sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Chamego em pele moribunda

Está já no caixão o moço,
de pés para a cova nos sapatos engraxados.
Mas veio um laivo do jardim dos fundos,
partilhar segredos de tumbas violadas
e cadáveres exumados a troco de prazer proibido.
Está já de saída o feio,
enfezado no seu melhor fato preto.
Mas ouve-se um restolho lá de fora,
de dois corpos a rolar no capim
imundo das lamas e dos bichos.
Um chamego que brilha na noite
como uma candeia bosque adentro,
nas mãos férteis de um lenhador.
Um gemido que entoa no vazio
e chega ao céu sozinho,
como um viajante à boleia
sem poder para escolher destino.
Vai já longe a alma do desalmado,
saiu na aurora pela culatra,
em busca de vales novos
e terras boas onde enlutar.
Trouxe-a de volta a fome ao anoitecer
que alma não vive sem sustento.
Trouxe-a de volta o lume
que alma não vive sem calor.
Está já no caixão o pobre.
Mas um chamego na sua pele quase morta,
beliscou-lhe as entranhas e as entradas
e as carnes já decalcadas
por uma vida boémia e ensolarada.

Zéphyro  17-10-2014

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