O meu patrão é um animal,
trata-me como lixo,
só porque sabe o quanto preciso do emprego.
Faz-me ficar de empreitada,
de um dia para o outro,
sem dormir e quase sem comer
e sem receber nada em troca pelo esforço.
Faço tudo e fico calado,
não tenho coragem de reivindicar
ou ainda perco o sustento.
Quando tenho a sorte de ir a casa,
geralmente semi desmaiado pela fraqueza,
só já tenho força para bater na mulher.
Para lhe infernizar a vida porque posso,
ali posso, quem manda sou eu!
Ao fim de semana, vou sempre caçar
com os amigos cobardes como eu,
que moram lá no casario.
Passa em correria saltitante a lebre
e eu nada hesitante,
miro-a pela ponta da espingarda
e alvejo-a, em cheio num dos flancos traseiros.
Quando não sou caçador,
sou a presa da sociedade.
Que me oprime e reprime e obriga
a obedecer a regras que abomino,
mas que sigo à risca, pois tenho medo.
Quando não visto as minhas calças,
camufladas de verde pardo,
não tenho mira para atirar em ninguém.
Nem sequer tenho braços para poder
com o peso másculo da caçadeira.
Sou um homem doente...
Passo horas em salas de espera,
porque os ricos sempre me passam à frente.
Nada digo, pois lá no fundo,
concordo com a minha inferior condição
de pobre que já se habituou a esperar.
Nas caçadas de fim de semana,
quando me digno a esperar,
culmino a espera com uma chumbada,
bem valente, mesmo no meio do peito,
de um veadozito escondido na folhagem.
Quase nunca falho, pois é boa
a minha pontaria e ainda maior
é a minha coragem, quando tenho a arma na mão.
Talvez um dia, a leve para os sítios
onde todos parecem melhores que eu.
Para os cafés onde todos são atendidos primeiro,
para os supermercados onde sou ludibriado na fila,
ou para as reuniões de condomínio,
onde nunca tenho voz que chegue para me fazer ouvir.
Oxalá então tenha a coragem para esperar...
Zéphyro 15-08-2015
domingo, 16 de agosto de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Traidor, delactor, filho da mãe...
O estafermo abriu a boca,
chibou-se todo e entregou,
num penico de louça,
os nossos nomes orgulhosos da pátria.
Traidor, delactor, filho da mãe...
Nem pelas horas em que o seu ser
era o nosso ser e o nosso ser o ser dele.
Nem pelas lutas, nem pelas putas,
feias e fajutas das ruelas de Portugal.
O patife desbocou-se,
e borrou-se dos afagos que levou.
Descodificou as nossas patentes
e entregou as nossas gentes ao deus de ará,
que já conhece os nossos credos
e o altar onde sacrificamos as nossas virgens,
se é que ainda as há.
Traidor, delactor, filho da mãe...
para não lhe chamar de piores nomes,
que bem merece por dizer tudo
a todos os que o quiseram saber.
Disse dos nossos esconderijos,
disse das nossas deambulações
e até contou da desventura das nossas viúvas,
sozinhas com um nome que já ninguém usa.
Nem pelas fogueiras que saltamos unos,
nem pelas bebedeiras que nos fizeram
desafiar vezes sem conta a vida.
Ora nos cornos de um touro preto à solta,
ora nos desfiladeiros da nossa liberdade.
Uma e outra vez fomos uns a alma dos outros,
uns o coração e a febre e o tesão dos outros.
Traidor, delactor, filho da mãe que também é nossa.
Zéphyro 11-08-2015
chibou-se todo e entregou,
num penico de louça,
os nossos nomes orgulhosos da pátria.
Traidor, delactor, filho da mãe...
Nem pelas horas em que o seu ser
era o nosso ser e o nosso ser o ser dele.
Nem pelas lutas, nem pelas putas,
feias e fajutas das ruelas de Portugal.
O patife desbocou-se,
e borrou-se dos afagos que levou.
Descodificou as nossas patentes
e entregou as nossas gentes ao deus de ará,
que já conhece os nossos credos
e o altar onde sacrificamos as nossas virgens,
se é que ainda as há.
Traidor, delactor, filho da mãe...
para não lhe chamar de piores nomes,
que bem merece por dizer tudo
a todos os que o quiseram saber.
Disse dos nossos esconderijos,
disse das nossas deambulações
e até contou da desventura das nossas viúvas,
sozinhas com um nome que já ninguém usa.
Nem pelas fogueiras que saltamos unos,
nem pelas bebedeiras que nos fizeram
desafiar vezes sem conta a vida.
Ora nos cornos de um touro preto à solta,
ora nos desfiladeiros da nossa liberdade.
