terça-feira, 11 de agosto de 2015

Traidor, delactor, filho da mãe...

O estafermo abriu a boca,
chibou-se todo e entregou,
num penico de louça,
os nossos nomes orgulhosos da pátria.
Traidor, delactor, filho da mãe...
Nem pelas horas em que o seu ser
era o nosso ser e o nosso ser o ser dele.
Nem pelas lutas, nem pelas putas,
feias e fajutas das ruelas de Portugal.
O patife desbocou-se,
e borrou-se dos afagos que levou.
Descodificou as nossas patentes
e entregou as nossas gentes ao deus de ará,
que já conhece os nossos credos
e o altar onde sacrificamos as nossas virgens,
se é que ainda as há.
Traidor, delactor, filho da mãe...
para não lhe chamar de piores nomes,
que bem merece por dizer tudo
a todos os que o quiseram saber.
Disse dos nossos esconderijos,
disse das nossas deambulações
e até contou da desventura das nossas viúvas,
sozinhas com um nome que já ninguém usa.
Nem pelas fogueiras que saltamos unos,
nem pelas bebedeiras que nos fizeram
desafiar vezes sem conta a vida.
Ora nos cornos de um touro preto à solta,
ora nos desfiladeiros da nossa liberdade.
Uma e outra vez fomos uns a alma dos outros,
uns o coração e a febre e o tesão dos outros.
Traidor, delactor, filho da mãe que também é nossa.


Zéphyro   11-08-2015

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