sábado, 28 de fevereiro de 2015

De volta a casa

A central de camionetas estava cheia de gente. Grandes e pequenos em correria e farnéis e marmitas e soldados de farda e caqui camuflado a trocar paleio e a fumar cigarros uns atrás dos outros. Quando chegou a Lisboa, ainda  havia carroças e charretes nas ruas e raramente os magalas andavam contentes.
Cinquenta anos passam num ápice e só deixam marcas no corpo, se tivermos tempo de olhar para elas. Lucília, era pouco dada a curativos e ligaduras. Tinha pouco tempo para chagas e aflições. Vender cestaria de pé na feira não deixa espaço a pieguices. Talvez inche um pouco as pernas, mas a gente habitua-se a tudo com o tempo. Menos à solidão, que quanto mais é solidão, mais se entranha nos ossos como a humidade da zona ribeirinha da capital.
Há cinquenta anos, as pessoas ainda compravam cestas e seiras de vime e ainda dava para o pão ter arte nas unhas. Há cinquenta anos, ainda havia quem tivesse os três aos quinze anos e um mar de pretendentes com macheza em todas as algibeiras. Era só escolher um e Lucília escolheu. Era só aturar um e lavar-lhe sempre a roupa e cozinhar-lhe o almoço e pô-lo numa marmita embrulhado em folha de jornal. Cozinhar-lhe o jantar e servi-lo sempre a horas, para que saia de casa a horas e chegue ao grémio a horas da jogatana habitual.
Lisboa tinha mais luz, há cinquenta anos e cheirava mais a fruta e a castanhas. Andava mais gente nas ruas, agora, só desfiles de carnaval e  o circo na cidade. Castanhas, em uma ou outra esquina e já não cheiram ao de antigamente. A feira da Praça de Espanha, agora é só chineses e indianos e quinquilharia que não dura. A feira popular já não existe e a roda gigante, chamam-lhe segunda circular. Lucília nunca se acostumou aos carros e ao barulho dos carros, muito menos ao fumo dos carros. Fez-lhe falta o cheiro ao urze e ao alecrim que sempre lhe segredavam os bons dias ao acordar, quando ainda tinha futuro na aldeia. Meteu-a a madrinha numa carroça, à boleia com o Sr. Afonso, que vendia galinhas para a cidade grande. A viagem levava três dias na altura, agora eram três horas. Pena já ter morrido o Sr. Afonso e talvez tenham morrido também as mulas da carroça.
Apalavrada com um quarto no Cais do Sodré, na casa de uma matriene, prima afastada da madrinha, Lucília viu-se sozinha com a sua inocência e corrompeu-se ao primeiro patife de bigode. Trabalhava nas docas a carregar os barcos que saiam para as colónias com abastecimento para os soldados a honrar a pátria no além mar. Emprenhou-a ainda cheirava ela a campo e chutou-a para canto mal se lhe notou barriga. Foi talvez melhor assim. Era um bruto de Trás-os-Montes com queda pela bebida e pelos quartinhos de alugar à hora, no último andar da pensão.
A menina, ao nascer, já vinha roxa, que, dizem, sufocou dentro do ventre porque a mãe em pânico fechou as pernas como aprisiona o urso o abraço dentado da armadilha. Não chegou a vê-la Lucília e foi melhor assim, que era o trombil escarrado do pai.
Há cinquenta anos, poucos homens aceitavam uma mulher usada e suja pelo sémen de outro. Ainda por cima do norte. Os que aceitavam, eram ainda mais sujos e corria-lhes nas veias o sangue ganancioso e frio da capital. Pouco dado a trabalho, o Tavares, era conhecido como o tal da vida airada. Um balelas de um pelintra sem ter onde cair morto e que mantinha quatro mulheres, espalhadas pela cidade, a quem sugava o suor do rosto, directamente dos porta-moedas de crochet. Lucília era a única, sabia-o de certeza quando tinha vinte anos. Aos trinta, não tinha tanta certeza já, nem tinha tantos dentes na boca das tareias de entretanto. Aos cinquenta, quando ele foi parar com os ossos à cadeia, por desacatos em via pública e agressão a um agente da autoridade, jurou a si mesma não mais querer nenhum homem. Eram todos feios, porcos e maus, mesmo os que eram bonitos com os seus bigodinhos aparados. Principalmente esses.
Ao companheiro que odiava... visitou-o todos os dias na cadeia. Ia e vinha na furgoneta de um vizinho, que a deixava em sete rios e a apanhava no areeiro, todos os dias às três horas da tarde. Todos os santos dias, com excepção de alguns domingos, durante cinco anos, visitou o pobre na masmorra e viu-o mingar-se cada vez mais até desaparecer para o caixão da tuberculose.
A vida é triste quando já não há quem visitar. Quando não temos ninguém nosso, mesmo que há cinquenta anos vivamos nela, nenhuma casa chega a ser nossa. Numa cidade de estranhos, nem um século chega para chamar alguém de família.
