segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Deuses de cativeiro

A cave era mais escura
que uma noite sem luar,
até porque não tinha janelas
e não interessava se havia ou não lua
e se havia ou não céu lá fora.
No tecto, a pequena gambiarra,
pendurada pelo gancho numa trave,
raramente acendia.
Apenas quando chegava o pão
e o couro do cinto ou o bambu
das varas que assobiam antes de aterrar.
Apenas quando vinha o carcereiro,
verificar o silêncio da mordaça
e o aperto tenaz dos atilhos,
nascia o sol pálido no mundo.
E que mundo... sujo, pequeno,
bafiento, prisioneiro no final das escadas
que vinham de cima, talvez do céu.
A cave era húmida como a tísica
e a tosse que não tem o que beber.
A cave rangia como madeira podre,
talvez por ser de madeira... e estar podre.
E se um naco de mundo caísse, um dia,
e soltasse os atilhos da trave
invariavelmente de pé?
No escuro, a sombra não brilha.
Porém, uma corrida só vale
se há pernas com carne para ela.
A cave, o mundo, faz doer a barriga,
e só a côdea dura de um pão,
uma vez ao dia, nem sei se de manhã
ou se pela noite,
não enche pulmão nem enche o corpo
de força e agilidade.
Fugir do mundo,
só pela porta da frente,
coagindo o carcereiro.
Ludibriando o carcereiro
com a astúcia sociopata
que fica no fundo de um corpo esfomeado,
agarrado aos seus restos
como arroz queimado
se agarra ao fundo de uma panela.
A cave era escura,
mas a cabeça era um coagulo pulsante,
mais escuro ainda,
sem traves onde pendurar gambiarras
que simulam o sol verdadeiro
que deve existir algures.
A cabeça era mais sinuosa
que a queda das escadas
que vinham do alto do mundo.
A cabeça fazia pilhagens na aurora,
desvirginava navalhas e cacos de garrafa.
Estrangulava com os atilhos
todos os pescoços distraídos
e mordia até saciar a fome de carne
uma bochecha que se aproximava
para contar ou ouvir um segredo ou um lamento.
A cabeça, podia correr escada acima,
chegar ao céu e ordenar a luz...
para que a cave não seja tão escura.
Há deuses, que cresceram em cativeiro
sem serem por isso menores
que os maiores deuses da humanidade.
Que cresceram em liberdade nas ruas,
motivados pela astúcia sociopata
que jaz no fundo de um corpo saciado,
enamorado pelos restos de si mesmo,
como o deus de cativeiro pela luz que não conhece.
Quem cresce prisioneiro de alguém,
acaba por viver sempre
prisioneiro de si mesmo.
Os deuses de cativeiro,
tiveram todo o tempo do mundo
para ouvir o que a vida lhes dizia,
para cheirar o que a vida lhes cozinhava,
para saborear o pitéu que ela lhes servia.
Sempre só ouviam o próprio medo,
só cheiravam a própria vergonha e fezes,
só saboreavam a própria carne
e o ferro que fica no céu da boca
quando não há nada que o tempere.
A cave, era escura.
Mais escura que o mar apagado
sem estrelas que reflectir.
E pesava, oprimia, detonava...
Mas nela, só ficam encarcerados os ossos,
que a alma é um deus, exilado em qualquer lugar.


Zéphyro  10-08-2015

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