segunda-feira, 2 de março de 2015

Entretanto envelheci e defraudei as tuas expectativas

Quando te conheci era novo e bonito.
Podia lavar-se a roupa na minha barriga
e corria tanto e tão rápido
que havia quem me pedisse boleia para casa.
Quando me conheceste vestia sempre de preto.
O cabelo, dava-me pelos ombros
e tinha sempre sentido o que eu escrevia.
Tinha sempre fundamento o que eu dizia
e tu acreditavas-me tanto na altura...
Quando nos conhecemos, eu era um filósofo
e tinha estilo dos pés à cabeça.
Tenho pena de não ter podido manter-me
belo e jovem para ti,
de não poder dar-te o meu auge
e de te enganar como um iogurte
que destalha antes do final do prazo de validade.
Lamento, mas agora sou velho e feio.
Tenho a barriga gorda e mais peluda
e sabes bem que já não consigo correr.
Doem-me os joelhos, doem-me as costas,
falta-me o ar e falta-me vontade.
As roupas que visto, parecem da minha idade
e são tão desbotadas como o meu cabelo.
Estou a ficar grisalho e estou a ficar careca.
Poupo em produtos de higiene mas tenho sempre
tanto frio na cabeça agora.
Talvez devido a isso,
me tenham congelado as ideias
e, hoje em dia, quase já não digo nada
e quase não escrevo já poesia.
Umas linhitas sem fundamento sim
mas nunca mais as linhas líricas
e lindas de quando me conheceste.
Será que ainda acreditas em mim hoje?
Acreditas se te disser que sei
todos os segredos do universo?
Não acredito que acredites...
Agora já não sei mentir-te
e apanhas-me pelos olhos que te fogem acobardados.
Apanhas-me, porque se me esvaiu a filosofia
e agora, já só te tenho a ti.


Zéphyro  02-03-2015

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