A central estava cheia, agora já não há carroças, apenas autocarros, enormes, que fazem duas ou três viagens ao dia. A de Lucília já lá vinha e já trazia gente que entrara no campo das cebolas. Hoje em dia, já ninguém leva galinhas nas camionetas, ou bacalhaus inteiros e salpicões e garrafões de moscatel de Setúbal. Agora, as pessoas têm civismo, e só carregam pequenas maletas com rodinhas e umas pastas finas, onde carregam com os dedos.
Estava feliz por poder cumprir a promessa que fizera a si mesma. Voltar à terrinha e à casinha que a madrinha, ao morrer lhe deixara. Não por apreço, que a despachou ainda ganapa por não querer carregar-lhe o peso, mas porque, de facto, não tinha mais ninguém. De qualquer forma, Lucília era a orgulhosa dona de uma casita de pedra e um pedacito de horta onde podia semear umas batatas ou assim. Aos sessenta e cinco anos, estava ainda em boa forma e não tinha medo do trabalho no campo, era uma questão de relembrar e desemperrar movimentos oclusos durante meio século. Mas quem sabe, não esquece. Não fosse este sono, que não a deixava há meses e cantava de alegria os hinos de menina nos passeios até á Caparica.
Ia sentada logo atrás do motorista a olhar-lhe para a nuca já ligeiramente calva, os motoristas agora já não usam chapéu de serviço, e pensava como seria acordar no dia seguinte, já numa cama que é só sua e sem cestas para vender, de pé, por meia dúzia de tostões. Ao seu lado, um casalinho moderno, apertava, cada um para seu lado, um monitorzinho pequeno, nas tais pastinhas finas que muitos jovens usam debaixo dos braços. Devia ser engraçada o raio da maquineta, pois em vez de ir aos amassos e beijinhos que tanto ajudam a queimar o asfalto da viagem, iam cada um com o seu sorriso parvo, como quem lê uma piada diferente e a entende à sua própria maneira. Partilha? Zero. Paixão? Ainda menos. Mas é assim ser moderno, tem o seu preço. O que vale é que tudo se paga a prestações hoje em dia, apesar dos juros de bradar aos céus.
Ao olhar para o casalinho, sentiu o sono chamar por si no embalo da estrada. Era tão suave andar de carro agora e as estradas tão macias que pareciam lençóis, daqueles de flanela, das camas quentinhas que a esperavam de volta a casa.
O rádio da camioneta ia ligado, baixinho, e passava um qualquer programa vespertino destas rádios de agora e, o motorista, descontraído ria de qualquer coisa que umas pessoas diziam. Lucília não ouvia bem, mas também já quase não ouvia, mas apreciava a companhia ainda assim.
Ao meio dia, paragem numa área de serviço e já falta pouco para Castelo Branco. Daí a Alcains é um tiro e, até à aldeia de Lucília, perdida entre dois ribeiros, com a Gardunha à altura dos olhos, meia horinha ou pouco menos. Mal parou a viatura e todos se precipitaram para fora. Quinze minutos não é muito tempo e ainda chichis havia que fazer e umas sandochas para comprar, talvez, que a fome já apertava. Foi tal a azáfama e correria, que ninguém reparou na velhinha, adormecida na cadeira por trás do motorista. Ninguém achou estranho, que a uma velhinha, não urgisse fazer chichi. Ninguém se lembrou, que as velhinhas de certa idade, urinam como mulas da mesma idade, apenas não o conseguem fazer de pé.
Ao chegar á aldeola, deviam ser umas três da tarde, já só haviam duas pessoas na camioneta e saiam as duas ali. Que bom que podia voltar mais cedo a Lisboa hoje. A vida de motorista é cansativa e rotineira e sabe bem um diazito mais folgado. O Freitas ia fazer o turno de doze horas e podia ir à central poisar a viatura mal chegasse à capital. Depois, era só o metro até casa. O velhote que ia atrás, já desce pelas escadas, agarrado ao varão lateral pendurado na porta. Agarra-se com força, não vá o mundo fugir-lhe debaixo dos pés. Só faltava ir acordar a velha, que dormia ainda no banco da primeira fila.
Sonhava com uma horta de batatas gordas, das vermelhas, a escapulir-se da terra, com meio corpo de fora. Sonhava com verdejantes folhas de couve e as belíssimas sopas que havia de fazer com elas. Sonhava com a sua casa, da qual já não se lembrava. Sonhava e dormia, tão fundo e tão sossegada pelo aconchego do lar de outrora, que ninguém mais a acordou, nem mesmo o motorista, que a abanava aos berros, com a mão no ombro enrijecido e gelado.
Merda, já não consigo chegar mais cedo hoje a casa e toca de ligar ao INEM para vir buscar a velha.
 
