Em todo o lado vejo poesia,
que mania...
Vejo-a nos corpos espalhados
ao longo da encosta chamuscada
de uma montanha destroçada,
nos pedaços perdidos de fuselagem fumegante
e no laranja choque das caixas negras.
Cheiro-a no podre dos dejectos
que alicerçam os nossos lares,
sempre tão atrasados para tudo
e sem tempo para nada
e no acre dos mijos
onde nos banhamos enclausurados
na nossa própria ignorância.
Em todo o lado vejo poesia,
que maldição...
Rimo na minha cabeça
Israel com Palestina
e é um soneto novo por cada velha guerra.
É metáfora quando pais violam filhos
e quando ricos roubam pobres
e quando governantes desgovernam.
É romance puro
cada um dos gritos de dor
das almas que sofrem todos os dias
em todo o lado por onde eu ande.
Ande eu longe ou perto de mim mesmo
há sempre alguém que chora a cada esquina,
sempre alguma criança perdida para sempre
para as garras do abandono e da penúria.
Em todo o lado vejo poesia,
que chaga...
Faço odes aos amores desencontrados
na amargura da traição da carne
e aos velhos que morrem sozinhos
em aldeias do interior
e que sozinhos permanecem até que o cheiro
da decomposição chegue ao luxo da cidade.
Ou será ao lixo da cidade?
Poesia em todo o lado,
que mania...
Até nos olhos negros das meninas indianas
que não chegam a existir, apenas pertencem
e nos braços magros da fome africana,
pintalgada de moscas e de papos cheios de ar.
Sempre o raio da poesia,
que tormento...
Zéphyro 27-03-2015
sexta-feira, 27 de março de 2015
sábado, 21 de março de 2015
Que saudade das maçarocas de milho
A avó gostava de sentar-se bem ali,
naquele recanto do terraço,
debaixo do umbral da garagem.
Ainda a consigo ver claramente...
De chapéu na cabeça, que a medo
a mãe lhe põe para proteger do sol.
A avó, veste sempre bata florida
e adora passar horas a dedilhar
maçaroca fora os pequenos bagos de milho.
Pequenos como os filhos que teve, muitos.
Pequenos como aqueles filhos que perdeu
para linhas malfadadas e garrafas de vinho barato.
Ao seu lado, um imenso saco de sarapilheira
vermelho e já esburacado pelas maçarocas pontiagudas.
À sua frente, uma bacia de plástico
que se vai enchendo de grãos
e sonhos que olha no espaço vazio em frente.
Às vezes, a avó cochicha qualquer coisa
enquanto se entretém com o milho.
Uma qualquer espécie de reza
a um qualquer santo longínquo
a quem rezam todas as velhotas.
Quando a avó reza, eu gosto de dormir
ao seu lado, embalada pelo suave bichanar
da sua voz enrouquecida pelo tempo.
O colo da avó é pequeno, mas é tão generoso
que parece albergar todos sonhos,
todos os refúgios do mundo.
Quantos filhos e netos
e sobrinhos e bisnetos,
albergou aquele colo sempre tão pronto.
Nem a dureza da vida vivida,
do trabalho e do peso nas costas
lhe enrijeceu o abraço, sempre tão terno.
Oxalá a mãe fique como a avó, um dia.
E vista sempre bata florida,
por cima do luto deixado pela vida.
Oxalá a mãe aprenda as rezas certas
e permita que durma no seu colo,
eu e os filhos que hei-de ter.
Pena que já não tenha o tio o terreno,
de onde vinham as maçarocas
que enchiam de sonhos as tardes de verão.
Mas prometo vasculhar tudo
e trazer uns quantos sacos, iguaizinhos
aos de antigamente e dedilharemos juntos
para relembrar o passado e os amores que lá ficaram.
A avó, amava sempre muito a toda a gente.
Zéphyro 21-03-2015
naquele recanto do terraço,
debaixo do umbral da garagem.
Ainda a consigo ver claramente...
De chapéu na cabeça, que a medo
a mãe lhe põe para proteger do sol.
A avó, veste sempre bata florida
e adora passar horas a dedilhar
maçaroca fora os pequenos bagos de milho.
Pequenos como os filhos que teve, muitos.
Pequenos como aqueles filhos que perdeu
para linhas malfadadas e garrafas de vinho barato.
Ao seu lado, um imenso saco de sarapilheira
vermelho e já esburacado pelas maçarocas pontiagudas.
À sua frente, uma bacia de plástico
que se vai enchendo de grãos
e sonhos que olha no espaço vazio em frente.
Às vezes, a avó cochicha qualquer coisa
enquanto se entretém com o milho.
