segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Resto de mim

Da nata nada sei.
Vivo dos resquícios de leite azedo
que alguém se esqueceu de raspar
do fundo bolorento do balde.

Nada sei sobre o miolo.
Vivo das côdeas ressequidas
deste pão de quinze dias esquecido
por alguém dentro de um saco furado de papel.

Sou, em suma, o resto de mim
que vive dos restos de tudo.
Em ultima análise
uma fenda aberta numa parede
encardida pela negritude dos dias,
muito depois de os dias terem ficado para trás
e serem já só estalactites de calcário.

De amor nada sei.
Vivo no lusco fusco dos sentidos
e aguardo pelo feixe do farol
que livre das escarpas pedregosas a minha alma.

Nada sei sobre o ódio.
Vivo apenas de desprezo e indiferença
por todos os vultos que vejo
tão de relance que não chegam a ser pessoas.

As emoções, no fundo,
passam por mim em velocidade cruzeiro,
mal tendo tempo para deixar sombra nas paredes
e reflexo nos espelhos que tenho dentro dos olhos.
Em ultima instância amo e odeio
quem me ama e odeia indiferente a virtudes e defeitos.
Amo porque me amam e odeio porque sim e é só o que me resta.

De beleza nada sei.
Vivo num vão de escada sem degraus
e tudo que é belo se queda lá em cima
tão longe e inacessível como o fim do arco iris.

Nada sei da fealdade
e vivo dos esgares hediondos do meu rosto
provocados pelo riso que rio de mim mesmo
à socapa enquanto rasuro dias numa parede.

Vejo, ao que vejo, a vida cegamente.
Não uso balanças nem matrizes,
dispenso vendas e mordaças.
Apenas fico caído sem opinião,
a escutar os cães ladrar
enquanto a caravana passa.



Zéphyro     11/12/2017

Algures do meu tamanho

Feno e terra de ninguém,
à luz do caleidoscópio improvisado
no fundo de uma garrafa vazia!

Correm messias e profetas.
Correm desnudos e sem rumo
como correm os cavalos bravos,
fustigando a terra estéril,
anunciando o asco da demanda.

Cordas entrelaçadas, relíquias e amuletos...
... e o calor bailando,
dois palmos acima da pele do mundo,
da pele do inferno, do eterno...

Ahhh!!!
Vem cá demónio,
atreve-te a existir
e luta desta vez
com alguém do teu tamanho!

Não eu. Não nós. Não gente.
Enfrenta antes este mar apagado.
Esta enferma paisagem desterrada
de angústias e desejos perdidos,
de calafrio e devaneio sombrio.

Feno e terra seca,
como útero sem fruto
dos dias sem polpa e sem mácula
por onde a vida nos foi sugada a conta gotas.

E saltam saltimbancos e artistas esquecidos.
Saltam inexpressivos, como saltam os feriados e as crianças.
Saltam porque sim e podem escolher não cogitar...
... pois são dias como os outros e crianças... simplesmente.

Ahhh!!!
Aparece deus!
Atreve-te a dar um ar da tua graça,
como têm graça as fadas e as sereias,
para petizes desdentados e marinheiros agonizantes.

Assume as rédeas do teu esterco!
Ou então, que mais é deste lugar sem nome,
onde ninguém mora além do vazio
e do calor fajuto da demência
de um sol escondido sob escombros.

Por ora, as garrafas são janelas escancaradas
para um dia fétido e distorcido.
Os bagaços, inebriam a luz da aurora
e envidraçam as abelhas que beliscam o urze.

Por aqui, o feno continua feno.
Fúnebre e desencantado como cão sem trela,
como um orgasmo violado pelos sinos do campanário,
rechaçado de encontro ao vácuo que representa o amanhã.

Ahhh, humanidade!
Levanta-te e anda!
Renasce e prospera,
como se saísses de uma arca de outrora.

Erige novas cidades para os teus
e baila a tua fortuna ao som quebradiço
do realejo do inevitável mendigo da baixa.
Comete de novo todos os mesmos erros
e cospe mais uma vez em todas as mesmas caras,
descaradas que te fazem lembrar de ontem.

Ergue novas capitais onde nem demónios,
nem deus, nem gente, nem nada.
Novos poços sem fundo onde nem fauna,
nem flora, nem vida, nem nada.

Apenas pesadelos e céu pardacento.
Um mar azul fugidio,
sem vestígio e sem esperança,
que embala as andorinhas desgarradas
enquanto estas rumam a norte e atraiçoam o verão.



Zéphyro   11/12/2017