Uma e outra vez fomos uns a alma dos outros,
uns o coração e a febre e o tesão dos outros.
Traidor, delactor, filho da mãe que também é nossa.
Zéphyro 11-08-2015
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Deuses de cativeiro
A cave era mais escura
que uma noite sem luar,
até porque não tinha janelas
e não interessava se havia ou não lua
e se havia ou não céu lá fora.
No tecto, a pequena gambiarra,
pendurada pelo gancho numa trave,
raramente acendia.
Apenas quando chegava o pão
e o couro do cinto ou o bambu
das varas que assobiam antes de aterrar.
Apenas quando vinha o carcereiro,
verificar o silêncio da mordaça
e o aperto tenaz dos atilhos,
nascia o sol pálido no mundo.
E que mundo... sujo, pequeno,
bafiento, prisioneiro no final das escadas
que vinham de cima, talvez do céu.
A cave era húmida como a tísica
e a tosse que não tem o que beber.
A cave rangia como madeira podre,
talvez por ser de madeira... e estar podre.
E se um naco de mundo caísse, um dia,
e soltasse os atilhos da trave
invariavelmente de pé?
No escuro, a sombra não brilha.
Porém, uma corrida só vale
se há pernas com carne para ela.
A cave, o mundo, faz doer a barriga,
e só a côdea dura de um pão,
uma vez ao dia, nem sei se de manhã
ou se pela noite,
não enche pulmão nem enche o corpo
de força e agilidade.
Fugir do mundo,
só pela porta da frente,
coagindo o carcereiro.
Ludibriando o carcereiro
com a astúcia sociopata
que fica no fundo de um corpo esfomeado,
agarrado aos seus restos
como arroz queimado
se agarra ao fundo de uma panela.
A cave era escura,
mas a cabeça era um coagulo pulsante,
mais escuro ainda,
sem traves onde pendurar gambiarras
que simulam o sol verdadeiro
que deve existir algures.
A cabeça era mais sinuosa
que a queda das escadas
que vinham do alto do mundo.
A cabeça fazia pilhagens na aurora,
desvirginava navalhas e cacos de garrafa.
Estrangulava com os atilhos
todos os pescoços distraídos
e mordia até saciar a fome de carne
uma bochecha que se aproximava
para contar ou ouvir um segredo ou um lamento.
A cabeça, podia correr escada acima,
chegar ao céu e ordenar a luz...
para que a cave não seja tão escura.
Há deuses, que cresceram em cativeiro
sem serem por isso menores
que os maiores deuses da humanidade.
Que cresceram em liberdade nas ruas,
motivados pela astúcia sociopata
que jaz no fundo de um corpo saciado,
enamorado pelos restos de si mesmo,
como o deus de cativeiro pela luz que não conhece.
Quem cresce prisioneiro de alguém,
acaba por viver sempre
prisioneiro de si mesmo.
Os deuses de cativeiro,
tiveram todo o tempo do mundo
para ouvir o que a vida lhes dizia,
para cheirar o que a vida lhes cozinhava,
para saborear o pitéu que ela lhes servia.
Sempre só ouviam o próprio medo,
só cheiravam a própria vergonha e fezes,
só saboreavam a própria carne
e o ferro que fica no céu da boca
quando não há nada que o tempere.
A cave, era escura.
Mais escura que o mar apagado
sem estrelas que reflectir.
E pesava, oprimia, detonava...
Mas nela, só ficam encarcerados os ossos,
que a alma é um deus, exilado em qualquer lugar.
Zéphyro 10-08-2015
que uma noite sem luar,
até porque não tinha janelas
e não interessava se havia ou não lua
e se havia ou não céu lá fora.
No tecto, a pequena gambiarra,
pendurada pelo gancho numa trave,
raramente acendia.
Apenas quando chegava o pão
e o couro do cinto ou o bambu
das varas que assobiam antes de aterrar.
Apenas quando vinha o carcereiro,
verificar o silêncio da mordaça
e o aperto tenaz dos atilhos,
nascia o sol pálido no mundo.
E que mundo... sujo, pequeno,
bafiento, prisioneiro no final das escadas
que vinham de cima, talvez do céu.
A cave era húmida como a tísica
e a tosse que não tem o que beber.
A cave rangia como madeira podre,
talvez por ser de madeira... e estar podre.
E se um naco de mundo caísse, um dia,
e soltasse os atilhos da trave
invariavelmente de pé?
No escuro, a sombra não brilha.
Porém, uma corrida só vale
se há pernas com carne para ela.
A cave, o mundo, faz doer a barriga,
e só a côdea dura de um pão,
uma vez ao dia, nem sei se de manhã
ou se pela noite,
não enche pulmão nem enche o corpo
de força e agilidade.
