segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Minha filha, minha vida, meu eu mais que perfeito...

É verdade! És pequena, mas já foste mais
e só mesmo nós, cegos por sermos teus pais
é que não notamos que na realidade já cresceste tanto...
Já estás quase uma mulher,
tens muito a aprender, mas para o que der e vier,
vamos sempre levar-te pela mão, como te levamos ao "Encanto".

Basta-me fechar os olhos, quando estou infeliz
e ainda te sinto no meu colo e ainda me sinto no céu.
Pois o tempo, não levou o teu perfume do meu nariz
e continua o teu coração, a bater dentro do meu.

É verdade! Cresceste. E contigo cresceu o meu amor.
E na verdade, não posso amar-te mais, mas vou amar-te melhor
que também eu tenho ainda coisas para aprender.
Tantas como as que tenho a ensinar-te...
Como é bela a vida e como viver é uma arte
e como é um milagre a cada dia que o sol nascer.

Quero mostrar-te como guiar o mundo com os teus dedos.
E quero aprender a ser a tua coragem.
E vou ser eu, a enfrentar todos os teus medos
e serei eu a tropeçar nos obstáculos da viagem.

É verdade... quero mostrar-te todas as estrelas do universo.
Quero dedicar-te a minha alma, em prosa e em verso
e falar-te de como são ínfimos os deuses ao pé de ti.
E vou mostrar-te que ninguém realmente te merece,
pois além de deus, és também todas as preces
todas os filmes e toda a música, do dó até ao si.

E quero que saibas filha e que nunca duvides disso
que estás em mim e és eu e me tornas melhor desse jeito.
Que no meio de luz e sombra, entre paz e rebuliço,
é o facto de ser teu pai, que faz de mim homem perfeito.

Fizeste tu com que eu respeitasse a vida.
E fizeste tu com que em cada beco eu visse sempre uma saída
e deste-me motivos para acreditar na bondade.
Por isso, ainda que sim, veja que cresceste,
serás sempre a minha menina e tudo aquilo que me deste
e serás sempre o meu amor, porque amor não tem idade.

Milha filha, minha vida...
Meu eu mais que perfeito.
És tudo para mim, a minha alma florida
e toda a beleza que trago no meu negro peito.


Zéphyro 15-10-2018

Prometo

Prometo que vou ser o melhor marido
e que vou ser o melhor pai.
Prometo jurar-te amor, todos os dias ao ouvido
e guardar num pranto contido todos os meus ais.

Prometo, vou ser um homem ponderado.
E prometo ser maduro, pragmático e poupado
e ajudar-te em todas as lides domésticas.
E juro, vou trabalhar o autodomínio
e passar a ir às reuniões de condomínio
e a fazer delas mais poéticas.

Prometo levar-te mais vezes a passear
e prometo acompanhar-te sempre ao mercado.
Prometo colocar as compras nos sacos e pagar
e carrega-las até à bagageira do carro estacionado.

Prometo vou ser o teu orgulho
assim que me livre do entulho
que ocupa esta minha cabeça.
E juro, vou levar-te a dançar em festas
e a outras cerimónias como essas
e ao que quer de bom que aconteça.

Prometo defender sempre a tua honra
e duelar-me em mil batalhas pelo teu nome.
E prometo acompanhar-te, como se fosse a tua sombra
e zelar por ti depois de morto, enquanto a terra me come.

Prometo ser tudo o que queres que eu seja.
E como os poetas, prometo morder-te como quem beija
e que chorarão por ti os meus olhos como se fosses o alecrim.
E esperar, só espero que me ames aos molhos
e que me digas o que me dizem os teus olhos,
e o que tens para me prometer a mim.


Zéphyro  15-10-2018

sábado, 13 de outubro de 2018

Raízes

Sou fruto de uma noite apaixonada entre vida e morte,
da aliança temporária entre o azar e a sorte.
O resultado do embate do tudo contra o nada.
Sou a fusão do anjo com o demónio,
uma corrida renhida entre o tédio e o pandemónio.
Sou uma benção que nasceu amaldiçoada.

As minhas raízes não me prendem à terra
e nem dela me alimento como suposto.
Pertenço à paz, mas nasci para a guerra
e rio à gargalhada engolindo as lágrimas do meu rosto.

Sou o choque entre duas supernovas,
a vida eterna, vivida com os pés para a cova,
o dono de céu e do inferno que não passa do purgatório.
Sou filho do poema e da trova,
o melhor aluno da classe, que sempre reprova.
O que fala pelos cotovelos, sem dotes de oratória.

As minhas raízes crescem para cima.
Na direcção do cosmos de onde vim,
caído de um cometa, que caiu ao virar da esquina
e me fez voar alado nas asas de um querubim.

Sou fruto de um caso entre o sol e a lua,
um menino em berço de ouro, que prefere o chão da rua
e as pedras sujas da calçada ao brilho do diamante.
Nasci de trás para a frente como uma capicua,
como um rio que corre para nascer e nunca desagua
e se limita a galgar o leito para montante.

As minhas raízes não atracam em lado algum,
não sucumbem ao cansaço, nem padecem de fome.
Vagueiam em direcção ao infinito, alheias ao jejum,
desprezando o passado lá atrás e o presente que o consome.

Sou fruto do abraço entre luz e breu,
um regaço sem abraço, uma vitória sem apogeu.
A consequência da incerteza e o resultado da razão.
Sou filho das flores que falharam a primavera
e dos amores que se ficaram pela quimera,
queimados pelos raios abrasadores do sol de verão.

As minhas raízes nem miseráveis nem felizes,
estão espalhadas e pintalgadas pelo universo.
Fugiram das ruas, das brincadeiras dos petizes
em busca de todas as medalhas e de todos os seus reversos.


Zéphyro  11/10/2018