Uma qualquer espécie de reza
a um qualquer santo longínquo
a quem rezam todas as velhotas.
Quando a avó reza, eu gosto de dormir
ao seu lado, embalada pelo suave bichanar
da sua voz enrouquecida pelo tempo.
O colo da avó é pequeno, mas é tão generoso
que parece albergar todos sonhos,
todos os refúgios do mundo.
Quantos filhos e netos
e sobrinhos e bisnetos,
albergou aquele colo sempre tão pronto.
Nem a dureza da vida vivida,
do trabalho e do peso nas costas
lhe enrijeceu o abraço, sempre tão terno.
Oxalá a mãe fique como a avó, um dia.
E vista sempre bata florida,
por cima do luto deixado pela vida.
Oxalá a mãe aprenda as rezas certas
e permita que durma no seu colo,
eu e os filhos que hei-de ter.
Pena que já não tenha o tio o terreno,
de onde vinham as maçarocas
que enchiam de sonhos as tardes de verão.
Mas prometo vasculhar tudo
e trazer uns quantos sacos, iguaizinhos
aos de antigamente e dedilharemos juntos
para relembrar o passado e os amores que lá ficaram.
A avó, amava sempre muito a toda a gente.
Zéphyro 21-03-2015
terça-feira, 17 de março de 2015
O homem que veio do sul
E eis que um homem veio do sul,
ainda catraio mal calçado,
para ocupar uma casita
nos baldios a sul do tejo.
Corria as ruas de calção reguila
roubava a fruta e fisgava gatos,
enquanto se lhe escoava o sangue da vista.
Ao homem que veio do sul, faltou-lhe a mãe
quando mais precisou dela
e faltou-lhe o pai, por sentir a falta dela.
Faltou-lhe tudo e um tudo nada
para que nada lhe faltasse.
O amor deram-lhe as tias
e uma avó mais lá para norte,
a semi orfandade fez dele verdade
e deu-lhe toda uma vontade
de não necessitar de mais ninguém.
E eis o homem que veio do sul,
a descer do céu escuro por magia
acompanhado a meio fundo
por um avião escondido na noite.
Eis que cai de pé, com rolamento à frente
e sai ileso, cada vez mais alto,
cada vez mais esperto e até já dobra
o seu próprio paraquedas.
O catraio fez-se um homem e que bem
há-de ter-lhe ficado a farda.
Depois correu e cheirou a vida
em cada esquina como um cão perdido,
em busca de novo lar.
Correu e nunca dormiu
bebeu firme e hirto
que as árvores morrem de pé.
E eis o homem que veio do sul,
todo cordas e correntes
porque a neve escorrega que se farta.
Lá para os cantões helvéticos
de manga arregaçada a pegar no boi
pelos cornos, como se faz no seu baldio
ribatejano a sul do tejo.
Ei-lo de bem com a vida
que não deixa nunca para trás das costas.
Ei-lo fiel escudeiro da beldade das herdeiras
e da honra da sua musa
a quem jamais faltará.
Até porque as boas tias e avós nortenhas,
já escasseiam nos dias de hoje
e à falta de árvores de fruto
quem iria matar-lhes a fome?
Zéphyro 17-03-2015
ainda catraio mal calçado,
para ocupar uma casita
nos baldios a sul do tejo.
Corria as ruas de calção reguila
roubava a fruta e fisgava gatos,
enquanto se lhe escoava o sangue da vista.
Ao homem que veio do sul, faltou-lhe a mãe
quando mais precisou dela
e faltou-lhe o pai, por sentir a falta dela.
Faltou-lhe tudo e um tudo nada
para que nada lhe faltasse.
O amor deram-lhe as tias
e uma avó mais lá para norte,
a semi orfandade fez dele verdade
e deu-lhe toda uma vontade
de não necessitar de mais ninguém.
E eis o homem que veio do sul,
a descer do céu escuro por magia
acompanhado a meio fundo
por um avião escondido na noite.
Eis que cai de pé, com rolamento à frente
e sai ileso, cada vez mais alto,
cada vez mais esperto e até já dobra
o seu próprio paraquedas.
O catraio fez-se um homem e que bem
há-de ter-lhe ficado a farda.
Depois correu e cheirou a vida
em cada esquina como um cão perdido,
em busca de novo lar.
Correu e nunca dormiu
bebeu firme e hirto
que as árvores morrem de pé.
E eis o homem que veio do sul,
todo cordas e correntes
porque a neve escorrega que se farta.
Lá para os cantões helvéticos
de manga arregaçada a pegar no boi
pelos cornos, como se faz no seu baldio
ribatejano a sul do tejo.