 

Zéphyro   28-02-2015

O meu pai chama-se Alfredo

O meu pai está a dormir, a besta. Como pode dormir como uma bela adormecida sabendo que é uma besta? Não sei, mas dorme, para o lado direito da cama e a minha mãe está na cozinha a chorar ao telefone. Acho que fala com a vizinha do sexto esquerdo. O marido dela, também é uma besta acho. Pelo menos é o que dizem as alcoviteiras do prédio quando vão ao pão de manhã.
A minha mãe e a vizinha do sexto, levam muitas vezes óculos de sol quando vão ao pão... e as outas riem à socapa. São umas besta também.
O meu pai, chama-se Alfredo e está a dormir, virado para o lado direito da cama e a babar-se para o travesseiro, o porco. Hoje, quando chegou a casa, ainda vinha pouco bêbedo e a minha mãe pagou as favas porque não havia vinho em casa, nem havia bagaço em casa e um homem não anda a trabalhar o dia inteiro para chegar a casa e não ter nada para matar a sede.
Nunca soube o que o meu pai faz, a besta. Diz que trabalha mas não traz dinheiro para casa senão quando calha de ir ao bingo e ser uma noite de sorte. E mesmo o prémio, já vem desbastado pelo caminho, nas roulottes e nas tascas e nos antros que estiverem ainda abertos. Raramente muda de roupa e cheira sempre a cavalo, até quando, ao domingo, sai do banho de barba feita. Só dura até ao fim da missa. Quando chega a casa, já traz barba rija na tromba outra vez e já tresanda oura vez a bagaço porque parou para comprar pão e o jornal. Como chega abençoado, raramente bate na minha mãe antes de acabar de comer o assado.
Hoje, quando chegou das vielas onde passa o dia enfiado, trazia sede, o porco. E como não lhe chega a água da torneira, bateu na minha mãe. Eu vi tudo e até pensei ligar à minha avó... ou à polícia sei lá. Mas de que serve pedir que me acudam uma velha cheia de artroses ou um bando de homens com pistolas e cassetetes? Ainda ajudei a minha mãe, coitada, a limpar o chão da cozinha que o porco partiu louça como se amanhã não houvesse e os cacos e o sangue grudaram-se na tijoleira e ainda custa a limpar. O meu pai, a besta, quando não está ainda bêbedo até atina na pontaria e a cabeça da minha mãe sujou o chão todo e tivemos as duas que limpar enquanto o porco foi para a rua. Como quando voltou já vinha como queria e tropeçava na mobília, nem reparou em nós de joelhos na esfrega. Subiu directo para o quarto e, agora, dorme como uma bela adormecida, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo e quando cheira a gasolina não se nota que é um bêbedo e que pedincha aos comparsas nos cafés as bebedeiras que traz para casa todos os dias. O meu pai chama-se Alfredo e acendi-lhe um fósforo em cima e, não sei se da gasolina ou do álcool que se evapora, faz uma chama linda como poucas. Ainda está virado para a direita, mas agora já não se baba, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo, vem agora com os bombeiros numa maca. Os vizinhos todos na rua e eu e a minha mãe sorvemos o ar por uma máscara. A minha mãe diz que caiu na fuga e rachou a cabeça... coitada. Os bombeiros dizem que o quarto cheirava a gasolina e a polícia diz que quer falar comigo. Com a minha mãe não, comigo.
O meu pai, chama-se Alfredo e é uma besta, mas agora, está queimado e já não bate em mais ninguém.
 
