Quando nasci, nasci sozinho.
Eu, pequeno e o mundo enorme,
a dar-me palmadas no rabo.
Todo ele olhos mascarados
e "toma lá isto" de mão em mão.
De lá para hoje, foi um sopro.
Prolongado e quente
que se sente na nuca e no cachaço.
Como um alguém omisso,
sempre presente nas costas,
a bafejar-me para cima...
... quiçá a sua sorte.
Quando nasci, nasceram todos.
Palmadas só para mim,
mas toda uma multidão surgiu,
proliferou e ergueu mundos.
Pequenos impérios que se entreteve,
entretanto, a dissolver.
Sociedades burguesas,
iluminadas pelo lado obscuro
do sentido de todas as coisas.
Prostitutas e fundos de garrafa,
deus e pátria e tudo...
... todos da minha idade.
Quando nasci, não havia antes.
Nem passado nem herança,
ou dinossauros e cruzadas.
Memórias alheias de alguém,
como maravilhas e unicórnios
e jardins suspensos da babilónia.
No máximo, tudo irmãos,
sem mão comum, que nem mãe temos,
verdade seja dita.
Um acto de fé apenas
como sombras nos telhados da cidade.
Vultos saltitantes que se lançam
no vazio da noite sem rede.
Quando morrer levo tudo.
O que tive e o que não cheguei
a acolher com os sentidos cinco
como os continentes por onde andei.
Todos os beijos, abraços, pontapés
e as guerras que não vivi.
Quando morrer, não mais palmadas.
Tudo luto que se cuida
como se continuasse a existir.
Zéphyro 24-07-2014
sexta-feira, 25 de julho de 2014
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Castelos vistos do céu
Os erectos castelos do ocidente
não conseguem impedir as andorinhas
de pousarem nos seus beirais.
Não conseguem sacudir os voos picados
que deixam paus e palhas nos algerozes.
Quanto durará um minuto visto do céu?
Por entre as penas em círculos
agitadas como batutas em sinfonia,
de entre nuvens e ventos
e foguetes de arraial.
Quanto levará uma vida a desaparecer
para as profundezas, levando consigo as marcas
que cá deixou como mão transpirada em tampo de vidro?
Como raio xis em chapa negra e sem graça.
Que quase sempre traz notícias
de um edema pulmonar terminal.
A migração é o tanas e ás tantas
já nem se distingue quem chegou
de quem cá nasceu, quem partirá
de quem alimentará com os ossos a terra
onde sempre marcou os passos.
As torres continuarão altas
mesmo sem inimigos para derrubar.
Só as gaivotas em amálgama
e o prurido que deixam no fundo azul.
Continuam austeras, que o tempo é de azar
e os azares andam sempre acompanhados.
A fazer lembrar os velhos ricos
e as garrafas de espumante
defronte a brancos sorrisos
pagos a peso de ouro.
Quantos mundos se avistam
ao sobrevoar as cúpulas e os claustros?
E as damas a ler, escondidas pela sombra
das aias e dos marginais pomares
onde jamais pousam as andorinhas,
que não há ainda açúcar nos frutos.
Será apenas isto?
Ou será possível ver mais além
do alto das planagens e planícies viçosas?
Haverá outro povo mais além
a quem a migração dos passarinhos
entupa as chaminés?
Os castelos têm muralhas,
quase tão teimosas como os ninhos
que se agarram ás paredes lisas.
As paredes têm musgos
da humidade do inverno que já lá vai.
Serão um dia presépios,
quando já há muito tiverem partido
as andorinhas para ensombrar outros impérios.
Zéphyro 18/07/2014
não conseguem impedir as andorinhas
de pousarem nos seus beirais.
Não conseguem sacudir os voos picados
que deixam paus e palhas nos algerozes.
Quanto durará um minuto visto do céu?
Por entre as penas em círculos
agitadas como batutas em sinfonia,
de entre nuvens e ventos
e foguetes de arraial.
Quanto levará uma vida a desaparecer
para as profundezas, levando consigo as marcas
que cá deixou como mão transpirada em tampo de vidro?
Como raio xis em chapa negra e sem graça.
Que quase sempre traz notícias
de um edema pulmonar terminal.
A migração é o tanas e ás tantas
já nem se distingue quem chegou
de quem cá nasceu, quem partirá
de quem alimentará com os ossos a terra
onde sempre marcou os passos.