Ei-lo de bem com a vida
que não deixa nunca para trás das costas.
Ei-lo fiel escudeiro da beldade das herdeiras
e da honra da sua musa
a quem jamais faltará.
Até porque as boas tias e avós nortenhas,
já escasseiam nos dias de hoje
e à falta de árvores de fruto
quem iria matar-lhes a fome?
Zéphyro 17-03-2015
sábado, 14 de março de 2015
Um esteio ainda pesa
O meu pai era um esteio
dentro da casa onde cresci.
Penduravam-se nele todas as heras,
toda a ramagem e todos os medos da vida.
Respondia ele a todas as perguntas,
rompia ele todos os silêncios
e falava mais alto que todos os outros,
mais grosso que todos nós, que adorávamos ouvi-lo.
O meu pai era um esteio, uma viga
em pedras e ferro e todos os outros materiais
duros e duráveis desta vida tão efémera.
Só o tempo o foi carcomendo em pedaços
pequenos como os de pão que atirávamos aos patos
nos domingos de manhã, quando íamos ao parque.
Só o tempo o foi vergando e dobrando,
fazendo-o abandonar-se à sorte
e ficar todo coberto da vegetação selvagem
que proliferou nele muito além da sua partida.
O meu pai, pesava como um esteio,
levei-o eu à última morada, ao ombro esquerdo.
Ainda tentei que fosse no direito,
mas o primo Alfredo podia menos que eu
e já sofria das costas na altura...
... ainda sofre hoje, acho.
Esse, nunca foi o esteio de ninguém,
a trave mestra de lar algum.
O meu pai porém até enterrado
suporta com hombridade o peso de toda a terra
que tem em cima do caixão de madeira africana.
Tratada com verniz de acabamento avermelhado
como os violinos antigos, de quando a música soava melhor.
O jazigo dele, foi o último a abater-se
no cemitério onde ocupa agora uma gaveta.
Que ironia... uma gaveta, para quem já foi um mundo.
Que tristeza... uma mera gaveta, onde os ossos
nem espaço têm para formar um corpo.
São só um monte de ossos
e em nada homenageiam o homem que já sustentaram
que sustentava toda uma família às costas.
Aquelas costas que são agora apenas
um punhado de vértebras soltas, espalhadas
entre joelhos e rádios e perónios.
O meu pai é um esteio, desmanchado pelas honras
que sempre acolheu de peito aberto.
Um esteio, como muitos outros esteios
meio cobertos pelas areias do passado,
caídos nos sulcos de uma berma qualquer.
Zéphyro 14-03-2015
dentro da casa onde cresci.
Penduravam-se nele todas as heras,
toda a ramagem e todos os medos da vida.
Respondia ele a todas as perguntas,
rompia ele todos os silêncios
e falava mais alto que todos os outros,
mais grosso que todos nós, que adorávamos ouvi-lo.
O meu pai era um esteio, uma viga
em pedras e ferro e todos os outros materiais
duros e duráveis desta vida tão efémera.
Só o tempo o foi carcomendo em pedaços
pequenos como os de pão que atirávamos aos patos
nos domingos de manhã, quando íamos ao parque.
Só o tempo o foi vergando e dobrando,
fazendo-o abandonar-se à sorte
e ficar todo coberto da vegetação selvagem
que proliferou nele muito além da sua partida.
O meu pai, pesava como um esteio,
levei-o eu à última morada, ao ombro esquerdo.
Ainda tentei que fosse no direito,
mas o primo Alfredo podia menos que eu
e já sofria das costas na altura...
... ainda sofre hoje, acho.
Esse, nunca foi o esteio de ninguém,
a trave mestra de lar algum.
O meu pai porém até enterrado
suporta com hombridade o peso de toda a terra
que tem em cima do caixão de madeira africana.
Tratada com verniz de acabamento avermelhado
como os violinos antigos, de quando a música soava melhor.
O jazigo dele, foi o último a abater-se
no cemitério onde ocupa agora uma gaveta.
Que ironia... uma gaveta, para quem já foi um mundo.
Que tristeza... uma mera gaveta, onde os ossos
nem espaço têm para formar um corpo.
São só um monte de ossos
e em nada homenageiam o homem que já sustentaram
que sustentava toda uma família às costas.
Aquelas costas que são agora apenas
um punhado de vértebras soltas, espalhadas
entre joelhos e rádios e perónios.
O meu pai é um esteio, desmanchado pelas honras
que sempre acolheu de peito aberto.
Um esteio, como muitos outros esteios
meio cobertos pelas areias do passado,
caídos nos sulcos de uma berma qualquer.
