terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cabelos desgrenhados e cornucópias

Adoro quando vens menina.
De vestidinho singelo
e cornucópias no cabelo
atadas por fitas enlaçadas,
debruadas a frutos e purpurinas.
Adoro quando és formosa
e a tua vida é, toda ela,
uma enorme brincadeira
numa roda em cantilena:
"Mete, mete. Tira, tira..."
E só o elástico
te atrapalha os passos.
Às vezes, vens velhaca.
Montada na tua vassoura suja,
como os farrapos que trazes no corpo.
Nos cabelos desgrenhados,
só já há essa rede grisalha
e nada de arabescos ou caleidoscópios
na tua boca vazia de alvura.
Apenas uma enorme roda,
em redor de uma fogueira,
sem cantilena para cantar.
Nesses dias, trazes em ti
todo o negro da minha alma.
Contagiosa como um bocejo
e nefasta como caspa de pêlo de gato.
Quando és bruxa,
todo o chão é areia movediça
e a sombra dos teus cabelos
eriçados nas paredes do quarto.
Adoro quando vens leve
e menina dos meus olhos.
Só vénias e vassalagem,
sem penas ou camuflagem.
Só dentes e sardas no nariz,
sem verrugas nem joanetes.

Zéphyro  24-11-2014

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