quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Que fazes?

Que fazes de mãos vazias
nesta casa onde não tens lugar á mesa?
Porque tiras o casaco e limpas os pés
no tapete da entrada
onde, se olhares, se lê "bem-vindo"?
Não pertences cá, nem trazes presente
que não o da sola dos teus sapatos molhados:
Cocó, é um clássico!
Que fumo é esse, que trazes em ti
e impregna de asco a nossa refeição?
Somos todos tísicos por dentro
e tu descaras em enojar-nos os pulmões
que já de si são bagaços.
Cheira ao lixo ardido e ás flores mortas,
que nunca chegaram a desabrochar na tua lapela.
Imundice, é um clássico!
Porque nos olhas assim,
por cima dos óculos de tartaruga
embaciados pelo ódio das tuas córneas?
Esqueceste quanto nos deves? Não temes?
Reembolsarás com juros todo o mundo
que nos roubaste por esticão?
Calote, é um clássico!
Fiamos-te a farpela que vestes
e a fiança que te fez livre.
Ainda assim, usurpas o nosso pão
com a tua precariedade e a tua saúde.
Vens de mãos a abanar
para nós, que de abanico entre dedos
enxotamos o calor da doença.
Vens de sorriso, como uma boneca de louça
nessa tua cara fria de rua desacordada.
Que fazes de mão vazias?
Traz mais lenha do barraco
que o inverno está aí!


Zéphyro  16-10-2014

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