E eis que um homem veio do sul,
ainda catraio mal calçado,
para ocupar uma casita
nos baldios a sul do tejo.
Corria as ruas de calção reguila
roubava a fruta e fisgava gatos,
enquanto se lhe escoava o sangue da vista.
Ao homem que veio do sul, faltou-lhe a mãe
quando mais precisou dela
e faltou-lhe o pai, por sentir a falta dela.
Faltou-lhe tudo e um tudo nada
para que nada lhe faltasse.
O amor deram-lhe as tias
e uma avó mais lá para norte,
a semi orfandade fez dele verdade
e deu-lhe toda uma vontade
de não necessitar de mais ninguém.
E eis o homem que veio do sul,
a descer do céu escuro por magia
acompanhado a meio fundo
por um avião escondido na noite.
Eis que cai de pé, com rolamento à frente
e sai ileso, cada vez mais alto,
cada vez mais esperto e até já dobra
o seu próprio paraquedas.
O catraio fez-se um homem e que bem
há-de ter-lhe ficado a farda.
Depois correu e cheirou a vida
em cada esquina como um cão perdido,
em busca de novo lar.
Correu e nunca dormiu
bebeu firme e hirto
que as árvores morrem de pé.
E eis o homem que veio do sul,
todo cordas e correntes
porque a neve escorrega que se farta.
Lá para os cantões helvéticos
de manga arregaçada a pegar no boi
pelos cornos, como se faz no seu baldio
ribatejano a sul do tejo.
Ei-lo de bem com a vida
que não deixa nunca para trás das costas.
Ei-lo fiel escudeiro da beldade das herdeiras
e da honra da sua musa
a quem jamais faltará.
Até porque as boas tias e avós nortenhas,
já escasseiam nos dias de hoje
e à falta de árvores de fruto
quem iria matar-lhes a fome?
Zéphyro 17-03-2015
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