que agora aprendemos sozinhos no conforto do nosso sofá. Longe de flautas e cordas de violino.
O poeta é a nova filosofia. O poeta é a sombra da nova dúvida e o levantar do véu para a inequívoca certeza. Poesia?! É causa social e trabalho voluntário. É uma tigela de sopa quente entre as mãos de uma mulher velha e feia, que dorme na lombada do meu épico Portugal. É um número de palhaço, longe do circo e dos balancés no alto das tendas… perto da morte e da doença infantil.
Em última instância, reinventou-se o estímulo, redesenhou-se a inspiração e clonou-se aqui e além as musas. Os trovadores apenas acarinhavam o próprio sofrimento. Os modernos cantadores abraçam as dores de todos os que passam.


Zéphyro  13-11-2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Que viva o Sr. Padre!

A igreja, é o novo futebol.
Cada vez mais sócios
para ver ao vivo as vedetas
que mantêm aceso o lume da fé.
As putas, são libertinas
mas as beatas usam algemas
e prendem sacerdotes
aos móveis bolorentos da sacristia.
Os gatunos não têm alma,
mas os santinhos, providenciam,
uma ou duas para quem passeia
na nave da igreja, fazendo tilintar
moedas em todas as caixas.
A de S. Pedro está cheia.
Talvez por ficar mais próximo
do confessionário sempre cheio de contrição.
As putas são serpentes
mas as beatas têm dentes
que se ferram nas pernas do novo homem
que só veio para a eucaristia.
É um primor vê-los bradar
pelo nome do que se foi
e lhes mentiu ás criancinhas.
É um amor vê-los vergar
as costas á diocese
por eleger o sangue jovem.
Que viva o Sr. Padre
que é o pai que não tivemos.
Que viva o Sr. Padre
que é o deus que nunca vemos.
As putas estão abertas ao mundo
mas as beatas, fecham os olhos à vida.
A igreja, é o novo futebol.
Os peregrinos?
Só já querem gritar golo
e venha a liga dos campeões.

Zéphyro  12-11-2014

Une os pontos...

Um comboio apinhado,
em montes de ferro empilhado
na base daquela ravina.
Une os pontos...
Tantas vidas ceifadas,
outras tantas sentadas
em cadeiras altivas.
Une os pontos...
Um lamento de fome
na boca de quem não come
como a gente das cadeiras.
Une! Une os pontos...
Um languido vê se te avias
até ao cimo das escadarias
onde nos guardam judeus a riqueza.
É só unir os pontos...
Um quadro a óleo borratado
e o pintor já esborrachado
contra a parede da opressão.
Une os pontos..
Que vês? Ainda incompleto o desenho?
Um avião arremessado
de asas abertas num descampado
e as pessoas são carvão.
Já os uniste?
qual é então o resultado
ou não tem significado
o borrão que obténs?
Porque estão tantos parados
e os outros é só pecados
porque o perdão custa barato?
Une os pontos...
Pagas com velas a tua bula
outros lambuzam-se na sua gula
brilhantes como chão encerado.
A cabeça sem cabelo
onde enfias um gorro em pêlo
que coçar não é solução.
Tanta cabeça bem tratada
entre aquela salgalhada
que paga pela cabeleira.
Une os pontos e vais ver
que muito há ainda a fazer
se queres terminar o desenho.

Zéphyro  12-11-2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Preço de revenda

Na europa vendemos de tudo.
Há quem venda os princípios,
quem venda as suas crenças,
quem ponha a mãe em saldo
e quem promova dívida pública
no derradeiro conto do vigário.
Somos consumistas exasperados
e até esterco alheio compramos
se houver quem o queira vender.
Em montras vermelhas, mais a norte,
espraiam-se catraias de aluguer
e carne em formato tubular
dentro de um pão esguio,
anda de carripana em carripana
servindo-se com um ou com todos os molhos.
O oriente já não vende tanto...
Apenas uns quantos espiões informáticos,
a mais suja comida de rua,
carregada a empurrão em precárias carrelas,
outros tantos passeios de riquexó
e um sem número de fantasias
que já não temos coragem para importar.
Melhor, só lá para as américas
onde se vende para fora
o que não se quer lá dentro.
O negócio é acérrimo
e o preço da guerra está cada vez mais alto.
Ouvi até, que já a compram a prestações,
como os smartphones,
com taxa de juro altíssima
a pagar por quem não padecer
com o que sobrar dos destroços
que já foram casas espatifadas por bombas.
Os do novo continente sim, são espertos,
passando de mão em mão a ignorância
até que se livram dela
que partiu para a europa
à boleia do audiovisual
que há muito perdeu o áudio.
Vigarizam-nos com os seus feriados,
com os seus heróis que nem conhecemos
mas que idolatramos com igual fervor
enquanto talhamos uma abóbora
para pendurar á janela de casa.
Doçura ou travessura?
Somos tão doces nós os europeus
que criamos o mundo à nossa imagem
só para o podermos comprar mais tarde,
a preço de revenda.
Pobres velhinhos do mundo
com as despensas cheias de tralha...
e rosários que não são nossos.

