segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Qualquer coisa entre o obituário e o mero desabafo

Venho por este meio comunicar,
a todos os meu familiares,
amigos e conhecidos que morri!
Foi às portas da noite passada,
dobrava eu a esquina ao fundo da rua,
quando as sombras me fizeram caretas dos telhados.
Vi, no lusco fusco, a maldade dos três pares de olhos
e senti na brisa o ódio na minha direcção.
Ainda deixei por terra o primeiro vulto,
à laia de um encontrão em passo de corrida,
mas caí redondo ao segundo
e foi hediondo como me esventraram
e deixaram nu, caído na berma da noite.
Tudo a troco de pouco mais que três vinténs.
Fui pai de três meninos
e espero que não chorem em demasia
ao ler esta minha lúgubre despedida.
Deixo a todos eles, todo o meu amor,
a casa no algarve e a minha colecção de calendários,
que escondi na gaveta do armário da garagem.
Cresçam e tornem-se homens sérios
e não andem pela rua à noitinha,
principalmente se vos aliciarem das janelas.
Arranjem moças e tenham filhos,
ou arranjem moços e adoptem.
Assim como assim, estou de saída
e vou poupar-me a vergonhas.
Também fui casado e tive uma linda mulher,
que, por azar, nasceu frígida e, por isso,
nunca me fez feliz de verdade.
A ela, quero deixar toda a amargura
do meu coração furado pelas navalhas.
Isso e talvez o meu opel corsa,
velhinho mas fiável e sempre feliz
por ser manuseado pelas minhas mãos,
pequenas mas poderosas como um raio.
Arranja quem te faça feliz
e quem te conte mais piadas.
Talvez seja o riso a solução,
que nunca fui capaz de fazer-te gargalhar
com as minhas fosquinhas tristes.
Ao resto dos que deixo,
deixo apenas o meu apreço
e saudade que não tem preço.
Saudade dos momentos de traição e fealdade
que desfilavam carnavalescos,
pelas avenidas onde vos conheci.
Saudade de competir irmãmente
por um lugar que realmente não desejo,
numa luta onde vale tudo, inclusive tirar olhos.
Todo o meu apreço a quem vê na vida sentido
e a quem busca na vida sentido.
É uma empreitada de respeito
e vai dar-me tremendo gozo assistir.
A isso e ao dia em que resultar a democracia.
A todo o império de seguidores
desta putrefacta e obsoleta utopia,
dedico as minhas últimas palavras.
A igualdade não existe!
É apenas uma máscara que usamos,
para que ninguém repare em nós
enquanto pisamos o que está em baixo,
por medo que nos alcance
e olhamos gulosos de inveja
para o que está bem lá em cima,
na esperança que, talvez, nos leve junto.
Morri na noite passada,
paz seja feita à minha alma
que deixa agora um mundo incompreendido.


Zéphyro   16-02-2015

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