Há uma espécie de nicho na sociedade,
para os desiludidos, os inanimados sem ambição.
Um tipo de bicho, que come gente de todas as idades
apenas porque não querem mais que o que são.
E lá, estou eu, roendo uma utopia.
Querendo salvar o mundo uma pessoa de cada vez...
Não por solidariedade, ou por empatia.
Tão só porque me fez assim quem me fez.
Mas estou no nicho e roo onde quiser.
E não, não quero fortuna ou riqueza,
diga isso o que disser de mim.
Sou filho de um homem e de uma mulher
e se não desejo mais que a beleza
é porque quem me fez, me fez assim.
Há uma espécie de lugar na hierarquia
para aqueles que não querem nenhum lugar.
Quase como a prole, no meio da burguesia,
que se alimenta do que pode e nunca come caviar.
E lá, estou eu, só podendo roer a ânsia.
Ansiando por salvar sozinho a humanidade
e esperando obter nisso a substância
que me alimente os ossos e a vontade.
Mas estou só e como quando quero.
E como só, onde quer que coma,
com a fogueira ardendo na noite escura.
E ardo nela, louco como Nero,
que no escuro, qualquer noite é Roma
e não arder é pura loucura.
E o velho estigma de não querer,
valha ele o que valer,
não significa ficar aquém.
Apenas que um diamante, nada vale perante um beijo,
e que se valer dinheiro algum desejo,
pois que arda na fogueira também.
Zéphyro 24-02-2018
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