 
Zéphyro   28-02-2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Símios de galho em galho e algumas das coisas que digo quando não sei das coisas que digo

Ouve, primo primata, de liana em liana,
de banana em banana, sentado atrás do tempo:
Já caducou o meu futuro, por isso,
salto por cima do presente
para me deitar com o passado
na copa dessa árvore que ensombra o chão da selva.
Terás aí lugar para mim?
Terás para mim um par de mãos coçadas,
livre e que me cate os piolhos da penugem?
Quero o vento nos meus pelos
e ser acrobata sem rede ao estilo do Tarzan.
Terás por aí o espaço, para que uma Jane venha buscar-me,
talvez um dia, quando queira resgatar o tempo?
Não sou de voltar atrás mais que uma vez ao mês,
mas nunca se sabe das saudades que sentimos
da mais selvática das selvas vivas.
Onde nunca chove senão sono destilado
das luzes foscas que parecem nunca dormir.
Onde nunca se vê a vida que passa
naquela autoestrada, de rodas rápidas a chiar.
Ouve irmão símio, de macacada em macacada,
quero poupar-te à maçada de perderes a tua fé.
Mas já está gasta a minha sola
e percorrido todo o caminho
desta era que me foge e se esconde.
Já estão rasgados os meus trapos
e saciada qualquer fome de viver com os demais.
Quero ser da tua família e comer das tuas raízes,
quero ser mais um macaco,
e guinchar e saltar alto em rituais antigos
de acasalamento e domínio de território.
Tens por aí um par de braços
fortes para mim, primo afastado?
Os meus estão cansados e sem genica
para tanto ramo fugidio
e tanto salto escorregadio
a espreitar do fim a cada instante.
Haverá por essas bandas
alguma força que vos sobre
e que possam dispensar-me?
Só com a minha não chego aí e, se chegar,
não me aguento que não posso
com os meus joanetes e com os bicos de papagaio
dos tempos em que, só sapatos e camisas,
passava as horas sentado em frente ao nada.
Bem vendo as coisas, nem sequer sei o caminho
e para chegar a ti sozinho,
vou levar mais de três luas.
Cruzarei no caminho os furtivos caçadores
e os teus primos como eu, meros aproveitadores,
mas prometo, símio como fui eu outrora,
apagarei o meu rasto das lamas da terra
e não deixarei que alguém me siga.
Não levarei a ti e aos teus meninos
as desventuras da minha terra natal.
Tens por aí para mim, alguma gruta
ou buraco trasladado onde me esconda por uns dias?
Mesmo que os perca, encontrar-me-ão,
mas rápido desistem e vão embora, que não trago nada comigo,
nem ouros, nem pratas, ou pedras preciosas.
Rápido cessam as buscas e retornam
aos covis de onde saíram, seguindo o cheiro
que, sem querer, deixei cravado na folhagem
do trilho que há-de levar-me a ti.
Ouve, primo primata, primo primeiro
a reservar na história um posto:
Não sei quanto levo, mas hei-de chegar
e não quero ser líder nem quero disputas,
podes morder-me quando quiseres.
Serei exemplo do teu poderio
e baixarei em vergonha a cabeça
de mais uma luta perdida sem lutar.


Zéphyro  27-02-2015

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Por entre as grades da minha cela, vê-se um barco naufragado no rio

