Que orgulho!
Deixei de um pulo a tocaia
e ganhei-lhe no sprint
incendiado pelos vivas
e apupos de gozo.
- Um dois três Marco livra todos.
E sou herói em ombros
e supremo carrasco do triste
que conta até cem, outra vez.
Matei um salvei dez,
nova corrida para os recantos obscuros.
Em atropelo de pânico como magalas,
em busca da lama da trincheira.
- Já vou... e já vem,
na direcção do magote
que se embola a medo
por detrás de um camião abandonado no beco.
- Corre que te safas, não, já te viu!
- Vai que te livras, não, já te foste!
Uma e outra vez,
rasteiro como um lagarto,
rápido como o vento,
pequeno como uma bala:
- Um dois três Marco livra todos.
E ombros outra vez até ao portal
que é tarde e já me chamam da janela.
Durmo e acordo.
Rua vazia, esconderijos vazios.
Brincadeiras sem catraios.
Só velhos e sombras de jardim.
Durmo e acordo.
Um dois três quem agora?
E os joelhos rotos e o orgulho
de ser o mais lesto salvador do bairro?
Partiram, num autocarro de dois andares,
daqueles que já não vemos nos subúrbios.
Os ombros agora tenho-os doridos
que sou eu quem carrega o peso
de não ter ninguém a quem acudir,
nem vontade de ser salvo.
Um dois três quem agora
que já não conheço as ruas?
Rebenta a bolha! Rebenta a bolha!
Zéphyro 30-10-2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Chamego em pele moribunda
Está já no caixão o moço,
de pés para a cova nos sapatos engraxados.
Mas veio um laivo do jardim dos fundos,
partilhar segredos de tumbas violadas
e cadáveres exumados a troco de prazer proibido.
Está já de saída o feio,
enfezado no seu melhor fato preto.
Mas ouve-se um restolho lá de fora,
de dois corpos a rolar no capim
imundo das lamas e dos bichos.
Um chamego que brilha na noite
como uma candeia bosque adentro,
nas mãos férteis de um lenhador.
Um gemido que entoa no vazio
e chega ao céu sozinho,
como um viajante à boleia
sem poder para escolher destino.
Vai já longe a alma do desalmado,
saiu na aurora pela culatra,
em busca de vales novos
e terras boas onde enlutar.
Trouxe-a de volta a fome ao anoitecer
que alma não vive sem sustento.
Trouxe-a de volta o lume
que alma não vive sem calor.
Está já no caixão o pobre.
Mas um chamego na sua pele quase morta,
beliscou-lhe as entranhas e as entradas
e as carnes já decalcadas
por uma vida boémia e ensolarada.
Zéphyro 17-10-2014
de pés para a cova nos sapatos engraxados.
Mas veio um laivo do jardim dos fundos,
partilhar segredos de tumbas violadas
e cadáveres exumados a troco de prazer proibido.
Está já de saída o feio,
enfezado no seu melhor fato preto.
Mas ouve-se um restolho lá de fora,
de dois corpos a rolar no capim
imundo das lamas e dos bichos.
Um chamego que brilha na noite
como uma candeia bosque adentro,
nas mãos férteis de um lenhador.
Um gemido que entoa no vazio
e chega ao céu sozinho,
como um viajante à boleia
sem poder para escolher destino.
Vai já longe a alma do desalmado,
saiu na aurora pela culatra,
em busca de vales novos
e terras boas onde enlutar.
Trouxe-a de volta a fome ao anoitecer
que alma não vive sem sustento.
Trouxe-a de volta o lume
que alma não vive sem calor.
Está já no caixão o pobre.
Mas um chamego na sua pele quase morta,
beliscou-lhe as entranhas e as entradas
e as carnes já decalcadas
por uma vida boémia e ensolarada.
Zéphyro 17-10-2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Que fazes?
Que fazes de mãos vazias
nesta casa onde não tens lugar á mesa?
Porque tiras o casaco e limpas os pés
no tapete da entrada
onde, se olhares, se lê "bem-vindo"?
Não pertences cá, nem trazes presente
que não o da sola dos teus sapatos molhados:
Cocó, é um clássico!