As torres continuarão altas
mesmo sem inimigos para derrubar.
Só as gaivotas em amálgama
e o prurido que deixam no fundo azul.
Continuam austeras, que o tempo é de azar
e os azares andam sempre acompanhados.
A fazer lembrar os velhos ricos
e as garrafas de espumante
defronte a brancos sorrisos
pagos a peso de ouro.
Quantos mundos se avistam
ao sobrevoar as cúpulas e os claustros?
E as damas a ler, escondidas pela sombra
das aias e dos marginais pomares
onde jamais pousam as andorinhas,
que não há ainda açúcar nos frutos.
Será apenas isto?
Ou será possível ver mais além
do alto das planagens e planícies viçosas?
Haverá outro povo mais além
a quem a migração dos passarinhos
entupa as chaminés?
Os castelos têm muralhas,
quase tão teimosas como os ninhos
que se agarram ás paredes lisas.
As paredes têm musgos
da humidade do inverno que já lá vai.
Serão um dia presépios,
quando já há muito tiverem partido
as andorinhas para ensombrar outros impérios.
Zéphyro 18/07/2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
Ampulhetas e dentadas de laranja-lima
Hoje sou todo sopa.
Sopa e carne de vaca barata,
daquela que se coze em águas de pranto.
Não que me queixe, a vida é simples agora.
Não existe sal ou pimenta
quando comemos apenas com o vagar
que nos permite a dentadura encardida
que teima em sair do lugar.
Recordo-me de quando comia ainda doces.
Do tempo que caminhava hirto,
só peito feito e duas pernas...
Que eram minhas!
Como adorei sugar o mundo
em pequenos gomos de laranja-lima
quando ainda tinha fígado e paladar.
Sentir o acre mesclar-se ao doce
que só existe quando nos deixa o tempo.
Ou quando o deixamos...
Porém, já só sopa.
Sopa e descanso deste cansaço
vítreo de cataratas.
Desta estafa pesada de areia
de tempo que já caducou
e me verga as costas rente ao chão.
Toda uma vida em cima.
Milhentos de gomos doces e amargos
transformados em caldo fumegante
que persiste na tigela tingida pelos anos.
Vejo ainda, remotamente,
O brilho da louça que já foi nova.
Sinto o cheiro dos atoalhados e lençóis
lavados com sabão e secos ao sol
que nunca nos falhava.
Se cerrar bem os olhos,
piscos pelas areias do passado,
ouço ainda o som dos bailes
e das baladas onde embalei a vida
num abraço a braços fortes.
Dois que valiam vinte
e que eram meus, só meus...
Hoje, no colo, tenho apenas
a dor que me ficou nos ossos.
Já sou só um presságio de vidente.
Já sou apenas sopa.
Todo sopa.
Zéphyro 15/07/2014
Sopa e carne de vaca barata,
daquela que se coze em águas de pranto.
Não que me queixe, a vida é simples agora.
Não existe sal ou pimenta
quando comemos apenas com o vagar
que nos permite a dentadura encardida
que teima em sair do lugar.
Recordo-me de quando comia ainda doces.
Do tempo que caminhava hirto,
só peito feito e duas pernas...
Que eram minhas!
Como adorei sugar o mundo
em pequenos gomos de laranja-lima
quando ainda tinha fígado e paladar.
Sentir o acre mesclar-se ao doce
que só existe quando nos deixa o tempo.
Ou quando o deixamos...
Porém, já só sopa.
Sopa e descanso deste cansaço
vítreo de cataratas.
Desta estafa pesada de areia
de tempo que já caducou
e me verga as costas rente ao chão.
Toda uma vida em cima.
Milhentos de gomos doces e amargos
transformados em caldo fumegante
que persiste na tigela tingida pelos anos.
Vejo ainda, remotamente,
O brilho da louça que já foi nova.
Sinto o cheiro dos atoalhados e lençóis
lavados com sabão e secos ao sol
que nunca nos falhava.
Se cerrar bem os olhos,
piscos pelas areias do passado,
ouço ainda o som dos bailes
e das baladas onde embalei a vida
num abraço a braços fortes.
Dois que valiam vinte
e que eram meus, só meus...
Hoje, no colo, tenho apenas
a dor que me ficou nos ossos.
