Saí do meu casulo desgraçado,
cheio de sonhos iluminados
pelo buraco que escamoteei
desde o interior do meu desterro.
Não há muito tempo,
estava eu encarcerado entre cascas
e nada de saídas quebradiças
por onde pudesse, esperneante, libertar-me.
Agora, finalmente, estou livre,
estou cá fora repleto de ensejos
e nenhuma multidão ousará vaiar-me a passagem.
Cá fora, tenho asas e cores
que sobrevoam e enaltecem tudo o que vejo
e que quero um dia atingir ou alcançar.
Saí ontem da prisão de seda,
com sede da vida tresmalhada e verdadeira
cujos ecos ouvi, no meu exílio de vitral.
Ironia das ironias,
de asas abertas dou por mim,
colado entre escovas,
do para brisas de um carro.
Enclausurado, tento em vãos saltinhos
desamarrar-me desta mobilidade imposta.
Fugi eu do escuro do meu ovo
para ser encandeado pela luz azul
que ilumina o alpendre deste limbo
onde não me decidi, ainda, a entrar.
Saí do meu casulo desgraçado
e deixei por terra pedaços de casa,
pedaços da vida, que perdi por escolha própria.
Não há muito tempo era feio
e sonhava erguer-me em mil cores.
Hoje, sou só um padrão de sucos viscosos
que escorre pelo vidro
que me barrou a eternidade.
Zéphyro 13-02-2015
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