quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A rudeza dos dias

São rudes os dias,
nesta cela de grandes dimensões,
na prisão de alta segurança
a que os mais expeditos chamam de urbe.
Usam barba de três dias os dias
e dispensam a higiene pessoal,
tão pouco digna dos machos,
dignos desse rótulo tão dignificante.

Vestem roupas encardidas os dias,
indiferentes à moda, tão feminina
e indigna de ocupar lugares de destaque,
num meio onde só os mal azambrados triunfam,
prosperam e legislam.

São rudes os dias,
sem nível cultural ou educação,
usando e abusando do insulto,
na forma da gíria e calão
que se aprende nas ruas.

Usam o tom imperativo os dias
e não toleram adiamentos
aos prazos decretados,
para que as suas vontades obtusas,
sejam atendidas.

Mesmo sem retórica,
vilipendiam-nos os dias,
no nosso direito a retorquir,
na nossa necessidade de exprimir,
o que sentimos a cada vez
que ficamos presos nas solas dos seus sapatos.

São rudes os dias,
à moda antiga, onde os feios porcos e maus,
trazem sempre a razão na algibeira,
misturada com os nacos de cotão
das calças a desfazer de tão usadas.
Razão e cotão no bolso direito
e o canivete e o isqueiro no bolso esquerdo,
prontos para incendiar e estocar
qualquer eventual violação do perímetro.

Usam relógios de bolso os dias,
onde contam os segundos dentro dos minutos,
onde contam os minutos contidos nas horas
e onde controlam as horas de cada dia,
em que nos permitimos viver.
São uma benesse que nos é concedida,
de forma tão altruísta, que, por vezes,
até nos achamos agraciados pela sorte.

Falam através de megafones os dias,
tão austeros e convictos,
que ressaltam nos nossos tímpanos
retirando-nos a convicção profana,
que todas as vozes chegam ao céu.
Apenas balbuciamos, enquanto os dias
vociferam com rudeza diariamente.

São rudes os dias...
E nós, cegos pelo brilho da sua rudeza...
Nem nos apercebemos que somos nós,
a barba mal desfeita na cara dos dias
e o cheiro pestilento agarrado aos seus sovacos.
Somos nós as roupagens sujas que vestem
e somos nós o fraco português que falam
no seu tom depreciativo.

São rudes os dias...
E nós, surdos pela voz grossa da sua verdade,
do alto das colinas de sacrifício.
Mal temos tempo para observar
que somos nós os segundos dentro dos minutos,
somos nós os minutos contidos nas horas
e somos nós as horas que, a cada dia,
marcam o tempo que nos resta...

Mal nos apercebemos,
que somos nós os nacos de cotão,
dentro das algibeiras dos dias.
E somos nós os canivetes que,
à falta de melhor vamos usando
para dilacerar os próprios pulsos
e estocar até ao cabo as costas
daqueles que como nós caminham sem direcção.

Somos nós os isqueiros, as chamas,
que em loucura momentânea
chegam fogo aos arvoredos limítrofes
das nossas cidades inimputáveis.

São rudes os dias
e nós, que nem casmurros masoquistas,
teimamos em ser meras jornadas gastas em vão,
sem termos ainda delineado um plano,
nem termos ainda chegado à conclusão
que sim, são rudes os dias,
mas os dias somos nós.


Zéphyro  21-02-2018

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