quarta-feira, 11 de junho de 2014

Amália

És o negro xaile que aquece
e ampara os ombros lusitanos,
baixos como os olhos da vergonha.
Os teus braços, erguidos e abertos
parecem chamar cada um de nós,
que tem casa sem lar,
que tem mesa sem pão,
que tem filhos sem pai,
para um abraço, aconchegante e maternal.
A dor que trazes na voz,
é a doença de que padecem
os milhões de almas que olham para cima
sem conseguir tirar os olhos de ti.
Pois tu, és a referência,
tu és o caminho,
e tu és a coragem
que procuramos para viver
sem a dádiva da tua verdade.
Como chegamos ao mundo sem ti diva?
Como podemos tornar a ser
os pobres descendentes de Viriato?
Vendida a nossa honra por um saco de moedas.
Ser português é saudade!
Ser português é orgulho!
Ser português é fado!
Amália, não és portuguesa!
Amália, és Portugal.

Zéphyro 11-06-2014

Infante

O Infante deu à costa pela manhã.
Morto e cheio de escoriações na pele
decomposta pela água e curada pelo sal.
Trazia nas órbitas o vazio dos corvos
e na boca a podridão do escorbuto,
além de um ou outro bivalve esperneante.
Certamente, foi violentado
e espancado, durante séculos no mar.
O seu nome vinha cuspido pelas marés,
mesclado com os restos de algas
que as gaivotas debicavam descaradas.
-Olha o que fizeram de ti mestre!
Largado como os despojos de um pirata,
amarado, como carga em excesso
arremessada borda fora pela trupe.
Vinha vestido com os trapos de outrora
mas, do seu garboso chapéu de bicos
nem sinal, que enfeitou a cabeça de um tritão,
ou de uma sereia, sei lá eu.
Talvez tenha ficado largado pela corrente,
numa outra praia distante,
onde os pássaros pintam do alto as rochas.
O Infante, pobre infame,
deu à costa pela manhã.
Ou terá sido de madrugada?
Sim que por estar já tracejado
a rosa o horizonte,
não quer dizer que seja alvorada.
-Tu que o digas mestre,
que fizeste nascer os dias
e não chegaste a ser manhã.
Manhã, era louvar os astrolábios
que te levaram a atravessar oceanos.
Já não se navega pelas as estrelas, agora.
Usamos satélites e mapas e cartas.
Já não desconhecemos o destino, agora.
Temos filhos e terras do outro lado.
A rosa dos ventos, já só é um símbolo no casco do navio
apagado, onde esqueceram as pétalas e o norte.
Já não és mestre ou professor, Infante.
És passado e herança, deixados para trás.

Zéphyro - 11-06-2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Tempo

O tempo começou ontem,
quando poisaste, trazida pela brisa,
na palma da minha mão aberta.
Vinhas com os dentes de leão,
com as nuvens
e com a tempestade que se fazia adivinhar,
lá longe onde o mar se esconde.
Pulsei pela primeira vez.
vibrei com toque dos teus cabelos
no meu dedo ferido,
de apontar sem esperança o espaço
que nunca ocuparia sem ti.
Ouvi ao longe os gritos da faina,
os gemidos das gaivotas, sem consolo.
Como se fossem pregões, anúncios
antecipando a tua chegada.
Hoje, passa já uma eternidade desde ontem.
Hoje, não cabes já na palma da minha mão.
Ocupas todo o meu ser,
como se sempre tivesses cá estado.
Estás-me na roupa, como o perfume que uso.
Estás-me nos pés, como a estrada que piso.
És-me, fazes de mim melhor ao sê-lo
e já ocupaste o lugar dos meus antepassados.
Tudo que conheço, descende de ti.
Como se houvesse uma genética comum
a todos que por ti se enamoram.
Não há atmosfera sem que voes!
Não há música sem que fales!
Até as varinas, velhas e teimosas
de canastra na cabeça
são uma orquestra que diriges
Brandindo-me dia fora como uma batuta.
Não há artesão, bandido ou herói
que não te tenha na ponta dos dedos
ou na máscara do anonimato.
Quem me dera ser demente!
Quem de dera estar louco!
Sem terapia, apenas tu.
Sem sucesso, apenas tu.
Quero sentir um dejá vu eterno.
Sincronizar o meu pulso com o teu
e saber-nos distintos, como um só.

