domingo, 16 de agosto de 2015

Uma arma na mão, nunca será um par de tomates

O meu patrão é um animal,
trata-me como lixo,
só porque sabe o quanto preciso do emprego.
Faz-me ficar de empreitada,
de um dia para o outro,
sem dormir e quase sem comer
e sem receber nada em troca pelo esforço.
Faço tudo e fico calado,
não tenho coragem de reivindicar
ou ainda perco o sustento.
Quando tenho a sorte de ir a casa,
geralmente semi desmaiado pela fraqueza,
só já tenho força para bater na mulher.
Para lhe infernizar a vida porque posso,
ali posso, quem manda sou eu!
Ao fim de semana, vou sempre caçar
com os amigos cobardes como eu,
que moram lá no casario.
Passa em correria saltitante a lebre
e eu nada hesitante,
miro-a pela ponta da espingarda
e alvejo-a, em cheio num dos flancos traseiros.
Quando não sou caçador,
sou a presa da sociedade.
Que me oprime e reprime e obriga
a obedecer a regras que abomino,
mas que sigo à risca, pois tenho medo.
Quando não visto as minhas calças,
camufladas de verde pardo,
não tenho mira para atirar em ninguém.
Nem sequer tenho braços para poder
com o peso másculo da caçadeira.
Sou um homem doente...
Passo horas em salas de espera,
porque os ricos sempre me passam à frente.
Nada digo, pois lá no fundo,
concordo com a minha inferior condição
de pobre que já se habituou a esperar.
Nas caçadas de fim de semana,
quando me digno a esperar,
culmino a espera com uma chumbada,
bem valente, mesmo no meio do peito,
de um veadozito escondido na folhagem.
Quase nunca falho, pois é boa
a minha pontaria e ainda maior
é a minha coragem, quando tenho a arma na mão.
Talvez um dia, a leve para os sítios
onde todos parecem melhores que eu.
Para os cafés onde todos são atendidos primeiro,
para os supermercados onde sou ludibriado na fila,
ou para as reuniões de condomínio,
onde nunca tenho voz que chegue para me fazer ouvir.
Oxalá então tenha a coragem para esperar...


Zéphyro  15-08-2015

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