Já sou só um presságio de vidente.
Já sou apenas sopa.
Todo sopa.
Zéphyro 15/07/2014
domingo, 13 de julho de 2014
Meu Porto, lar tão triste
O meu sangue pulsa nas tuas vielas,
veias que correm os meus braços.
Vive nas tuas ruas de meia luz
a minha consciência,
tristonha como um menino
sujo que rejubila nos becos da Sé.
Que rola com a bola, paralelo abaixo
de ranho saudável pendurado no nariz.
Sempre feliz por ser tão pobre.
Não é primeira vez cada regresso a ti,
meu Porto. Quem é teu nunca te deixa.
Mesmo rumando por toda a parte.
A casa, queda-se em qualquer lugar,
o lar, leva-se ás costas com a bagagem
e com a pele e os cabelos,
desgrenhados e cinzentos
como a cara dos teus monumentos.
Só te fujo por estar feliz,
que me envergonha trair-te assim.
Só te deixo quando durmo
que me dói deixar-te só com a insónia.
Mas és tu a minha tristeza
que procuro como quimera.
És tu a asa que me encobre
e me permite tremer em paz,
me deixa só com os meus medos
que tanto prezo temer.
As pontes hirsutas
que te unem ao resto do mundo,
estão em mim como as barras de uma jaula
onde vivo por opção,
visto o lá fora ser tão rosa.
Não és mulher como outros lares,
não és pai ou pátria, que se ame porque sim.
Resides nas entranhas de quem nasceu em ti
como os cães e as peixeiras
e as meninas e os borrachos
nas portas das tuas fachadas,
amontoadas e desdenhosas junto ao rio.
Zéphyro 13/07/2014
veias que correm os meus braços.
Vive nas tuas ruas de meia luz
a minha consciência,
tristonha como um menino
sujo que rejubila nos becos da Sé.
Que rola com a bola, paralelo abaixo
de ranho saudável pendurado no nariz.
Sempre feliz por ser tão pobre.
Não é primeira vez cada regresso a ti,
meu Porto. Quem é teu nunca te deixa.
Mesmo rumando por toda a parte.
A casa, queda-se em qualquer lugar,
o lar, leva-se ás costas com a bagagem
e com a pele e os cabelos,
desgrenhados e cinzentos
como a cara dos teus monumentos.
Só te fujo por estar feliz,
que me envergonha trair-te assim.
Só te deixo quando durmo
que me dói deixar-te só com a insónia.
Mas és tu a minha tristeza
que procuro como quimera.
És tu a asa que me encobre
e me permite tremer em paz,
me deixa só com os meus medos
que tanto prezo temer.
As pontes hirsutas
que te unem ao resto do mundo,
estão em mim como as barras de uma jaula
onde vivo por opção,
visto o lá fora ser tão rosa.
Não és mulher como outros lares,
não és pai ou pátria, que se ame porque sim.
Resides nas entranhas de quem nasceu em ti
como os cães e as peixeiras
e as meninas e os borrachos
nas portas das tuas fachadas,
amontoadas e desdenhosas junto ao rio.
Zéphyro 13/07/2014
Manuéis do mundo
Estive a contar
e há tantos Manuéis no mundo.
Só daqui da minha guarita
consigo avistar uns quantos.
Um ali, atrás da sombra de um sobreiro,
limpando o suor com o chapéu de feltro,
outro acolá, entre castanholas,
entre saias e touradas
e outro lá longe
submerso pelos escombros de um tornado.
São tantos os Manuéis
como a dor que os acarinha.
- O Manuel é esforçado.
- O Manuel é estafado.
- O Manuel é espancado.
Mas nunca perde a esperança.
São tantos os seus dotes
como os trapos sujos na gaveta,
meia vazia, deste velho mastronço
de pinho e ferro fundido.
Trapos que limparam o vexame
e a vergonha, da maçãs do seu rosto.
É tanta a sua fé,
como a fome que guarda num baú,
junto ás recordações e louçaria
que vieram lá dos montes.
Há tantos Manuéis na vida...
Uns são retornados,
outros transtornados,
alguns, apenas ultrapassados
ou trespassados pela ganância
de outros nomes mais nobres.
Vejo daqui um Manuel mais,
Um Manuel só.
Desbotado e envelhecido,
pelo reflexo deste espelho.