Um beliche escanteado e uma sanita sem tampa,
onde me sento para cogitar o mundo
e ler os livros e revistas que me traz o carcereiro.
Eis a casa dos meus sonhos,
a última das minhas moradas.
Nas paredes são só traços, riscados em parelha,
que contam dias e contam as horas
que faltam para o fim dos dias.
Por companhia, só baratas e o Barnabé
que levou armada a mão naquela tarde
para ser feliz numa loja de conveniência.
Aqui fechado, perde-se a vontade
e o interesse arbitrário
na liberdade como prémio pelo remorso.
Aqui fechado, perde-se o tino
e abandona-se, ao encargo do destino,
o perdão aprisionado dos nossos dias.
Pela manhã, são as flexões
e pela tarde as reflexões,
que o desporto é uma falácia.
Pela manhã se começa o dia
e a contagem das cabeças que não embarcaram ainda
na senda da insanidade.
Pela tarde, inicia-se o fecho da jornada,
após o almoço na clausura.
Mais uma contagem e uma sesta,
que leva pouco mais de duas horas a digestão a terminar.
Hoje não tenho sono nem comi nada.
Nem reparei quando sobrevoou o meu cocuruto
a mão brandindo o cassetete.
Hoje não leio nem conto o tempo
e apenas olho pela janela.
Oxalá caíssem por terra estas barras
enferrujadas como o meu cérebro preguiçoso.
Oxalá me deixassem ver mais além
aquele barco que jaz no leito do rio
e se afunda lentamente nas suas águas sujas.
Será que desaparece até à próxima contagem?
Gostava de ouvir o seu suspiro derradeiro,
na forma de uma sirene que é fado de Coimbra.
Gostava de captar o último vislumbre do seu casco,
ou então da sua proa, que sou leigo na matéria
e não sei qual bate no fundo primeiro.
Sem estas barras, poderia voar na sua direcção
e ser mais um dos navegantes
que não sucumbiu á crueza do naufrágio.
Não! Só eu e a janela
e o Barnabé que já ressona,
fazendo lembrar os roncos e os uivos
daquele velho lobo do mar
que morre agora perante o meu olhar invejoso.


Zéphyro  25-02-2015

Poço dos desejos

Atirei ao poço a moeda
dos desejos todos que trago em mim.
Como os desejos, foi ela em queda,
nunca antes atirada assim.

Olhei no fundo das águas o reflexo
da sobeja que julgava ser o meu.
Era o futuro, impávido e perplexo
por tudo que jamais me aconteceu.

Bateu na superfície lisa da água
a fortuna toda de que preciso,
tremeu o meu rosto no choque da mágoa
e tombei junto, como um narciso.

Espero até hoje pela sorte taluda
ou que me devolva o poço o valor do dinheiro.
Mas nada acontece, alguém me acuda
que fiz de um poço o meu mealheiro.


Zéphyro  25-02-2015

Como decorar uma sala vazia

Uma sala sem nada nem ninguém,
está sempre repleta de ecos ocos
e cheiros bafientos de nudez imposta.
Algumas, pintadas recentemente,
emanam pelos ares contidos,
impessoais vapores da tinta
branca e imberbe que tinge as paredes.
Porém, sem gente nem bibelots,
nem fotos de gente a fazer de bibelot,
fica perdida algures, entre a mentira
e a completa inexistência.
Fica entalada, entre a triste solidão
e o mais amorfo e catatónico lazer.
Uma sala, vazia, sem vivências
nem noites testemunhadas de amor carnal,
é toda ela penumbra e frio tiritante.
Uma luta contra a motricidade,
através da letargia das não emoções.
Uma vigília contra o abandono,
na mais surda e inabitada das cidades.
Uma greve de fome por uma fome
impossível de enxotar para um canto esquecido.
As salas, são feitas para transbordar de memórias
e momentos bons e maus das vidas das gentes.
As salas, são construídas como santuários,
desejosas de dar guarida e abrigo
ás almas fugidias que a inundam
de círios cintilantes e incensos do oriente.
Na parede de frente para a janela,
é imperativa a ilusão de um espelho.
Sem espelho não há ego nem reflexo.
Sem ego nem reflexo, de que adianta ser sala?
Á direita do espelho, imperativa uma poltrona.
Sem poltrona não há trono nem retorno,
sem trono a que retornar, quem quer estar em casa?
Em frente à poltrona, inevitável a caixa mágica.
Sem caixa mágica, não se entretém o tempo,
sem entretenimento nem tempo,
de que serve ser espaço?