Que fumo é esse, que trazes em ti
e impregna de asco a nossa refeição?
Somos todos tísicos por dentro
e tu descaras em enojar-nos os pulmões
que já de si são bagaços.
Cheira ao lixo ardido e ás flores mortas,
que nunca chegaram a desabrochar na tua lapela.
Imundice, é um clássico!
Porque nos olhas assim,
por cima dos óculos de tartaruga
embaciados pelo ódio das tuas córneas?
Esqueceste quanto nos deves? Não temes?
Reembolsarás com juros todo o mundo
que nos roubaste por esticão?
Calote, é um clássico!
Fiamos-te a farpela que vestes
e a fiança que te fez livre.
Ainda assim, usurpas o nosso pão
com a tua precariedade e a tua saúde.
Vens de mãos a abanar
para nós, que de abanico entre dedos
enxotamos o calor da doença.
Vens de sorriso, como uma boneca de louça
nessa tua cara fria de rua desacordada.
Que fazes de mão vazias?
Traz mais lenha do barraco
que o inverno está aí!
Zéphyro 16-10-2014
nesta casa onde não tens lugar á mesa?
Porque tiras o casaco e limpas os pés
no tapete da entrada
onde, se olhares, se lê "bem-vindo"?
Não pertences cá, nem trazes presente
que não o da sola dos teus sapatos molhados:
Cocó, é um clássico!
Que fumo é esse, que trazes em ti
e impregna de asco a nossa refeição?
Somos todos tísicos por dentro
e tu descaras em enojar-nos os pulmões
que já de si são bagaços.
Cheira ao lixo ardido e ás flores mortas,
que nunca chegaram a desabrochar na tua lapela.
Imundice, é um clássico!
Porque nos olhas assim,
por cima dos óculos de tartaruga
embaciados pelo ódio das tuas córneas?
Esqueceste quanto nos deves? Não temes?
Reembolsarás com juros todo o mundo
que nos roubaste por esticão?
Calote, é um clássico!
Fiamos-te a farpela que vestes
e a fiança que te fez livre.
Ainda assim, usurpas o nosso pão
com a tua precariedade e a tua saúde.
Vens de mãos a abanar
para nós, que de abanico entre dedos
enxotamos o calor da doença.
Vens de sorriso, como uma boneca de louça
nessa tua cara fria de rua desacordada.
Que fazes de mão vazias?
Traz mais lenha do barraco
que o inverno está aí!
Zéphyro 16-10-2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Ensaio sobre a Mulher
Ser mulher é quadril em movimento
de coxa bem torneada.
É o brilho dos diamantes
e o perfume na lapela
por baixo da marca do beijo.
Quando ergues as mãos aos céus
e só encontras trabalhos e desventura
nos braços que terminam vermelhos
em pontas afrancesadas de unhas tratadas.
Ser mulher é batôm nos lábios
e tacões em equilíbrio.
É a graça dos flamingos
de perna alta e esguia
que pintam o mar de rosa.
Quando atiras o grito á multidão
e só um rosto olha para trás
ao encontro dos teus olhos incendiados
pelas pestanas pomposas de rímel preto.
Ser mulher é querer amor
que não sabe como acolher.
É inverter o sentido dos rios
e monopolizar os sorrisos
do trânsito que pára.
Quando na noite só há treva
há sempre uma mulher
que inebria um qualquer rosto
que transpira entre gemidos.
Ser mulher... é ser homem
menos o instinto animalesco.
É lutar sem cavalgadas
nem cheiros nauseabundos
que a guerra se faz a peito.
Quando abres os braços em redor
e te palpita na garganta um nó
sem gravata teres ao pescoço.
Zéphyro 14-10-2014
de coxa bem torneada.
É o brilho dos diamantes
e o perfume na lapela
por baixo da marca do beijo.
Quando ergues as mãos aos céus
e só encontras trabalhos e desventura
nos braços que terminam vermelhos
em pontas afrancesadas de unhas tratadas.
Ser mulher é batôm nos lábios
e tacões em equilíbrio.
É a graça dos flamingos
de perna alta e esguia
que pintam o mar de rosa.
