terça-feira, 15 de julho de 2014

Ampulhetas e dentadas de laranja-lima

Hoje sou todo sopa.
Sopa e carne de vaca barata,
daquela que se coze em águas de pranto.
Não que me queixe, a vida é simples agora.
Não existe sal ou pimenta
quando comemos apenas com o vagar
que nos permite a dentadura encardida
que teima em sair do lugar.
Recordo-me de quando comia ainda doces.
Do tempo que caminhava hirto,
só peito feito e duas pernas...
Que eram minhas!
Como adorei sugar o mundo
em pequenos gomos de laranja-lima
quando ainda tinha fígado e paladar.
Sentir o acre mesclar-se ao doce
que só existe quando nos deixa o tempo.
Ou quando o deixamos...
Porém, já só sopa.
Sopa e descanso deste cansaço
vítreo de cataratas.
Desta estafa pesada de areia
de tempo que já caducou
e me verga as costas rente ao chão.
Toda uma vida em cima.
Milhentos de gomos doces e amargos
transformados em caldo fumegante
que persiste na tigela tingida pelos anos.
Vejo ainda, remotamente,
O brilho da louça que já foi nova.
Sinto o cheiro dos atoalhados e lençóis
lavados com sabão e secos ao sol
que nunca nos falhava.
Se cerrar bem os olhos,
piscos pelas areias do passado,
ouço ainda o som dos bailes
e das baladas onde embalei a vida
num abraço a braços fortes.
Dois que valiam vinte
e que eram meus, só meus...
Hoje, no colo, tenho apenas
a dor que me ficou nos ossos.
Já sou só um presságio de vidente.
Já sou apenas sopa.
Todo sopa.

Zéphyro 15/07/2014

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