Zéphyro  25-02-2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Peregrino

Falei hoje, ao patriarca da vila,
da ira que sinto por estar sozinho
neste fim de tudo intelectual e desgarrado.
Falei-lhe de como, por vezes, choro sozinho
e engulo a raiva por falta de melhor sustento.
Contei-lhe de como brado aos ventos
o meu ódio por este pódio
onde não escolhi ser medalhado.
Desfiei nele, as contas do meu rosário,
ensanguentado pelo mal que trago no peito,
da corrida que venci sem ter desejado correr.
Sentado na sua poltrona de pelúcia rosa,
o ancião condenou a minha causa
e fez da minha casa, o último dos meus dias.
Fumando do seu garrido cachimbo de pau preto,
enfumou a minha retina e todo o horizonte
para onde me escorraçou e que desconheço.
Como qualquer outro prenuncio de felicidade... desconheço.
Como qualquer outra manifestação de alegria... desconheço.
Como todas as coisas que tenho na trouxa que trago nas costas,
desconheço, ainda que me pesem horrores
e verguem a vontade dos meus passos.
Falei ontem ao patriarca.
Contei-lhe as minhas mágoas,
esvaziei-lhe nas mãos a minha psique.
Em resultado, fez de mim um peregrino,
e pintou num mapa um caminho novo.
Caminho desde ontem e não sei ainda
se segui o trilho correcto,
que me leva ao barulho da cachoeira.
Quando lá chegar, bebo da água fresca
e molho com ela a testa, transpirada
pelo fulgor desta caminhada,
oca de beijos e desprovida de vontade.


Zéphyro  24-02-2015

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Qualquer coisa entre o obituário e o mero desabafo

Venho por este meio comunicar,
a todos os meu familiares,
amigos e conhecidos que morri!
Foi às portas da noite passada,
dobrava eu a esquina ao fundo da rua,
quando as sombras me fizeram caretas dos telhados.
Vi, no lusco fusco, a maldade dos três pares de olhos
e senti na brisa o ódio na minha direcção.
Ainda deixei por terra o primeiro vulto,
à laia de um encontrão em passo de corrida,
mas caí redondo ao segundo
e foi hediondo como me esventraram
e deixaram nu, caído na berma da noite.
Tudo a troco de pouco mais que três vinténs.
Fui pai de três meninos
e espero que não chorem em demasia
ao ler esta minha lúgubre despedida.
Deixo a todos eles, todo o meu amor,
a casa no algarve e a minha colecção de calendários,
que escondi na gaveta do armário da garagem.
Cresçam e tornem-se homens sérios
e não andem pela rua à noitinha,
principalmente se vos aliciarem das janelas.
Arranjem moças e tenham filhos,
ou arranjem moços e adoptem.
Assim como assim, estou de saída
e vou poupar-me a vergonhas.
Também fui casado e tive uma linda mulher,
que, por azar, nasceu frígida e, por isso,
nunca me fez feliz de verdade.
A ela, quero deixar toda a amargura
do meu coração furado pelas navalhas.
Isso e talvez o meu opel corsa,
velhinho mas fiável e sempre feliz
por ser manuseado pelas minhas mãos,
pequenas mas poderosas como um raio.
Arranja quem te faça feliz
e quem te conte mais piadas.
Talvez seja o riso a solução,
que nunca fui capaz de fazer-te gargalhar
com as minhas fosquinhas tristes.
Ao resto dos que deixo,
deixo apenas o meu apreço
e saudade que não tem preço.
Saudade dos momentos de traição e fealdade
que desfilavam carnavalescos,
pelas avenidas onde vos conheci.
Saudade de competir irmãmente
por um lugar que realmente não desejo,
numa luta onde vale tudo, inclusive tirar olhos.
Todo o meu apreço a quem vê na vida sentido
e a quem busca na vida sentido.
É uma empreitada de respeito
e vai dar-me tremendo gozo assistir.
A isso e ao dia em que resultar a democracia.
A todo o império de seguidores
desta putrefacta e obsoleta utopia,
dedico as minhas últimas palavras.
A igualdade não existe!
É apenas uma máscara que usamos,
para que ninguém repare em nós
enquanto pisamos o que está em baixo,
por medo que nos alcance
e olhamos gulosos de inveja
para o que está bem lá em cima,
na esperança que, talvez, nos leve junto.
Morri na noite passada,
paz seja feita à minha alma
que deixa agora um mundo incompreendido.


