Falei hoje, ao patriarca da vila,
da ira que sinto por estar sozinho
neste fim de tudo intelectual e desgarrado.
Falei-lhe de como, por vezes, choro sozinho
e engulo a raiva por falta de melhor sustento.
Contei-lhe de como brado aos ventos
o meu ódio por este pódio
onde não escolhi ser medalhado.
Desfiei nele, as contas do meu rosário,
ensanguentado pelo mal que trago no peito,
da corrida que venci sem ter desejado correr.
Sentado na sua poltrona de pelúcia rosa,
o ancião condenou a minha causa
e fez da minha casa, o último dos meus dias.
Fumando do seu garrido cachimbo de pau preto,
enfumou a minha retina e todo o horizonte
para onde me escorraçou e que desconheço.
Como qualquer outro prenuncio de felicidade... desconheço.
Como qualquer outra manifestação de alegria... desconheço.
Como todas as coisas que tenho na trouxa que trago nas costas,
desconheço, ainda que me pesem horrores
e verguem a vontade dos meus passos.
Falei ontem ao patriarca.
Contei-lhe as minhas mágoas,
esvaziei-lhe nas mãos a minha psique.
Em resultado, fez de mim um peregrino,
e pintou num mapa um caminho novo.
Caminho desde ontem e não sei ainda
se segui o trilho correcto,
que me leva ao barulho da cachoeira.
Quando lá chegar, bebo da água fresca
e molho com ela a testa, transpirada
pelo fulgor desta caminhada,
oca de beijos e desprovida de vontade.
Zéphyro 24-02-2015
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