Zéphyro 14-03-2015
sexta-feira, 13 de março de 2015
Um cadafalso e uma praça cheia de gente
Daqui por dez minutos, já os meus pés penderão na penumbra do cadafalso, agitando o ar vazio e fresco onde dois ou três putos se refugiam para jogar ao berlinde.
Junta-se sempre tanta gente no rossio em manhãs de enforcamento que a criançada, maçada por passar tanta hora de pé, se esconde debaixo do púlpito da morte, onde voltarão para a actuação do conjunto de variedades, lá mais para a tardinha. Já antevejo a cena... os meus pés a estrebuchar e uma data de moscardos esverdeados em redor, que nem direito a higiene pessoal tive, na última noite de cárcere. Só espero que algum eventual mau cheiro não afugente a multidão pois iria detestar morrer sozinho.
Catrapum! Ao meu lado esquerdo, já se abriu o primeiro postigo. O meu companheiro já rebaixado, ainda treme e ainda corre urina pelas suas pernas em direcção à brincadeira dos petizes. Nem lhe ouvi um pio, nem lhe vi nos olhos arregalados o medo, cobertos estavam pela sarapilheira do barrete que lhe cega a cabeça.
O povo, aplaude e apupa dividido na sua opinião, consigo ouvi-los, mas já me embarretam a mim também, não devo tardar. Ainda sinto o cheiro a chouriço assado e vinho, da barraca à direita do fontanário. Escuto vozes vindas de lá, onde alguém vai petiscando enquanto vidas humanas são ceifadas como trigo. Ao longe, a fanfarra a ensaiar no coreto em voz baixa os hinos que marcam o final da agenda matinal, a tocar dentro de momentos.
Sinto a corda rude a ajustar-se no meu pescoço e a respiração do meu carrasco no alto da minha nuca. Parece algo nervoso, com certeza, não quer equivocar-se no nó e na medida do pescoço com toda a praça a assistir. Sinto-lhe as mão trémulas enquanto pelos dentes cerrados lhe sai um "desculpa, vai em paz". Oxalá, condoído, não me aperte em demasia. É deveras desconfortável esta corda, que me pica a pele da garganta e me dá comichão impossível de coçar com as mão seguras atrás das costas.
Gostava de, dentro de segundos, poder ver a minha vida passar-me, num instante, pelos olhos como um filme. Como sempre me garantia o Tio Casimiro que acontece a toda a gente que está lúcido ás portas da morte. Mas esta maldita urticária não me permite concentrar. Não existe concentração possível com as fibras a penetrar-me a pele desta forma.
Catrapum! E agora foi o meu postigo a sorver-me, não sem antes soltar um guincho típico de assassino em final de carreira que se entedia com os últimos suspiros de quem perde o chão debaixo dos pés. Os meus, sacudidos por intensos espasmos do meu corpo em busca de uma salvadora golfada de ar, pendem já no oco do cadafalso. Moscas como previ, mas muitas mais que sempre buscam o mijo e o nojo. Nem sinal dos putos, que já fogem daquele corpo malcheiroso, pendurado em vergonha e desventura no rossio da cidade.
Disseram-me em tempos que traí a minha pátria e vendi a um espanhol abastado a minha única filha, que me deu a minha mulher, levada nova pela cólera dos dias.
Fui considerado culpado de conspirar contra o estado e estender ao inimigo a mão de uma lusa cheia de graça. Mas já não me defendo que já cá não estou.
O rossio, já em debandada para o almoço, perde algum do seu encanto, nesta manhã de domingo. Já só dois carrascos de cara destapada e um pároco no centro da praça, ensacam e benzem os corpos rígidos entre os quais está o meu.
Junta-se sempre tanta gente no rossio em manhãs de enforcamento que a criançada, maçada por passar tanta hora de pé, se esconde debaixo do púlpito da morte, onde voltarão para a actuação do conjunto de variedades, lá mais para a tardinha. Já antevejo a cena... os meus pés a estrebuchar e uma data de moscardos esverdeados em redor, que nem direito a higiene pessoal tive, na última noite de cárcere. Só espero que algum eventual mau cheiro não afugente a multidão pois iria detestar morrer sozinho.
Catrapum! Ao meu lado esquerdo, já se abriu o primeiro postigo. O meu companheiro já rebaixado, ainda treme e ainda corre urina pelas suas pernas em direcção à brincadeira dos petizes. Nem lhe ouvi um pio, nem lhe vi nos olhos arregalados o medo, cobertos estavam pela sarapilheira do barrete que lhe cega a cabeça.