Zéphyro  11-11-2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Silhueta de giz

Os Teixeiras sempre foram bons vizinhos.
Berro para cá, grito para lá,
mas qualquer família ralha
nos prédios já acesos cá da rua.
Porém, os Teixeiras, andavam sempre juntos
e até levavam o cão a passear
antes de se amanharem uns aos outros
à facada no peito e nas costas
e onde mais calhar, no meio da correria.
Numa noite da semana passada,
um bradar de dor nas carnes
irrompeu no silêncio da rotina
e interrompeu o sotaque da novela
que os Teixeiras sempre assistiam
sentados no sofá, depois de jantar.
Nessa noite sofá vazio,
que discutiram todo o telejornal
de perfumes da mãe Teixeira
e ciúmes do pai, com horas a sobrar
para planear tornar-se homem.
De amigos da mãe Teixeira
que a visitam ao domingo
carregados de loção de barba
que espalhavam no corredor.
Até o filho que está para a tropa
ou marinha ou lá o que é,
veio de fim de semana em braços
para participar na garraiada
e atestar a inutilidade do desempregado.
Os Teixeiras sempre foram boa gente.
Nada fazia prever que de ontem para hoje
enchessem o prédio de inspectores
daqueles que, antigamente,
sempre traziam um pau de giz no bolso
para qualquer eventualidade.
Os Teixeira sempre foram pessoas calmas,
fora os desabafos misturados
com os fritos do conduto
e o cheiro a cão molhado
que o feroz carrega preso nas patas,
sempre que a dona o traz do jardim.
Nada fazia adivinhar, que uma faca de peixeiro
cravada aqui e além, nas costas e no pescoço
pudesse ter aguardado escondida,
no refúgio da gaveta dos talheres.
Nunca tal se imaginou na vizinhança
que nesta manhã de sábado,
ao contrário de outra qualquer,
não cheiraria a ambientador
no portal do segundo andar.
Os tacões não entoariam na escadaria
já atrasados para o balcão da loja,
eram boa gente os Teixeiras...
Agora têm tábuas,
agora têm grades
e o filho deixou a tropa
para abraçar a silhueta da mãe
desenhada a giz no chão do alpendre.


Zéphyro  10-11-2014

sábado, 8 de novembro de 2014

Assim vai...

Alguém deixou por terra a democracia.
Quem foi que a vilipendiou
e esfaqueou pelas costas?
À laia da força bruta,
o sangue agora brota,
e pinta de sangue a brita
de um descampado qualquer.
Alguém omisso nas sombras da noite
sequestrou a igualdade.
Quem foi que a trancou
no mofo de uma cave
e deitou a chave ao mar?
À custa de quem é pobre,
fez-se uma verdade podre,
não para quem quer, mas para quem pode
ser dono de um buraco qualquer.
Alguém soprou de longe,
uma seta de zarabatana
que atingiu no coração a paz.
Quem foi que a soprou,
do seu moderno pau de fumo
e a deixou assim infame?
À pala de um mercenário
cansado de ser marceneiro
e de viver á mercê
de um general qualquer.
Assim vai...

