quarta-feira, 4 de junho de 2014

De visita

As rosas dão-te pelos joelhos
nesse campo onde te passeias.
Pode ver-se pelos vários arranhões nas tuas canelas.
Tão rubros que consigo conta-los
à vista desarmada, da janela do meu calabouço.
As cores são mil
nesse jardim imenso onde te recrias.
Posso ver as tonalidades a mudar
enquanto agarro tenazmente
as barras que me sustêm.
Seguro-as como se te segurasse a ti
nos meu braços sem perdão.
Deitada miras o céu.
Pareces contar as estrelas e os mundos
embora seja ainda dia alto
fora do cárcere que me encerra.
Embora se oiça ainda o canto das aves diurnas
que te sobrevoam sem o desalento
que sinto, aqui, desterrado,
longe dos novos mundos que contas,
que representas, onde existes...
O verde dos fetos ilumina-te o olhar,
que julgo castanho mel,
cá do alto onde me sinto abaixo.
Abaixo do cão que corre contigo, sem trela.
Do cão livre e feliz que ciranda em teu redor
enquanto não me olhas de volta.
As rosas marcam-te a pele, porque é tua!
Eu, de cá de cima, de cá de dentro,
não posso dar-me ao luxo de ser dono
de qualquer das marcas ferradas no meu ser.
O meu ser já não é meu.
O meu ser já não é ser.
O meu ser, és tu!
Criança, livre...
O meu ser caminha por onde caminhas!
Pisa verdura, cheira o mar de perto.
O meu ser, longe de mim,
és tu quem o tem, guardado na algibeira
do teu vestido de primavera.
enquanto eu, me procuro em mim,
nos buracos da minha farda riscada.

Zéphyro 04-06-2014

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