Da nata nada sei.
Vivo dos resquícios de leite azedo
que alguém se esqueceu de raspar
do fundo bolorento do balde.
Vivo dos resquícios de leite azedo
que alguém se esqueceu de raspar
do fundo bolorento do balde.
Nada sei sobre o miolo.
Vivo das côdeas ressequidas
deste pão de quinze dias esquecido
por alguém dentro de um saco furado de papel.
Vivo das côdeas ressequidas
deste pão de quinze dias esquecido
por alguém dentro de um saco furado de papel.
Sou, em suma, o resto de mim
que vive dos restos de tudo.
Em ultima análise
uma fenda aberta numa parede
encardida pela negritude dos dias,
muito depois de os dias terem ficado para trás
e serem já só estalactites de calcário.
que vive dos restos de tudo.
Em ultima análise
uma fenda aberta numa parede
encardida pela negritude dos dias,
muito depois de os dias terem ficado para trás
e serem já só estalactites de calcário.
De amor nada sei.
Vivo no lusco fusco dos sentidos
e aguardo pelo feixe do farol
que livre das escarpas pedregosas a minha alma.
Vivo no lusco fusco dos sentidos
e aguardo pelo feixe do farol
que livre das escarpas pedregosas a minha alma.
Nada sei sobre o ódio.
Vivo apenas de desprezo e indiferença
por todos os vultos que vejo
tão de relance que não chegam a ser pessoas.
Vivo apenas de desprezo e indiferença
por todos os vultos que vejo
tão de relance que não chegam a ser pessoas.
As emoções, no fundo,
passam por mim em velocidade cruzeiro,
mal tendo tempo para deixar sombra nas paredes
e reflexo nos espelhos que tenho dentro dos olhos.
Em ultima instância amo e odeio
quem me ama e odeia indiferente a virtudes e defeitos.
Amo porque me amam e odeio porque sim e é só o que me resta.
passam por mim em velocidade cruzeiro,
mal tendo tempo para deixar sombra nas paredes
e reflexo nos espelhos que tenho dentro dos olhos.
Em ultima instância amo e odeio
quem me ama e odeia indiferente a virtudes e defeitos.
Amo porque me amam e odeio porque sim e é só o que me resta.
De beleza nada sei.
Vivo num vão de escada sem degraus
e tudo que é belo se queda lá em cima
tão longe e inacessível como o fim do arco iris.
Vivo num vão de escada sem degraus
e tudo que é belo se queda lá em cima
tão longe e inacessível como o fim do arco iris.
Nada sei da fealdade
e vivo dos esgares hediondos do meu rosto
provocados pelo riso que rio de mim mesmo
à socapa enquanto rasuro dias numa parede.
e vivo dos esgares hediondos do meu rosto
provocados pelo riso que rio de mim mesmo
à socapa enquanto rasuro dias numa parede.
Vejo, ao que vejo, a vida cegamente.
Não uso balanças nem matrizes,
dispenso vendas e mordaças.
Apenas fico caído sem opinião,
a escutar os cães ladrar
enquanto a caravana passa.
Não uso balanças nem matrizes,
dispenso vendas e mordaças.
Apenas fico caído sem opinião,
a escutar os cães ladrar
enquanto a caravana passa.
Zéphyro 11/12/2017
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