Zéphyro 09-06-2104

Salto da falésia

Não podia assustar-me mais o salto da falésia.
Ter os pés cravados no limite do abismo
e sentir o vento revolto
a afagar-me os cabelos,
enquanto a sua mão, fria,
tenta precipitar-me, lá no fundo
da garganta azul e mordaz que me chama.
Como podia adivinhar que, cá em cima,
tudo era tão melindroso,
tudo era tão ventoso,
tudo se agigantava?
Têm-me falado maravilhas deste miradouro.
Que é o pódio dos triunfantes da azáfama,
que é o pedestal dos santos que pecam,
que é o altar, de quem foi rei por um dia.
Como podia eu saber, que, sem que me empurrem,
não verei o meu corpo combalido
arremessado no vazio de um sonho?
Cuidei que seria a vontade própria
a apropriar-se da minha própria vontade.
Julguei-me uma moeda,
daquelas que a superstição
atira aos lagos e fontes.
Mas já não sei onde para a minha sorte.
Pensei trazer fortuna ao meu futuro,
mas é tão assustador o barulho que se ouve aqui.
E o caminho de volta para baixo,
quem me ensina?
Jamais poderei descer por onde subi
e o salto... assusta-me como gritos que oiço
vindos lá do horizonte
para onde me falta a coragem de rumar.
Como sabe ele o meu nome?
Quem lhe terá dito, que é hoje o dia?
Que reservei hoje lugar para a viagem
que me recuso agora a iniciar?
Que vá vazio o meu assento!
Ah, como queria eu voltar atrás,
ou ter os fígados para ir em frente.
Mas é tão alto o pesadelo desta encosta,
tão sinuoso o piso da falésia,
recortado pelos sopros do martírio,
pelo vento denso
que só quer martirizar-me.
 
 
 
Zéphyro 06-06-2014

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Desterro

Brita, gravilha, pedra e areia.
A paisagem que se estende
perante os teus olhos tristes de Agosto.
Terra árida, lugar de ninguém.
Sol, vento, sombra e morte.
As agruras que enfrentas
no caminho que percorres sem gozo.
Solo inóspito, lar sem gente.
Maldição, trovoada, solidão insana.
O que te oferece o céu do alto de si.
Cúpula nebulosa, fim dos tempos, barreira do real.
Brita, gravilha, terra e argila.
O teu que não te pertence
mas onde estás desterrado e desarmado.
Lugar sem vida para viver.
Agora que chove e se ouve
o som da chuva solene
a fazer-te companhia no assombro.
Agora que venta e chega
o outono frio que te enterra os pés.
Areias movediças que caminham os teus passos.
Agora que está escuro demais no chão do caminho
e que a luz te aflige e escapa entre os dedos,
qual cavalo selvagem que não se deixa arrear.
Morte, silêncio, nada para além do nada que és.
A solidão que te encerra a sanidade.
O momento porque esperas no mundo que desconheces.
Que cuidavas teu e a quem pertences.
Sibéria ocidental e acidentada.
Troca-se o justo pelo pecador.
O servo pelo imperador,
e a noite escura que te aguarda,
é o para sempre onde um dia
debaixo de sete palmos sossegará o teu ninguém.

Zéphyro 05-06-2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

De visita

As rosas dão-te pelos joelhos
nesse campo onde te passeias.
Pode ver-se pelos vários arranhões nas tuas canelas.
Tão rubros que consigo conta-los
à vista desarmada, da janela do meu calabouço.
As cores são mil
nesse jardim imenso onde te recrias.
Posso ver as tonalidades a mudar
enquanto agarro tenazmente
as barras que me sustêm.
Seguro-as como se te segurasse a ti
nos meu braços sem perdão.
Deitada miras o céu.
Pareces contar as estrelas e os mundos
embora seja ainda dia alto
fora do cárcere que me encerra.
Embora se oiça ainda o canto das aves diurnas
que te sobrevoam sem o desalento
que sinto, aqui, desterrado,
longe dos novos mundos que contas,
que representas, onde existes...
O verde dos fetos ilumina-te o olhar,
que julgo castanho mel,
cá do alto onde me sinto abaixo.
Abaixo do cão que corre contigo, sem trela.
Do cão livre e feliz que ciranda em teu redor
enquanto não me olhas de volta.
As rosas marcam-te a pele, porque é tua!
Eu, de cá de cima, de cá de dentro,
não posso dar-me ao luxo de ser dono
de qualquer das marcas ferradas no meu ser.
O meu ser já não é meu.
O meu ser já não é ser.
O meu ser, és tu!
Criança, livre...
O meu ser caminha por onde caminhas!
Pisa verdura, cheira o mar de perto.
O meu ser, longe de mim,
és tu quem o tem, guardado na algibeira
do teu vestido de primavera.
enquanto eu, me procuro em mim,
nos buracos da minha farda riscada.

