Quando eras petiz ainda,
trazias sempre uma das mãos
agarrada na bainha das saias da tua mãe.
A outra, usavas para subtrair o mundo,
para arrancar-lhe pequenos pedaços,
dos quais te ias alimentando
enquanto te destacavas das multidões.
Podias ter sido o menino de ouro
de qualquer casal de elite,
o primogénito herdeiro legítimo
de qualquer fortuna do mundo.
Podias ter sido tudo o que quisesses.
Falavas pelos cotovelos
e tinhas sempre razão nos teus receios
e um ponto nas tuas questões.
Terias dado um excelente advogado
de causas perdidas, a última esperança
de um condenado para a vida.
Terias sido acérrimo de punhos cerrados
eriçando os pêlos de qualquer barra,
de qualquer tribunal.
Podias ter sido quem quisesses.
Podias ter sido um homem,
podias ter sido uma mulher,
até podias ser um grupo inteiro de gente
tal era o espaço que preenchias
com todo o teu saber.
Quando eras adolescente,
fazias-te deslocar pelo pequeno mundo enmurado,
seguido de perto por um arraial
de adolescentes como tu,
que te viam como uma espécie de profeta,
de todo um novo significado para as palavras.
Podias ter sido um magnânimo professor,
um mestre, que tiraria da cama
o maior dos gazeteiros
apenas com o carisma dos seus ensinamentos.
Podias ter sido tudo o que quisesses ser...
Quisesses tu ter sido algo.
Em que troço do caminho
perdeste tu a tua genialidade?
Terás esquecido tudo o quanto
quiseste um dia mostrar ao mundo?
Como se fosses o portador das imagens,
o tutor legal de todas as pinturas,
de todos os maiores artistas.
Podias ter sido o maior dos poetas
da era moderna e, na futura,
far-te-ias acompanhar pelos maiores
pensadores e filósofos da história.
Infelizmente, és só um defunto erguido,
que fala e mexe as pernas
como uma marioneta que alguém manipula
à distância segura de uma geração ou duas.
Podias ter tido o universo, qual bola,
a rolar-te nas palmas abertas.
Podias ter sido tu,
a operar a maior das marionetas.
Se não tivesses, algures, despojado o teu corpo
de toda a liberdade que precisas
para que o teu cérebro
queira correr o mundo de lés a lés.
Podias ter sido tudo que quisesses,
mas não és!
Zéphyro 07-08-2015
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