Ouve, primo primata, de liana em liana,
de banana em banana, sentado atrás do tempo:
Já caducou o meu futuro, por isso,
salto por cima do presente
para me deitar com o passado
na copa dessa árvore que ensombra o chão da selva.
Terás aí lugar para mim?
Terás para mim um par de mãos coçadas,
livre e que me cate os piolhos da penugem?
Quero o vento nos meus pelos
e ser acrobata sem rede ao estilo do Tarzan.
Terás por aí o espaço, para que uma Jane venha buscar-me,
talvez um dia, quando queira resgatar o tempo?
Não sou de voltar atrás mais que uma vez ao mês,
mas nunca se sabe das saudades que sentimos
da mais selvática das selvas vivas.
Onde nunca chove senão sono destilado
das luzes foscas que parecem nunca dormir.
Onde nunca se vê a vida que passa
naquela autoestrada, de rodas rápidas a chiar.
Ouve irmão símio, de macacada em macacada,
quero poupar-te à maçada de perderes a tua fé.
Mas já está gasta a minha sola
e percorrido todo o caminho
desta era que me foge e se esconde.
Já estão rasgados os meus trapos
e saciada qualquer fome de viver com os demais.
Quero ser da tua família e comer das tuas raízes,
quero ser mais um macaco,
e guinchar e saltar alto em rituais antigos
de acasalamento e domínio de território.
Tens por aí um par de braços
fortes para mim, primo afastado?
Os meus estão cansados e sem genica
para tanto ramo fugidio
e tanto salto escorregadio
a espreitar do fim a cada instante.
Haverá por essas bandas
alguma força que vos sobre
e que possam dispensar-me?
Só com a minha não chego aí e, se chegar,
não me aguento que não posso
com os meus joanetes e com os bicos de papagaio
dos tempos em que, só sapatos e camisas,
passava as horas sentado em frente ao nada.
Bem vendo as coisas, nem sequer sei o caminho
e para chegar a ti sozinho,
vou levar mais de três luas.
Cruzarei no caminho os furtivos caçadores
e os teus primos como eu, meros aproveitadores,
mas prometo, símio como fui eu outrora,
apagarei o meu rasto das lamas da terra
e não deixarei que alguém me siga.
Não levarei a ti e aos teus meninos
as desventuras da minha terra natal.
Tens por aí para mim, alguma gruta
ou buraco trasladado onde me esconda por uns dias?
Mesmo que os perca, encontrar-me-ão,
mas rápido desistem e vão embora, que não trago nada comigo,
nem ouros, nem pratas, ou pedras preciosas.
Rápido cessam as buscas e retornam
aos covis de onde saíram, seguindo o cheiro
que, sem querer, deixei cravado na folhagem
do trilho que há-de levar-me a ti.
Ouve, primo primata, primo primeiro
a reservar na história um posto:
Não sei quanto levo, mas hei-de chegar
e não quero ser líder nem quero disputas,
podes morder-me quando quiseres.
Serei exemplo do teu poderio
e baixarei em vergonha a cabeça
de mais uma luta perdida sem lutar.
Zéphyro 27-02-2015
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