Zéphyro 04-06-2014

Polaridades

Há no mundo pelo menos um parvo por cada génio.
Há alguém que rouba para neutralizar a bondade
de um alguém que cede, um alguém que dá.
O universo é polarizado... dizem.
A cada sorriso genuíno, a cada gargalhada,
corresponde um pranto, um lamento, uma dor.
Tantas são as beldades, que trazem esperança ao pobre
como os camafeus, que enojam os ricos.
Como é possível que respirem do mesmo ar?!
Há uma nova vida, um novo começo,
em cada morte, em cada culminar da história.
O universo é uma balança... dizem.
Voam gaivotas, desabrocham lírios, implodem as ondas do mar,
a chuva lava os passeios, o sol leva o breu
e o vento lava os céus e devolve-lhes o futuro.
Crianças morrem sem nascer, mundos desabam sem emergir,
sonhos passam sem ficar e as tempestades são cada vez mais fortes.
O cosmos tira tudo o que dá... dizem.
E eu acredito.
O mundo, dá algo, a cada algo que nos subtrai.
Acreditas tu?
Terá uma ordem a desordem em que vivemos?
Haverá uma lista de acontecimentos,
que vão sendo riscados como produtos
que eliminamos no papel que trazemos em mãos
enquanto deambulamos pelo supermercado?
Quem decide o que já passou e o que falta ainda viver?
Quem faz a lista de compras que nos encherá o lar?
Como se fossemos um só agregado, um só equilíbrio
que teima em ziguezaguear cruzando constantemente a linha.
sim! Há uma linha que separa tudo.
O certo do errado, o bem do mal,
a sorte do azar, o prazer da obrigação,
a vida da morte.
O que eu gosto, do que eu não gosto,
o que eu já vi, do que eu nem sonho ver ainda.
Ou então, é tudo publicidade.
Um longo e cativante anuncio.
Musicado, bailado, colorido.
Propaganda pura com que somos mimados
por nós mesmos.
Manobras de diversão
que nos apartam do que não temos coragem de encarar.
A vida é justa! Causa efeito.
Tu roubas, eu padeço.
Tu matas, eu pago.
Tu ris, eu lamento.
Tu avanças, eu quebro.
Tu triunfas, eu mereço.
Tu chegas, eu parto.
Tu esqueces, eu lembro.
Uma borboleta bate as asas em ti
e eu, fujo para a cave.
Carregado de mantimentos,
para evitar o furacão que começou lá fora.
A vida é nossa... dizem.

Zéphyro 04-06-2014

Animosidade Natural

Como gostava eu de pontapear a boca do infinito.
Sentir-lhe os dentes partir na biqueira das minhas botas,
vê-lo sucumbir à potência do embate.
Como seria bom subjuga-lo a mim.
Á minha vontade desavinda.
Vê-lo abnegado, de joelhos, implorando a minha misericórdia.
Um dia, prometo, desafiarei o rei numa luta pelo trono.
Vazarei a sua pele com a minha lâmina
e ficarei impávido a assistir enquanto se esvai
e se afoga no charco dos próprios fluidos.
Serei eu mesmo a coordenar os festejos fúnebres
e, palavra, respeitarei dignamente os restos do meu adversário deposto.
Eu mesmo atirarei a primeira flor para a cova,
seguido do primeiro punhado de terra
que deixará no ar um eco seco e lamentado
após bater nas tábuas confinadas.
Inaugurarei o banquete, com as mais refinadas iguarias.
Serão elas o adeus inglório do povo ao regente que as esmifrou outrora.
Depois, com gosto, desposarei a rainha.
Com desdém, com orgulho, com a fome enraivecida que jamais sonhei sentir.
Condenarei à fogueira os seus rebentos.
Do maior ao mais pequeno.
Apenas para encerrar uma era, para desterrar um mito,
para derrubar a última barreira que me impede de ter o mundo nas mãos.
Que me segura e evita que eu chegue ao topo da minha sina.
Ao cume do meu destino, ao culminar de todos os meus dotes.

Zéphyro  03-06-2014