Zéphyro   16-02-2015

Metamorfose

Saí do meu casulo desgraçado,
cheio de sonhos iluminados
pelo buraco que escamoteei
desde o interior do meu desterro.
Não há muito tempo,
estava eu encarcerado entre cascas
e nada de saídas quebradiças
por onde pudesse, esperneante, libertar-me.
Agora, finalmente, estou livre,
estou cá fora repleto de ensejos
e nenhuma multidão ousará vaiar-me a passagem.
Cá fora, tenho asas e cores
que sobrevoam e enaltecem tudo o que vejo
e que quero um dia atingir ou alcançar.
Saí ontem da prisão de seda,
com sede da vida tresmalhada e verdadeira
cujos ecos ouvi, no meu exílio de vitral.
Ironia das ironias,
de asas abertas dou por mim,
colado entre escovas,
do para brisas de um carro.
Enclausurado, tento em vãos saltinhos
desamarrar-me desta mobilidade imposta.
Fugi eu do escuro do meu ovo
para ser encandeado pela luz azul
que ilumina o alpendre deste limbo
onde não me decidi, ainda, a entrar.
Saí do meu casulo desgraçado
e deixei por terra pedaços de casa,
pedaços da vida, que perdi por escolha própria.
Não há muito tempo era feio
e sonhava erguer-me em mil cores.
Hoje, sou só um padrão de sucos viscosos
que escorre pelo vidro
que me barrou a eternidade.


Zéphyro  13-02-2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pirolito, o palhacinho pobre

Sentado ao volante da velha furgoneta desligada, olhas o teu reflexo no retrovisor, descaído como os papos de galinha por baixo dos teus olhos ainda por pintar. Já foram mais novos esses dois berlindes azuis. E já brilharam mais no meio da paleta que tinhas estampada na cara. Nessa altura, ainda não formavam pregas as sobras flácidas da pele do teu pescoço.
Agora, sentado com a barriga entalada pelo volante, tentas, quiçá demasiado trémulo, delinear a preto o contorno dos olhos e pensas no coto de lápis, tesouro único que te sobrou dos tempos de glória. É muito mais duro agora, marcar o carvão na pele sebosa e engordurada que desbota qualquer cor.
Com a tez já branqueada, pintas de vermelho comunista todo o espaço em redor dessa boca que tresanda à aguardente que bebericas a custo, largando a garrafa, tombada no banco do pendura.
Sexta feira foi ontem. Tocou-te o telefone, ias a meio do almoço e atendeste já sumido de voz, pela boca de patanisca. Aceitaste mais um serviço com o mesmo entusiasmo que inunda o condenado, ao saber a data do cadafalso desavindo.
Sábado é hoje. Já te vês, sufocado por Franciscas e Marias, Rodrigos e Tomazes, que te gritam e repuxam os trapos largos, já furados pela traça. Malogrados tempos das bolas de naftalina, das indumentárias mais dignas e das crianças com respeito e educação. "Quero um cão!, Palhaço, faz-me um cão!" E sopras daqui e esticas dali, com forças e fôlego que não tens, as borrachas sarapintadas que compraste na loja dos chineses. " Quero uma espada! Dá-me uma espada já, palhaço sem graça" E bufas para cá e amanhas para lá, terminando com uma qualquer figura flácida em mãos. Nada semelhante à firmeza de uma espada.
Tivesses ao menos uma, que te trespassasse e esventrasse e te poupasse a tanto tormento. Talvez esvaído recuperasses a graça e ganhasses cor mais viva.
Hoje em dia estás verde. É de certeza da raiva! Talvez seja da cirrose. A verdade, é que já ninguém ri das tuas piadas e finges não notar. Pouco te importa se ri ou não o petiz, enquanto lhe esguichas na cara água suja, desde a flor ridícula que trazes na lapela. Que falta te faz um partner com quem pudesses fazer o número da chapada. Toda a gente gosta de ver um palhaço ser esbofeteado. Aqui, em moradias burguesas dos subúrbios, ou nas revivalistas noites de verão artístico em paris. Certas coisas não mudam com o tempo.
Ainda te recordas de quando eras palhaço rico. Vestias preto snob e branco coca e dividias a noite e o dia. No rosto, só o desenho de uma lágrima balofa. Estanque e fajuta, como os anfiteatros que enchias.
Estás na carrinha ainda e tudo o que te sobra é esse palhacinho pobre, a contrato, arrastando o corpo em festas privadas de aniversário. Estás na carrinha e já nem crianças suportas nem os seus guinchinhos estridentes. Nem tão pouco os pais dessas crianças, bebendo vinho e comentando à socapa, a tua falta de jeito para a poda e o cheiro a álcool que emanas da boca, em pleno dia.
Desconhecem todos que já foste o grande Pirolito e sacaste gargalhadas e aplausos a toda a realeza monegasca. Não sabem das trincheiras nem dos bastidores, ignoram os píncaros e os lodos onde já foste homenageado, por vassalagem para com a tua arte.
Sozinho, sem parceiro de palco nem um palco de verdade, apenas um recanto mal relvado do jardim onde alguém deixou uma palete de madeira. Um buraco sem dignidade nem luz de holofotes numa casa nova da periferia.
Sozinho, só com as cores esbatidas que vez em reflexo, aprumas a esponja que te enfeita o nariz e esvazias o último trago da garrafa de aguardente. Estás pronto, finalmente.
Sozinho, tombado e entalado entre os dois brancos da frente, já estás demasiado longe para ouvir o telefone que te reclama a presença, já estás demasiado só, para reparar nas moscas que esvoaçam alegremente em redor do teu corpo enrijecido, já estás demasiado velho para ter coração para estas andanças.