O povo, aplaude e apupa dividido na sua opinião, consigo ouvi-los, mas já me embarretam a mim também, não devo tardar. Ainda sinto o cheiro a chouriço assado e vinho, da barraca à direita do fontanário. Escuto vozes vindas de lá, onde alguém vai petiscando enquanto vidas humanas são ceifadas como trigo. Ao longe, a fanfarra a ensaiar no coreto em voz baixa os hinos que marcam o final da agenda matinal, a tocar dentro de momentos.
Sinto a corda rude a ajustar-se no meu pescoço e a respiração do meu carrasco no alto da minha nuca. Parece algo nervoso, com certeza, não quer equivocar-se no nó e na medida do pescoço com toda a praça a assistir. Sinto-lhe as mão trémulas enquanto pelos dentes cerrados lhe sai um "desculpa, vai em paz". Oxalá, condoído, não me aperte em demasia. É deveras desconfortável esta corda, que me pica a pele da garganta e me dá comichão impossível de coçar com as mão seguras atrás das costas.
Gostava de, dentro de segundos, poder ver a minha vida passar-me, num instante, pelos olhos como um filme. Como sempre me garantia o Tio Casimiro que acontece a toda a gente que está lúcido ás portas da morte. Mas esta maldita urticária não me permite concentrar. Não existe concentração possível com as fibras a penetrar-me a pele desta forma.
Catrapum! E agora foi o meu postigo a sorver-me, não sem antes soltar um guincho típico de assassino em final de carreira que se entedia com os últimos suspiros de quem perde o chão debaixo dos pés. Os meus, sacudidos por intensos espasmos do meu corpo em busca de uma salvadora golfada de ar, pendem já no oco do cadafalso. Moscas como previ, mas muitas mais que sempre buscam o mijo e o nojo. Nem sinal dos putos, que já fogem daquele corpo malcheiroso, pendurado em vergonha e desventura no rossio da cidade.
Disseram-me em tempos que traí a minha pátria e vendi a um espanhol abastado a minha única filha, que me deu a minha mulher, levada nova pela cólera dos dias.
Fui considerado culpado de conspirar contra o estado e estender ao inimigo a mão de uma lusa cheia de graça. Mas já não me defendo que já cá não estou.
O rossio, já em debandada para o almoço, perde algum do seu encanto, nesta manhã de domingo. Já só dois carrascos de cara destapada e um pároco no centro da praça, ensacam e benzem os corpos rígidos entre os quais está o meu.
Zéphyro 13-03-2015
segunda-feira, 2 de março de 2015
Entretanto envelheci e defraudei as tuas expectativas
Quando te conheci era novo e bonito.
Podia lavar-se a roupa na minha barriga
e corria tanto e tão rápido
que havia quem me pedisse boleia para casa.
Quando me conheceste vestia sempre de preto.
O cabelo, dava-me pelos ombros
e tinha sempre sentido o que eu escrevia.
Tinha sempre fundamento o que eu dizia
e tu acreditavas-me tanto na altura...
Quando nos conhecemos, eu era um filósofo
e tinha estilo dos pés à cabeça.
Tenho pena de não ter podido manter-me
belo e jovem para ti,
de não poder dar-te o meu auge
e de te enganar como um iogurte
que destalha antes do final do prazo de validade.
Lamento, mas agora sou velho e feio.
Tenho a barriga gorda e mais peluda
e sabes bem que já não consigo correr.
Doem-me os joelhos, doem-me as costas,
falta-me o ar e falta-me vontade.
As roupas que visto, parecem da minha idade
e são tão desbotadas como o meu cabelo.
Estou a ficar grisalho e estou a ficar careca.
Poupo em produtos de higiene mas tenho sempre
tanto frio na cabeça agora.
Talvez devido a isso,
me tenham congelado as ideias
e, hoje em dia, quase já não digo nada
e quase não escrevo já poesia.
Umas linhitas sem fundamento sim
mas nunca mais as linhas líricas
e lindas de quando me conheceste.
Será que ainda acreditas em mim hoje?
Acreditas se te disser que sei
todos os segredos do universo?
Não acredito que acredites...
Agora já não sei mentir-te
e apanhas-me pelos olhos que te fogem acobardados.
Apanhas-me, porque se me esvaiu a filosofia
e agora, já só te tenho a ti.
Zéphyro 02-03-2015
Podia lavar-se a roupa na minha barriga
e corria tanto e tão rápido
que havia quem me pedisse boleia para casa.
Quando me conheceste vestia sempre de preto.
O cabelo, dava-me pelos ombros
e tinha sempre sentido o que eu escrevia.