Quando atiras o grito á multidão
e só um rosto olha para trás
ao encontro dos teus olhos incendiados
pelas pestanas pomposas de rímel preto.
Ser mulher é querer amor
que não sabe como acolher.
É inverter o sentido dos rios
e monopolizar os sorrisos
do trânsito que pára.
Quando na noite só há treva
há sempre uma mulher
que inebria um qualquer rosto
que transpira entre gemidos.
Ser mulher... é ser homem
menos o instinto animalesco.
É lutar sem cavalgadas
nem cheiros nauseabundos
que a guerra se faz a peito.
Quando abres os braços em redor
e te palpita na garganta um nó
sem gravata teres ao pescoço.
Zéphyro 14-10-2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Quando saíres, mãe.
Deixa a janela aberta antes de saíres, mãe.
Gosto de ficar a ouvir o som dos vizinhos
a bater com os talheres na loiça
durante o jantar, que sempre comem juntos.
Ouço o vinho cair no fundo vazio
dos copos de pé alto, que a vizinhança é fina.
Em conjunto, todos assistem aos noticiários
e ordenam silêncio às crianças teimosas,
sem pingo de sede que beba o estado do mundo.
Apenas estórias e lenga lengas da escola.
Ao final de algum tempo,
já só os genéricos das telenovelas
e a loiça, agora mais barulhenta,
após a lavagem que a atira dentro dos armários,
tão cheios de mofo e quinquilharia.
Fecha se puderes a persiana, mãe.
Que quase sempre me esqueço dela aberta,
embalado pelo meu voyeurismo entrevado.
Por vezes acordo enregelado,
que o outono já aí está e tão húmido
que me faz crescer o fungo nos pulmões.
Quem me dera puder chegar-me á janela,
debruçar-me para a rua, como as velhas
que estendem roupa e apanham roupa
cantarolando cantigas já mortas pela rádio.
Falar pelos cotovelos, de cotovelos no parapeito,
com quem passa lá em baixo e acena
com boas novas, com jornais diários,
com peixe fresco e guarda-chuvas arranjados.
Daqui do leito onde a doença me aquietou,
só escuto as gaitadas de anúncio
que num ápice, vão já na rua de cima.
E o meu guarda-chuva, continua prostrado,
com as varetas partidas e o pano roto,
que já não me abriga há mais de ano.
Quando saíres, mãe, deixa o mundo entrar.
Estou só e recluso neste quarto doente
mas a vida continua lá fora.
Gosto de ficar a ouvir o som dos vizinhos
a bater com os talheres na loiça
durante o jantar, que sempre comem juntos.
Ouço o vinho cair no fundo vazio
dos copos de pé alto, que a vizinhança é fina.
Em conjunto, todos assistem aos noticiários
e ordenam silêncio às crianças teimosas,
sem pingo de sede que beba o estado do mundo.
Apenas estórias e lenga lengas da escola.
Ao final de algum tempo,
já só os genéricos das telenovelas
e a loiça, agora mais barulhenta,
após a lavagem que a atira dentro dos armários,
tão cheios de mofo e quinquilharia.
Fecha se puderes a persiana, mãe.
Que quase sempre me esqueço dela aberta,
embalado pelo meu voyeurismo entrevado.
Por vezes acordo enregelado,
que o outono já aí está e tão húmido
que me faz crescer o fungo nos pulmões.
Quem me dera puder chegar-me á janela,
debruçar-me para a rua, como as velhas
que estendem roupa e apanham roupa
cantarolando cantigas já mortas pela rádio.
Falar pelos cotovelos, de cotovelos no parapeito,
com quem passa lá em baixo e acena
com boas novas, com jornais diários,
com peixe fresco e guarda-chuvas arranjados.
Daqui do leito onde a doença me aquietou,
só escuto as gaitadas de anúncio
que num ápice, vão já na rua de cima.
E o meu guarda-chuva, continua prostrado,
com as varetas partidas e o pano roto,
que já não me abriga há mais de ano.
Quando saíres, mãe, deixa o mundo entrar.
Estou só e recluso neste quarto doente
mas a vida continua lá fora.
Zéphyro 13-10-2014
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