Zéphyro   09-02-2015

Debaixo do salto do teu sapato

É só teu o barulho que fazes
ao chegar a casa, ou outro qualquer sítio
onde eu esteja a esperar-te.
Identifica-te tal como a tua impressão digital,
que deixas marcada na maçaneta fria da porta,
que aqueces com a tua mão de entrada.
Por vezes, gosto de ficar a admirar-te, ao longe,
da janela virada para a rua.
Sempre tão altiva e elegante,
em perfeito equilíbrio, bem no cimo
dos teus altos sapatos pretos de fivela.
Todos diriam que és mulher poderosa!
Como adorava eu que me pisasses
com a leveza dos teus passos.
Que me subjugasses com os teus tacões
e cunhassem eles em mim toda a ousadia
que têm os caminhos que escolhes.
É só teu o teu barulho
e é só teu o teu perfume,
que fica a pairar no ar
bem depois de teres saído.
Dou por mim inebriado, entorpecido,
sem vontade sequer de ter vontade própria.
Só penso, nesses dias, em verter em mim
toda a feitiçaria do teu cheiro.
E poder levar um pouco de tentação
aos arrabaldes que frequento sem ti.
Tivesse eu coragem de ir a lado algum sozinho.
Não. Mormente, prefiro ficar por cá,
na ânsia de ouvir-te os passos decididos
a entrar na frescura do prédio de tijolo burro.
Burro como eu, que a tempo inteiro
sou só tempo que passa ao lado de mim mesmo,
indigno de ser o alvo das tuas solas.


Zéphyro   09-02-2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ao desaire que me pariu

Vou deixar-te desaire.
Parto hoje, para longe
e não sei se irei voltar.
Despeço-me em lágrimas dos tempos
em que contávamos o tempo
em grãos de arroz na tua mão.
Irei sentir a falta das correrias
e das pernas arranhadas nos silvados
que envolvem a casa onde crescemos,
eu para um lado e tu para o outro.
Mas não chores nem me lamentes.
Nada vale a lágrima vertida,
transformada em frieira mais tarde,
pelo gelo das horas esvaídas do dia.
Vou deixar-te desaire, meu pai, meu pão.
Parto hoje, rumo a tudo que ainda não sei
por tempo que te faltou para me mostrar.
Parto já, em direcção ao céu vazio,
na ânsia de vê-lo arranhado
por sonhos de outrem e prédios esguios.
Tal qual as nossas pernas de meninos.
Lamento o que não dissemos um ao outro,
na sobranceria dos ais contidos.
Lamento não ter-te dito, de forma sentida,
o que sentia por ti nesse tempo
em que eras só o que conhecia como sal.
Pesa-me na alma o vazio deixado
pelo que não tiveste tu, coragem de proferir.
Uma simples palmada nas costas embaraçadas
de homem que não dá o rosto a beijos.
Um simples abraço másculo e vigoroso,
de braços que falam em balbucio.
Vou hoje desaire, para fora de ti.
Vou a pé pela beira da estrada
que te trouxe um dia a este inverno
do qual não mais irás sair.
E lamento tanto a tua solidão.
Tanto, que, por vezes, até choro sozinho.

Zéphyro  08-02-2015