Tinha sempre fundamento o que eu dizia
e tu acreditavas-me tanto na altura...
Quando nos conhecemos, eu era um filósofo
e tinha estilo dos pés à cabeça.
Tenho pena de não ter podido manter-me
belo e jovem para ti,
de não poder dar-te o meu auge
e de te enganar como um iogurte
que destalha antes do final do prazo de validade.
Lamento, mas agora sou velho e feio.
Tenho a barriga gorda e mais peluda
e sabes bem que já não consigo correr.
Doem-me os joelhos, doem-me as costas,
falta-me o ar e falta-me vontade.
As roupas que visto, parecem da minha idade
e são tão desbotadas como o meu cabelo.
Estou a ficar grisalho e estou a ficar careca.
Poupo em produtos de higiene mas tenho sempre
tanto frio na cabeça agora.
Talvez devido a isso,
me tenham congelado as ideias
e, hoje em dia, quase já não digo nada
e quase não escrevo já poesia.
Umas linhitas sem fundamento sim
mas nunca mais as linhas líricas
e lindas de quando me conheceste.
Será que ainda acreditas em mim hoje?
Acreditas se te disser que sei
todos os segredos do universo?
Não acredito que acredites...
Agora já não sei mentir-te
e apanhas-me pelos olhos que te fogem acobardados.
Apanhas-me, porque se me esvaiu a filosofia
e agora, já só te tenho a ti.
Zéphyro 02-03-2015
domingo, 1 de março de 2015
Ao Pato Donald, nunca o vi de calças de ganga
O que vale, é que era pequeno o escritório, nunca gostei que me apresentassem gente. Pelo que vejo daqui, é a Paula dos recursos humanos, que está aqui ao meu lado de calças pretas, tipo licra e camisa florida. Usa óculos grandes, portanto não me esqueço mais da Paula. Ao lado dela, numa secretária individual, está o Carlos. É ele que trata da contabilidade e, provavelmente, é ele que trata também da própria roupa... se fosse a mulher, com certeza não o deixava vir trabalhar de fato e gravata para um escritório de gente na casa dos trinta, no qual nem sequer tem voto na matéria. Trata dos pagamentos e pronto. Autoriza tudo o que lhe mandam autorizar e pronto. Mas ainda bem que vem de fato e que o fato lhe fica mal. Até já Carlos. Tenho de ir conhecer o resto do escritório. Dois monos que estão numa ilha de duas mesas, mais uma mocita, logo á entrada da porta, que abre a mesma a quem chega e atende os telefones quando tocam. Ainda não os ouvi desde que cheguei.
A Ana, usa uma saiazita justa, que lhe fica muito bem, realça-lhe as curvas. Eu gosto, fica bem com a camisa branca de corte moderno, meia transparente nos ombros. Dá-lhe um ar profissional, mas não demasiado formal. Os monos, grafistas na empresa, os únicos aliás, um era o Adriano, que vestia calças de sarja vermelha, vá-se lá entender, o outro era o Rui, grande como uma casa, de camisa e calças largas, claras, ao estilo de pai de santo brasileiro. Usa um brinquinho parvo na orelha direita, talvez para reforçar que ainda só tem trinta e dois anos, apesar da obesidade móbida lhe dar ares de cinquenta e dois e que também é um grande maluco e até fuma umas coisas quando sai ao fim de semana.
Só falta o chefe, o único no andar de cima, é Dr. Gustavo o nome, e usa, bastante a prpósito, um estilo todo apaneleirado de calcinha semi justa e pullover de gola em bico, com uma camisinha azul com brilho, por baixo. Tudo em pendant com o pedantismo da figura e do cabelo empastado de gel. Também registei o Dr. Gustavo, embora ache que não o vou ver muitas vezes.
E passou o primeiro dia, entre os primeiros afazeres e receber um portátil para trabalhar em qualquer parte, mesmo quando estou em casa e almoçar com os novos colegas, dos quais me lembro de todos os nomes, que são sempre simpáticos e cordiais no primeiro dia de trabalho. Nessa noite, dormi com o falso conforto de me sentir adaptado ao novo trabalho... erro crasso.
Quando entrei, na segunda feira, segundo dia de trabalho, até pensei que era engano e que tinha entrado no escritório errado. Era normal naquele corredor de escritórios num prédio de vinte andares, de escritórios. As pessoas às vezes enganam-se. Mas não, alguém me passou nas costas e me dirigiu um claro e inequivoco "bom dia Luis" e o Luis sou eu. A pessoa em causa, é uma mulher, novita, que me faz lembrar vagamente a moçoila, da semana passada, a que atendia os telefones mais silenciosos do mundo, mas é impossível ter a certeza, estando ela de calças e casaco de malha.
