terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pirolito, o palhacinho pobre

Sentado ao volante da velha furgoneta desligada, olhas o teu reflexo no retrovisor, descaído como os papos de galinha por baixo dos teus olhos ainda por pintar. Já foram mais novos esses dois berlindes azuis. E já brilharam mais no meio da paleta que tinhas estampada na cara. Nessa altura, ainda não formavam pregas as sobras flácidas da pele do teu pescoço.
Agora, sentado com a barriga entalada pelo volante, tentas, quiçá demasiado trémulo, delinear a preto o contorno dos olhos e pensas no coto de lápis, tesouro único que te sobrou dos tempos de glória. É muito mais duro agora, marcar o carvão na pele sebosa e engordurada que desbota qualquer cor.
Com a tez já branqueada, pintas de vermelho comunista todo o espaço em redor dessa boca que tresanda à aguardente que bebericas a custo, largando a garrafa, tombada no banco do pendura.
Sexta feira foi ontem. Tocou-te o telefone, ias a meio do almoço e atendeste já sumido de voz, pela boca de patanisca. Aceitaste mais um serviço com o mesmo entusiasmo que inunda o condenado, ao saber a data do cadafalso desavindo.
Sábado é hoje. Já te vês, sufocado por Franciscas e Marias, Rodrigos e Tomazes, que te gritam e repuxam os trapos largos, já furados pela traça. Malogrados tempos das bolas de naftalina, das indumentárias mais dignas e das crianças com respeito e educação. "Quero um cão!, Palhaço, faz-me um cão!" E sopras daqui e esticas dali, com forças e fôlego que não tens, as borrachas sarapintadas que compraste na loja dos chineses. " Quero uma espada! Dá-me uma espada já, palhaço sem graça" E bufas para cá e amanhas para lá, terminando com uma qualquer figura flácida em mãos. Nada semelhante à firmeza de uma espada.
Tivesses ao menos uma, que te trespassasse e esventrasse e te poupasse a tanto tormento. Talvez esvaído recuperasses a graça e ganhasses cor mais viva.
Hoje em dia estás verde. É de certeza da raiva! Talvez seja da cirrose. A verdade, é que já ninguém ri das tuas piadas e finges não notar. Pouco te importa se ri ou não o petiz, enquanto lhe esguichas na cara água suja, desde a flor ridícula que trazes na lapela. Que falta te faz um partner com quem pudesses fazer o número da chapada. Toda a gente gosta de ver um palhaço ser esbofeteado. Aqui, em moradias burguesas dos subúrbios, ou nas revivalistas noites de verão artístico em paris. Certas coisas não mudam com o tempo.
Ainda te recordas de quando eras palhaço rico. Vestias preto snob e branco coca e dividias a noite e o dia. No rosto, só o desenho de uma lágrima balofa. Estanque e fajuta, como os anfiteatros que enchias.
Estás na carrinha ainda e tudo o que te sobra é esse palhacinho pobre, a contrato, arrastando o corpo em festas privadas de aniversário. Estás na carrinha e já nem crianças suportas nem os seus guinchinhos estridentes. Nem tão pouco os pais dessas crianças, bebendo vinho e comentando à socapa, a tua falta de jeito para a poda e o cheiro a álcool que emanas da boca, em pleno dia.
Desconhecem todos que já foste o grande Pirolito e sacaste gargalhadas e aplausos a toda a realeza monegasca. Não sabem das trincheiras nem dos bastidores, ignoram os píncaros e os lodos onde já foste homenageado, por vassalagem para com a tua arte.
Sozinho, sem parceiro de palco nem um palco de verdade, apenas um recanto mal relvado do jardim onde alguém deixou uma palete de madeira. Um buraco sem dignidade nem luz de holofotes numa casa nova da periferia.
Sozinho, só com as cores esbatidas que vez em reflexo, aprumas a esponja que te enfeita o nariz e esvazias o último trago da garrafa de aguardente. Estás pronto, finalmente.
Sozinho, tombado e entalado entre os dois brancos da frente, já estás demasiado longe para ouvir o telefone que te reclama a presença, já estás demasiado só, para reparar nas moscas que esvoaçam alegremente em redor do teu corpo enrijecido, já estás demasiado velho para ter coração para estas andanças.


Zéphyro   09-02-2015

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