Zéphyro  08-11-2014

Ornato Negro

Qualquer foto fica bem
se pendurada numa moldura.
Mesmo as desfocadas,
que até ficam mais ilustres.
Quando for grande,
quero ser moldura também
e tornar tudo mais bonito.
Ele chegou e disse:
" A razão de ser de um poeta é..."
Quando for grande,
quero ser também poema
e não ter razão de ser.
Todas as paisagens são belas
se vistas do lado seco
de uma janela de guilhotina.
Mesmo o dia mais cinzento,
que até chama mais romance.
Quando crescer,
hei-de ser uma janela
e o mundo será belo
através das minhas portadas abertas.
E ele implorou dizendo:
" Diz sem querer poupar meu corpo,
eu já não sei quem te abraçou..."
Quando me vir ao espelho,
quero ser abraço
e jamais poupar corpo algum.
"... diz que eu não senti teu corpo
sobre o meu."
E quero ser corpo também,
sob um alguém mais quente,
que o calor cai sempre bem.
Todas as fotos ficam belas
penduradas no ornato negro.
Mesmo as coloridas
que o negro vai bem com tudo.

Zéphyro  08-11-2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Entre lã e arame farpado

Andava ao alto uma pastora,
pastoreando o seu rebanho
e eu desdobrado em tarefas.
Entre uma ovelha mais aos saltos
no magote da bicharada
e o arame farpado das cercas,
velho e enferrujado que, nunca ouvi,
que tivesse feito bem a alguém.
Limita e pronto. E aleija que se farta.
Andava ao largo uma barcarola,
aproveitando a bonança
e eu dividido entre marés.
De tempos a tempos encrespada,
lambendo os passeios marginais
com a raiva de um castigo
e, nos intervalos desses tempos,
lisa e convidativa como um leito,
de luxúria e lençóis de seda.
A lã dos bichos aquece nos invernos,
mas o arame pica e rasga a pele.
Espeta-se na gente e estraga-nos a roupa.
Navegar liberta a alma,
que português que é português
sabe ser feliz no mar.
Mas as ondas cansam os olhos
e, quando vem a tempestade,
tememos sempre pela vida.
Andava ao alto uma pastorinha,
que não sabia que era pastorinha,
para ter em mãos tão puras,
o encargo de um rebanho.
E eu, perdido entre peles,
quase sempre ovelha negra.


Zéphyro  07-11-2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Círios e lírios

Círios e lírios,
levas a correr, enrolados
debaixo dos braços negros
do fato de domingo.
A caixa de fósforos,
chocalha no bolso do casaco
que a família espera já,
ás portas do túmulo da avó.
Quase uma feira para trás,
sem carrosséis, que o respeito,
cinge a festa às roulottes
e às flores e velas de cera
que arderam já em anos passados.
Quase uma feira à frente,
de tios e primos
e futebóis da noite passada.
Sem risadas, que o respeito,
cinge o convívio aos cigarros
e ás conversas sussurradas
que tanto puxam uma cerveja.
Círios e lírios
e já castanha no assador
que horas de pé a velar
merecem um abraço do outono
à saída escura das horas.
Círios e lírios
e o tio Zé da Nanda,
que já não vias há tanto tempo
que Penacova ainda é longe.
O céu já ameaça chuva
se bem que está claro ainda.
Sais em vénias e acenos
sem palmadas nas costas, que o respeito,
cinge o conforto aos pés apoiados nas cruzes
e às crianças sentadas,
na parte já limpa e enfeitada das campas.
Círios e lírios para trás
e até para o ano,
que já sais em busca de uma bifana.

Zéphyro 02-11-2014

Virtude a despeito

Há braços que são fortes.
Que nasceram para a peleia
e para pesos sobre-humanos.
Esses, nunca são amputados,
que a maior parte da virtude
é ausência de defeito.
E há ventres abençoados,
nascidos para parir
rebentos uns atrás dos outros.
Como frutos fora de época
crescidos no cativeiro da estufa,
Sempre lustrosos e sem sabor.
Ventres férteis, nunca secam
ou alimentam cancros,
que o grosso da virtude
está em não se ter defeito.
E os líderes?
Porque nunca se curvam os líderes?
Como as costas dos velhos,
que não deixam de ser sábios
mas não sabem manter hirta
a dignidade esbatida pelos anos.
Ombros sem orgulho esmorecem cedo,
que oitenta por cento da erecção
é ausência de desventura
e um mundo de confiança.
Os donos das leis,
nunca são parvos e se vergam a elas.
Os donos da bola,
nunca se cansam em corridas tolas
que a virtude não transpira.
Há corpos nascidos para posar,
sem verrugas ou gravidade do tempo,
sem pêlo a mais ou cabelo a menos.
Os corpos das musas, são sempre esbeltos
que o eterno da beleza,
está no prolongar da juventude.

Zéphyro 03-11-2014