Quando dou por mim, reconheço o espaço, reconheço vagamente os esgares na cara das pessoas, mas todos estão diferentes. Os monos vinham os dois de ganga e casaco, um de bombazine, outro de camurça castanha, o esticadinho da contabilidade, de lencinho ao pescoço, de calças cinza com risca preta, e a rapriga dos recuros humanos, que me apresentou a toda a gente, não me lembro agora do nome, está de de vestido comprido de lã, nem sei se já a vi mais gorda. Ainda bem que não veio o chefe, o Dr. Gustavo. Oxalá ainda seja o mesmo quando aparecer aqui um dia.
A Ana, usa uma saiazita justa, que lhe fica muito bem, realça-lhe as curvas. Eu gosto, fica bem com a camisa branca de corte moderno, meia transparente nos ombros. Dá-lhe um ar profissional, mas não demasiado formal. Os monos, grafistas na empresa, os únicos aliás, um era o Adriano, que vestia calças de sarja vermelha, vá-se lá entender, o outro era o Rui, grande como uma casa, de camisa e calças largas, claras, ao estilo de pai de santo brasileiro. Usa um brinquinho parvo na orelha direita, talvez para reforçar que ainda só tem trinta e dois anos, apesar da obesidade móbida lhe dar ares de cinquenta e dois e que também é um grande maluco e até fuma umas coisas quando sai ao fim de semana.
Só falta o chefe, o único no andar de cima, é Dr. Gustavo o nome, e usa, bastante a prpósito, um estilo todo apaneleirado de calcinha semi justa e pullover de gola em bico, com uma camisinha azul com brilho, por baixo. Tudo em pendant com o pedantismo da figura e do cabelo empastado de gel. Também registei o Dr. Gustavo, embora ache que não o vou ver muitas vezes.
E passou o primeiro dia, entre os primeiros afazeres e receber um portátil para trabalhar em qualquer parte, mesmo quando estou em casa e almoçar com os novos colegas, dos quais me lembro de todos os nomes, que são sempre simpáticos e cordiais no primeiro dia de trabalho. Nessa noite, dormi com o falso conforto de me sentir adaptado ao novo trabalho... erro crasso.
Quando entrei, na segunda feira, segundo dia de trabalho, até pensei que era engano e que tinha entrado no escritório errado. Era normal naquele corredor de escritórios num prédio de vinte andares, de escritórios. As pessoas às vezes enganam-se. Mas não, alguém me passou nas costas e me dirigiu um claro e inequivoco "bom dia Luis" e o Luis sou eu. A pessoa em causa, é uma mulher, novita, que me faz lembrar vagamente a moçoila, da semana passada, a que atendia os telefones mais silenciosos do mundo, mas é impossível ter a certeza, estando ela de calças e casaco de malha.
Quando dou por mim, reconheço o espaço, reconheço vagamente os esgares na cara das pessoas, mas todos estão diferentes. Os monos vinham os dois de ganga e casaco, um de bombazine, outro de camurça castanha, o esticadinho da contabilidade, de lencinho ao pescoço, de calças cinza com risca preta, e a rapriga dos recuros humanos, que me apresentou a toda a gente, não me lembro agora do nome, está de de vestido comprido de lã, nem sei se já a vi mais gorda. Ainda bem que não veio o chefe, o Dr. Gustavo. Oxalá ainda seja o mesmo quando aparecer aqui um dia.
Que é isto afinal?! Já não pode confiar-se nas pessoas. Não pode esperar-se que se mantenham as mesmas no dia seguinte ao último em que as vimos? Porque teimam em mudar todos os dias a camuflagem, a indumentária e até as maquilhagens e os óculos, que antes eram para quem via mal, agora são também enfeites?
Porque razão não temos todos, armários cheios da mesma toilette que escolhemos quando ingressamos no mundo? Só tínhamos de ir alterando os tamanhos com a idade seríamos imensamente mais fiáveis e nem precisávamos de bilhete de identidade. Quem é aquele que vem ali de casaco de ganga e calça de treino da adidas? Só pode ser o Nuno, ninguém mais usa aqueles trajes. Quem é que vem a conduzir aquele carro que atropelou aquela velha? Não vi bem, mas pelos óculos de tartaruga, só podia ser a dona Alzira de Canidelo. Ouvi que nunca se habituou ao carro novo.
