quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Um dois três Marco livra todos

Que orgulho!
Deixei de um pulo a tocaia
e ganhei-lhe no sprint
incendiado pelos vivas
e apupos de gozo.
- Um dois três Marco livra todos.
E sou herói em ombros
e supremo carrasco do triste
que conta até cem, outra vez.
Matei um salvei dez,
nova corrida para os recantos obscuros.
Em atropelo de pânico como magalas,
em busca da lama da trincheira.
- Já vou... e já vem,
na direcção do magote
que se embola a medo
por detrás de um camião abandonado no beco.
- Corre que te safas, não, já te viu!
- Vai que te livras, não, já te foste!
Uma e outra vez,
rasteiro como um lagarto,
rápido como o vento,
pequeno como uma bala:
- Um dois três Marco livra todos.
E ombros outra vez até ao portal
que é tarde e já me chamam da janela.
Durmo e acordo.
Rua vazia, esconderijos vazios.
Brincadeiras sem catraios.
Só velhos e sombras de jardim.
Durmo e acordo.
Um dois três quem agora?
E os joelhos rotos e o orgulho
de ser o mais lesto salvador do bairro?
Partiram, num autocarro de dois andares,
daqueles que já não vemos nos subúrbios.
Os ombros agora tenho-os doridos
que sou eu quem carrega o peso
de não ter ninguém a quem acudir,
nem vontade de ser salvo.
Um dois três quem agora
que já não conheço as ruas?
Rebenta a bolha! Rebenta a bolha!

Zéphyro 30-10-2014

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