domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ao desaire que me pariu

Vou deixar-te desaire.
Parto hoje, para longe
e não sei se irei voltar.
Despeço-me em lágrimas dos tempos
em que contávamos o tempo
em grãos de arroz na tua mão.
Irei sentir a falta das correrias
e das pernas arranhadas nos silvados
que envolvem a casa onde crescemos,
eu para um lado e tu para o outro.
Mas não chores nem me lamentes.
Nada vale a lágrima vertida,
transformada em frieira mais tarde,
pelo gelo das horas esvaídas do dia.
Vou deixar-te desaire, meu pai, meu pão.
Parto hoje, rumo a tudo que ainda não sei
por tempo que te faltou para me mostrar.
Parto já, em direcção ao céu vazio,
na ânsia de vê-lo arranhado
por sonhos de outrem e prédios esguios.
Tal qual as nossas pernas de meninos.
Lamento o que não dissemos um ao outro,
na sobranceria dos ais contidos.
Lamento não ter-te dito, de forma sentida,
o que sentia por ti nesse tempo
em que eras só o que conhecia como sal.
Pesa-me na alma o vazio deixado
pelo que não tiveste tu, coragem de proferir.
Uma simples palmada nas costas embaraçadas
de homem que não dá o rosto a beijos.
Um simples abraço másculo e vigoroso,
de braços que falam em balbucio.
Vou hoje desaire, para fora de ti.
Vou a pé pela beira da estrada
que te trouxe um dia a este inverno
do qual não mais irás sair.
E lamento tanto a tua solidão.
Tanto, que, por vezes, até choro sozinho.

Zéphyro  08-02-2015

Sem comentários:

Enviar um comentário