Não são tão fiáveis e divertidos, que nos proporcionam tantos momentos de alegria, os desenhos animados, por exemplo? Olhem o Pato Donald, inconfundível no seu fato de marinheiro da cintura para cima. Tem um closet cheio deles, todos iguaizinhos. Também há o Popeye, que traja de marinheiro e até tem tatuagens de âncoras nos braços, mas esse usa calças, ao contrário do Pato, logo são impossíveis de confundir.
O Mickey? Usa aqueles calções vermelhos parvos e já está, não inventa mais. O Bart? Usa aquela roupa de puto reguila, o cabelo espetado e pronto. Ainda tem o skate, para lhe assegurar a originalidade, eu já nem pedia tanto, basta-me que tenham cuidado com as roupas que vestem.
Nem só nos desenhos animados isto se passa. Cada qual, ter a sua indumentária única e intransmissível, só facilita a vida ao mundo, inclusive entre as referências religiosas, os nossos heróis. Eles nunca mudavam de roupa. Eu, pelo menos, Nunca vi o Jesus Cristo de calças de ganga, ou de botas à metaleiro, ou a correr de sapatilha e calção de licra abichanado. Nunca vi o Dalai Lama sem ser de túnica laranja, ou amarelo torrado ou lá o que é aquilo. Se me aparecesse à frente, de farta cabeleira e de vestimenta ocidental, ia lá acreditar que escrevinhava aquelas frases todas, que leio na internet que escreveu. Aquilo são frases que sim senhor, só ao alcance de referências religiosas, como, nomeadamente, o Dalai Lama.
Mesmo os deuses Hindus, ou têm trombas, ou têm muitos braços e trombas, e muitos braços e trombas e também cornos. São um tanto ou quanto parecidos, mas para os verdadeiros conhecedores, inconfundíveis também.
Porque razão não temos todos, armários cheios da mesma toilette que escolhemos quando ingressamos no mundo? Só tínhamos de ir alterando os tamanhos com a idade seríamos imensamente mais fiáveis e nem precisávamos de bilhete de identidade. Quem é aquele que vem ali de casaco de ganga e calça de treino da adidas? Só pode ser o Nuno, ninguém mais usa aqueles trajes. Quem é que vem a conduzir aquele carro que atropelou aquela velha? Não vi bem, mas pelos óculos de tartaruga, só podia ser a dona Alzira de Canidelo. Ouvi que nunca se habituou ao carro novo.
Não são tão fiáveis e divertidos, que nos proporcionam tantos momentos de alegria, os desenhos animados, por exemplo? Olhem o Pato Donald, inconfundível no seu fato de marinheiro da cintura para cima. Tem um closet cheio deles, todos iguaizinhos. Também há o Popeye, que traja de marinheiro e até tem tatuagens de âncoras nos braços, mas esse usa calças, ao contrário do Pato, logo são impossíveis de confundir.
O Mickey? Usa aqueles calções vermelhos parvos e já está, não inventa mais. O Bart? Usa aquela roupa de puto reguila, o cabelo espetado e pronto. Ainda tem o skate, para lhe assegurar a originalidade, eu já nem pedia tanto, basta-me que tenham cuidado com as roupas que vestem.
Nem só nos desenhos animados isto se passa. Cada qual, ter a sua indumentária única e intransmissível, só facilita a vida ao mundo, inclusive entre as referências religiosas, os nossos heróis. Eles nunca mudavam de roupa. Eu, pelo menos, Nunca vi o Jesus Cristo de calças de ganga, ou de botas à metaleiro, ou a correr de sapatilha e calção de licra abichanado. Nunca vi o Dalai Lama sem ser de túnica laranja, ou amarelo torrado ou lá o que é aquilo. Se me aparecesse à frente, de farta cabeleira e de vestimenta ocidental, ia lá acreditar que escrevinhava aquelas frases todas, que leio na internet que escreveu. Aquilo são frases que sim senhor, só ao alcance de referências religiosas, como, nomeadamente, o Dalai Lama.
Mesmo os deuses Hindus, ou têm trombas, ou têm muitos braços e trombas, e muitos braços e trombas e também cornos. São um tanto ou quanto parecidos, mas para os verdadeiros conhecedores, inconfundíveis também.
E eis-me ainda no escritório. Tenho tanto trabalho que fazer e não sei a quem peça que me arranje um cabo para ligar-me à rede com o computador. Na semana passada, quando me apresentaram os meus colegas, quando ainda pensei que fossem ser os mesmos na semana seguinte, disseram-me que era o Adriano que tratava dessas coisas, o que usava calças vermelhas de sarja, vá lá entender-se porquê.
Se calhar vou é para casa, aqui já não conheço ninguém.
Se calhar vou é para casa, aqui já não conheço ninguém.
Zéphyro 01-03-2015
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