quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Namorados

Era realmente estranho o secundário
e todos os que vendiam os contos do vigário
na forma das matérias que aprendi.

A única coisa útil foi saber o abecedário
e ter-te nas minhas mãos como contas de um rosário
e desfiar-te... e descobrir tudo sobre ti.

Eram todos tão iguais nesse tempo...
Tão enfadonhos, que preferi ser um vento
para ver de cima os baixios da altura.

Passou a ser escárnio o meu passatempo
e passou a ser a morte o meu sustento,
até chegares tu e me tirares da sepultura.

Recordo que lias palavras soltas no jornal
e eu, lia tudo em ti como um atlas mundial
com uma curiosidade que não soube travar.

Eu era o filósofo e tu a pedra filosofal,
levei-te até ao entroncamento e de forma natural,
ouvi apupos e incentivos e tive de te beijar.

Ainda lembro bem o medo que senti...
Será que vias em mim tudo que querias?
Pois se eu nunca quis nada até te querer a ti,
como viveria sem te ter o resto dos meus dias?

A angústia era tão grande como o medo
e pela primeira vez, acordei sem ter dormido
apressei-me e corri, para chegar a ti mais cedo
e sentir a tua mão na minha e o teu sussurro no meu ouvido.

Já passou tanto desde então...
Já ganhamos e perdemos de tudo, até um cão
mas não mudava uma virgula à nossa história.

Só sei caminhar porque és tu o meu chão.
E és tu a única raiz deste pobre órfão,
sem terra, sem nome, sem pai nem glória.

E ensinaste-me mais que as matérias da escola!
Ensinaste-me magia e a ler no cristal da bola
todo o futuro que um dia há de vir.

E só quero ser pobre e viver de esmolas
e ser feliz contigo e com as minhas escolhas
e criar a nossa menina como um jardim a florir.

O tempo passou e apenas cresceste,
dentro de mim, fora de mim, em todo o lado...
Nem sabes de tudo que já me deste,
desde que nos escolhemos como namorados.


Zéphyro  15-02-2018

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