Morto e cheio de escoriações na pele
decomposta pela água e curada pelo sal.
Trazia nas órbitas o vazio dos corvos
e na boca a podridão do escorbuto,
além de um ou outro bivalve esperneante.
Certamente, foi violentado
e espancado, durante séculos no mar.
O seu nome vinha cuspido pelas marés,
mesclado com os restos de algas
que as gaivotas debicavam descaradas.
-Olha o que fizeram de ti mestre!
Largado como os despojos de um pirata,
amarado, como carga em excesso
arremessada borda fora pela trupe.
Vinha vestido com os trapos de outrora
mas, do seu garboso chapéu de bicos
nem sinal, que enfeitou a cabeça de um tritão,
ou de uma sereia, sei lá eu.
Talvez tenha ficado largado pela corrente,
numa outra praia distante,
onde os pássaros pintam do alto as rochas.
O Infante, pobre infame,
deu à costa pela manhã.
Ou terá sido de madrugada?
Sim que por estar já tracejado
a rosa o horizonte,
não quer dizer que seja alvorada.
-Tu que o digas mestre,
que fizeste nascer os dias
e não chegaste a ser manhã.
Manhã, era louvar os astrolábios
que te levaram a atravessar oceanos.
Já não se navega pelas as estrelas, agora.
Usamos satélites e mapas e cartas.
Já não desconhecemos o destino, agora.
Temos filhos e terras do outro lado.
A rosa dos ventos, já só é um símbolo no casco do navio
apagado, onde esqueceram as pétalas e o norte.
Já não és mestre ou professor, Infante.
És passado e herança, deixados para trás.
Zéphyro - 11-06-2014
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