Fugir do mundo,
só pela porta da frente,
coagindo o carcereiro.
Ludibriando o carcereiro
com a astúcia sociopata
que fica no fundo de um corpo esfomeado,
agarrado aos seus restos
como arroz queimado
se agarra ao fundo de uma panela.
A cave era escura,
mas a cabeça era um coagulo pulsante,
mais escuro ainda,
sem traves onde pendurar gambiarras
que simulam o sol verdadeiro
que deve existir algures.
A cabeça era mais sinuosa
que a queda das escadas
que vinham do alto do mundo.
A cabeça fazia pilhagens na aurora,
desvirginava navalhas e cacos de garrafa.
Estrangulava com os atilhos
todos os pescoços distraídos
e mordia até saciar a fome de carne
uma bochecha que se aproximava
para contar ou ouvir um segredo ou um lamento.
A cabeça, podia correr escada acima,
chegar ao céu e ordenar a luz...
para que a cave não seja tão escura.
Há deuses, que cresceram em cativeiro
sem serem por isso menores
que os maiores deuses da humanidade.
Que cresceram em liberdade nas ruas,
motivados pela astúcia sociopata
que jaz no fundo de um corpo saciado,
enamorado pelos restos de si mesmo,
como o deus de cativeiro pela luz que não conhece.
Quem cresce prisioneiro de alguém,
acaba por viver sempre
prisioneiro de si mesmo.
Os deuses de cativeiro,
tiveram todo o tempo do mundo
para ouvir o que a vida lhes dizia,
para cheirar o que a vida lhes cozinhava,
para saborear o pitéu que ela lhes servia.
Sempre só ouviam o próprio medo,
só cheiravam a própria vergonha e fezes,
só saboreavam a própria carne
e o ferro que fica no céu da boca
quando não há nada que o tempere.
A cave, era escura.
Mais escura que o mar apagado
sem estrelas que reflectir.
E pesava, oprimia, detonava...
Mas nela, só ficam encarcerados os ossos,
que a alma é um deus, exilado em qualquer lugar.
Zéphyro 10-08-2015
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Podias ter sido tudo o que quisesses
Quando eras petiz ainda,
trazias sempre uma das mãos
agarrada na bainha das saias da tua mãe.
A outra, usavas para subtrair o mundo,
para arrancar-lhe pequenos pedaços,
dos quais te ias alimentando
enquanto te destacavas das multidões.
Podias ter sido o menino de ouro
de qualquer casal de elite,
o primogénito herdeiro legítimo
de qualquer fortuna do mundo.
Podias ter sido tudo o que quisesses.
Falavas pelos cotovelos
e tinhas sempre razão nos teus receios
e um ponto nas tuas questões.
Terias dado um excelente advogado
de causas perdidas, a última esperança
de um condenado para a vida.
Terias sido acérrimo de punhos cerrados
eriçando os pêlos de qualquer barra,
de qualquer tribunal.
Podias ter sido quem quisesses.
Podias ter sido um homem,
podias ter sido uma mulher,
até podias ser um grupo inteiro de gente
tal era o espaço que preenchias
com todo o teu saber.
Quando eras adolescente,
fazias-te deslocar pelo pequeno mundo enmurado,
seguido de perto por um arraial
de adolescentes como tu,
que te viam como uma espécie de profeta,
de todo um novo significado para as palavras.
Podias ter sido um magnânimo professor,
um mestre, que tiraria da cama
o maior dos gazeteiros
apenas com o carisma dos seus ensinamentos.
Podias ter sido tudo o que quisesses ser...
Quisesses tu ter sido algo.
Em que troço do caminho
perdeste tu a tua genialidade?
Terás esquecido tudo o quanto
quiseste um dia mostrar ao mundo?
Como se fosses o portador das imagens,
o tutor legal de todas as pinturas,
de todos os maiores artistas.
Podias ter sido o maior dos poetas
da era moderna e, na futura,
far-te-ias acompanhar pelos maiores
pensadores e filósofos da história.
Infelizmente, és só um defunto erguido,
que fala e mexe as pernas
como uma marioneta que alguém manipula
à distância segura de uma geração ou duas.
Podias ter tido o universo, qual bola,
a rolar-te nas palmas abertas.
Podias ter sido tu,
a operar a maior das marionetas.
Se não tivesses, algures, despojado o teu corpo
de toda a liberdade que precisas
para que o teu cérebro
queira correr o mundo de lés a lés.
Podias ter sido tudo que quisesses,
mas não és!
Zéphyro 07-08-2015
trazias sempre uma das mãos
agarrada na bainha das saias da tua mãe.