Zéphyro 13/07/2014
e há tantos Manuéis no mundo.
Só daqui da minha guarita
consigo avistar uns quantos.
Um ali, atrás da sombra de um sobreiro,
limpando o suor com o chapéu de feltro,
outro acolá, entre castanholas,
entre saias e touradas
e outro lá longe
submerso pelos escombros de um tornado.
São tantos os Manuéis
como a dor que os acarinha.
- O Manuel é esforçado.
- O Manuel é estafado.
- O Manuel é espancado.
Mas nunca perde a esperança.
São tantos os seus dotes
como os trapos sujos na gaveta,
meia vazia, deste velho mastronço
de pinho e ferro fundido.
Trapos que limparam o vexame
e a vergonha, da maçãs do seu rosto.
É tanta a sua fé,
como a fome que guarda num baú,
junto ás recordações e louçaria
que vieram lá dos montes.
Há tantos Manuéis na vida...
Uns são retornados,
outros transtornados,
alguns, apenas ultrapassados
ou trespassados pela ganância
de outros nomes mais nobres.
Vejo daqui um Manuel mais,
Um Manuel só.
Desbotado e envelhecido,
pelo reflexo deste espelho.
Zéphyro 13/07/2014
Remorsos e pedregulhos
De dentro para fora, queimam os tolos.
Que todos, com dolo, moderam o pecado.
As árvores, morrem de pé e subnutridas.
Como os hirtos vagabundos que vagueiam
pelas noites acordadas a ferro e fogo.
Vergar ao vento, apenas os puros.
Que sentem a dor da pedra que atiram
e caem antes do inimigo que ri assolapado.
Os rufias, são sempre certeiros.
Tal como a pedra, nascida para ser arremessada,
desconhecendo motivos, credos e justiças.
A luta, é o autoflagelo dos parvos.
Que patos que são, chamarizes num rio
feito com o suor da própria sorte.
Esbracejam, clamando a si o tiro
disparado para a massa esvoaçante
que lhes segue o aceno ignorante.
Os caçadores, nunca choram o derrame
do sangue da presa abatida sem pressa.
Jamais pensam nos orfãos patinhos
que se escondem no eco do chumbo,
cravado numa asa qualquer.
Peso sente o que se perde no caminho de alguém.
Pedras nas costas, bigornas nos ombros
responsáveis por tanto gesto falsificado.
Remorsos na alma, chagas nos pulsos
que seguram a culpa do desterro em catadupa
que catapulta o mundo para o embaraço.
Quem rouba por gosto não cansa.
Leve como uma pena nas mãos de um profeta.
Que escrevinha mundos e medos
com a mesma intensidade, com o mesmo brilho nos olhos.
De dentro para fora, morrem os tolos.
Sem darem pela morte que os alcançou.
Zéphyro 12/07/2014
Que todos, com dolo, moderam o pecado.
As árvores, morrem de pé e subnutridas.
Como os hirtos vagabundos que vagueiam
pelas noites acordadas a ferro e fogo.
Vergar ao vento, apenas os puros.
Que sentem a dor da pedra que atiram
e caem antes do inimigo que ri assolapado.
Os rufias, são sempre certeiros.
Tal como a pedra, nascida para ser arremessada,
desconhecendo motivos, credos e justiças.
A luta, é o autoflagelo dos parvos.
Que patos que são, chamarizes num rio
feito com o suor da própria sorte.
Esbracejam, clamando a si o tiro
disparado para a massa esvoaçante
que lhes segue o aceno ignorante.
Os caçadores, nunca choram o derrame
do sangue da presa abatida sem pressa.
Jamais pensam nos orfãos patinhos
que se escondem no eco do chumbo,
cravado numa asa qualquer.
Peso sente o que se perde no caminho de alguém.
Pedras nas costas, bigornas nos ombros
responsáveis por tanto gesto falsificado.
Remorsos na alma, chagas nos pulsos
que seguram a culpa do desterro em catadupa
que catapulta o mundo para o embaraço.
Quem rouba por gosto não cansa.
Leve como uma pena nas mãos de um profeta.
Que escrevinha mundos e medos
com a mesma intensidade, com o mesmo brilho nos olhos.
De dentro para fora, morrem os tolos.
Sem darem pela morte que os alcançou.
Zéphyro 12/07/2014
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