quinta-feira, 21 de junho de 2018

Leio-te

Leio-te como quem lê a bíblia.
Humedeço o dedo com saliva
e rogo em cada página por salvação.

Leio-te e sinto-me parte da sagrada família,
encontro o rebanho que me salva da deriva
e a cada salmo, a luz ganha terreno à escuridão.

Leio-te como se lê um jornal,
como parte da rotina matinal,
em busca das novidades do dia.

Leio, em júbilo, que nada aconteceu de mal,
o tempo está óptimo e toda a gente feliz a nível mundial
e acabou-se a fome e a guerra para abrir lugar à saciada alegria.

Leio-te como leio uma novela
e nunca deixo de ler também a sequela,
para saber como termina o herói.

Leio em algumas páginas Camilo numa cela,
noutras toda a beleza de Florbela
e ainda sobra espaço para a lucidez de Tolstoi.

Leio-te atento, como se lê uma bula
e não há pílula nenhuma que eu engula
sem te consultar primeiro.

Leio para saber do efeito e do que o anula,
se há contra indicações e até decoro a fórmula,
como se fosse um académico verdadeiro.

Leio-te e tudo aprendo nas tuas linhas.
Do calor do deserto, às asas negras das andorinhas,
voando livres em céu aberto.

Leio tudo que és e faço das tuas palavras minhas,
só sei que nada sei e nada saberia se não tinhas
aparecido para letrar-me quando eu era analfabeto.


Zéphyro 21/06/2018