A outra, usavas para subtrair o mundo,
para arrancar-lhe pequenos pedaços,
dos quais te ias alimentando
enquanto te destacavas das multidões.
Podias ter sido o menino de ouro
de qualquer casal de elite,
o primogénito herdeiro legítimo
de qualquer fortuna do mundo.
Podias ter sido tudo o que quisesses.
Falavas pelos cotovelos
e tinhas sempre razão nos teus receios
e um ponto nas tuas questões.
Terias dado um excelente advogado
de causas perdidas, a última esperança
de um condenado para a vida.
Terias sido acérrimo de punhos cerrados
eriçando os pêlos de qualquer barra,
de qualquer tribunal.
Podias ter sido quem quisesses.
Podias ter sido um homem,
podias ter sido uma mulher,
até podias ser um grupo inteiro de gente
tal era o espaço que preenchias
com todo o teu saber.
Quando eras adolescente,
fazias-te deslocar pelo pequeno mundo enmurado,
seguido de perto por um arraial
de adolescentes como tu,
que te viam como uma espécie de profeta,
de todo um novo significado para as palavras.
Podias ter sido um magnânimo professor,
um mestre, que tiraria da cama
o maior dos gazeteiros
apenas com o carisma dos seus ensinamentos.
Podias ter sido tudo o que quisesses ser...
Quisesses tu ter sido algo.
Em que troço do caminho
perdeste tu a tua genialidade?
Terás esquecido tudo o quanto
quiseste um dia mostrar ao mundo?
Como se fosses o portador das imagens,
o tutor legal de todas as pinturas,
de todos os maiores artistas.
Podias ter sido o maior dos poetas
da era moderna e, na futura,
far-te-ias acompanhar pelos maiores
pensadores e filósofos da história.
Infelizmente, és só um defunto erguido,
que fala e mexe as pernas
como uma marioneta que alguém manipula
à distância segura de uma geração ou duas.
Podias ter tido o universo, qual bola,
a rolar-te nas palmas abertas.
Podias ter sido tu,
a operar a maior das marionetas.
Se não tivesses, algures, despojado o teu corpo
de toda a liberdade que precisas
para que o teu cérebro
queira correr o mundo de lés a lés.
Podias ter sido tudo que quisesses,
mas não és!
Zéphyro 07-08-2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O Rei vai nu
Sonhei-me num sonho de verão,
senhor de todas as coisas,
dono de todas as praias
e rei de todas as ninfas.
Sonhei-me acordado e ao meu lado,
um criado mudo não tão mudo
quanto eu desejava que fosse.
Um criado, com gavetas e, nas gavetas,
um fundo falso escondido,
onde estão reféns todos os segredos
sórdidos e surdos que me fazem majestade.
Sonhei-me num sonho de verão,
nu e transpirado, cheio de areia
colada em grãos aos detalhes do meu corpo,
não tão firme, não tão duro,
que os sonhos raramente se deixam agarrar.
Caminhei no chão do sonho,
caminhei horas e gelei os pés
nas águas que, se escolhesse, estariam cálidas
como os beijos de uma boca maravilhada.
Mas não escolho e vou nu
e as águas são frias e escuras demais
para uma tarde de verão.
As rochas são sujas e a areia preta
e as algas roubam do ar à descarada
o perfume de ti, nua no meu encalço.
- O Rei vai nu! Dizes...
E eu, deixo que digas,
pois no sonho em que me sonhei,
sou realmente rei e vou nu na realidade.
Zéphyro 03-08-2015
senhor de todas as coisas,
dono de todas as praias
e rei de todas as ninfas.
Sonhei-me acordado e ao meu lado,
um criado mudo não tão mudo
quanto eu desejava que fosse.
Um criado, com gavetas e, nas gavetas,
um fundo falso escondido,
onde estão reféns todos os segredos
sórdidos e surdos que me fazem majestade.
Sonhei-me num sonho de verão,
nu e transpirado, cheio de areia
colada em grãos aos detalhes do meu corpo,
não tão firme, não tão duro,
que os sonhos raramente se deixam agarrar.
Caminhei no chão do sonho,
caminhei horas e gelei os pés
nas águas que, se escolhesse, estariam cálidas
como os beijos de uma boca maravilhada.
Mas não escolho e vou nu
e as águas são frias e escuras demais
para uma tarde de verão.
As rochas são sujas e a areia preta
e as algas roubam do ar à descarada
o perfume de ti, nua no meu encalço.
- O Rei vai nu! Dizes...
E eu, deixo que digas,
pois no sonho em que me sonhei,
sou realmente rei e vou nu na realidade.
Zéphyro 03-08-2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)