terça-feira, 29 de outubro de 2013

Só para ti!

Certo dia olhei para o céu acima de mim...
Temente às mil e uma luzes que iluminam a noite
e todos os sonhos de onde acordo contigo em pensamento.
Quis roubar uma dessas luzes, só para ti.
Mas a imensidão desse mar negro e polvilhado tramou-me.
Ousei, um dia, cheirar da tua pele o aroma de infindos jardins floridos...
Inebriado pela fragrância que me faz cantar hinos de desejo
e rebolar na cama acordado em desassossego.
Quis oferecer-te novas flores, colhidas em canteiros desconhecidos
com novos aromas, só para ti.
Mas fui eu colhido, por um amante da morte
que vive dentro de mim e se dá a quem me segue.
Toquei um dia nos suaves cabelos de algodão
que usam compridos as sereias dos mares incógnitos.
Mechas de melodia e fogo submerso.
Quis oferecer-te a submissão de todos os deuses
mas a falta de fé e crença condenou-me, condenou-nos.
Como ousei acreditar que seria despenalizado
após atirar tantas pedras ao altar onde quis, um dia, deitar-me.
Sempre quis encontrar as palavras para te dizer o que sinto.
Pantenteà-las para que sejam usadas só para ti.
Como um dicionário novo, ilustre e ilustrado
com imagens coloridas pelo arco íris
que de bom grado roubaria, só para te oferecer.
Certo dia, acordei e não te vi...
Fugiste, traída e assustada pelas palavras que não proferi.
Sou o que quiseres...
Sou profeta, pregador
Sou amante, sou amador
Sou ardente, sou ardor!
Sou o que me ordenar a tua mão altiva,
vou onde me guiar o teu olhar incerto.
Vou vivo, vou morto, vou concreto,
Só para ti!

Zéphyro  29-10-2013

Obliterado

Passou-me por cima uma multidão galgante.
Os transeuntes da azáfama...
Pisaram-me os vincos e gastaram-me
uma e outra vez, sem olhar para baixo.
Fui rechaçado, atirado...
como barro a uma parede incerta.
É incrivel assistir com inferioridade
ao momento em que o passado nos ultrapassa.
É quase doce, vê-lo, em velocidade cruzeiro,
acenar, de passagem, enquanto eu,
colado á janela, o vejo ser um ponto,
cada vez mais pequeno, até desaparecer no horizonte longínquo.
E lá ficará, esperando-nos no futuro,
fazendo questão de se fazer notar em cada presente.
Estou gasto, usado, sujo.
As mãos hábeis da experiência,
fizeram questão de marcar em mim a sua presença.
Vejo-a, sinto-a...
A cada nova ruga que olho ao espelho,
a cada nódoa negra que me dói na alma,
a cada movimento preso,
como um espasmo que persiste e insiste.
Fui obliterado pelo ontem.
Pelo dia que já passou
e que faz parte das lembranças
e do álbum com as imagens da minha vida...
chapas do meu entusiasmo perdido.
Passei de mão em mão,
como uma senha de almoço perdido.
Fui encostado á parede
pelo jocoso viver que apregoo.
Vi-me nu e encardido,
jogado na valeta dos passos que dei.


Zéphyro  29-10-2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poder

O Poder!
Essa droga vertiginosa
que corre nas veias dos opulentos
senhores da sociedade.
Senhores feudais dos tempos modernos,
que nos permitem viver a trabalhar.
Lutar cada empreitada, movidos pelo desejo escondido,
de sermos, nós também, um dia talvez,
Gordos e fartos!
Generosos e magnânimos!
Poderosos e letais!
É estranho pensar que,
uma data de desgovernados da alma
dite as regras, fazendo e desfazendo vidas,
Pisando nos prantos abaixo,
ignorando os lamentos em redor.
Tudo em prol do objectivo comum.
Objectivo ao qual nós, simples pretendentes,
estamos alheios, mas, isso, é comum de facto.
Não deixamos claro, de dar a vida por ele. Isso nunca!
Pois é todo o objectivo que conhecemos,
ainda que de outrem.
Alguns, ditos iluminados,
assistem de fora.
Cospem a critica em todas as direcções,
na esperança de assim acertar,
usando e abusando do sarcasmo.
Usando e abusando do escárnio e da falta de pudor.
Riem e fazem rir os tontos
com palavras que nos mostram,
o quão ridícula é a nossa demanda.
Mas esses, os donos da sátira,
procuram apenas, também,
ter nas veias a atenção
que vem da fábrica dos sonhos.
Vendem eles também a alma ao diabo por ela.
Restam aqueles que nada sabem.
Os inocentes, os alienados.
Os sem rei nem roque,
os sem abrigo e sem pátria,
sem lei ou civismo.
Que são livres de verdade.
Consumiram já todo o poder que queriam.
São imunes aos seus efeitos nefastos.
Padecem primeiramente, mas ignoram,
mais vezes são apartados, mas não sabem
e desprezam o desprezo a que são sujeitos.
A esses, pouco lhes importa o mundo.
Este mundo, que lhes cobra o que já foi pago.
Este mundo viciado que rouba e ceifa vidas e vidas.
Que prospéra à custa do sacrifício,
geração após geração,
de pessoas, usadas como ferramentas,
como objectos descartáveis.
Pessoas que percorrem e recalcam
as pedras da calçada,
à espera de encontrar uma moeda mais.
A moeda que trará a nova dose.
A moeda que trará a tudo o seu sentido.
O poder humilha a vontade alheia!
Só porque sim!
O poder mata o humanismo
e gera criminosos, já viciados.
Alimentados pelo leite materno
conspurcado também pela pesada mão,
da sociedade, da democracia e do estado.
O poder enoja!

Zéphyro  06-10-2013

Liberdade

A liberdade é um néon
que reluz na noite.
Segundo sim, segundo não,
como o tic tac de um relógio,
flácido como os de Dali.
É o reflexo vítreo de um qualquer espadarte,
pescado ás ganas, tirado a linhas e mãos nuas
de um mar negro e medonho.
Essa sepultura desconhecida,
esse limite imaginário
que retem os passos do nosso futuro.
Livre é aquele que desconhece...
Aquele que busca o desconhecido...
Aquele que faz do mundo algo sempre novo,
sempre surpreendente, ao qual
não chegamos nunca a pertencer.
A liberdade é uma miragem.
Uma cantante sereia nua
que nos envolve nos seus sonhos
e nos faz desejar a morte pelos seus objectivos.
A liberdade é a pertença.
É um grupo que nos agrega
uma mão que se nos estende
e nos faz percorrer um caminho já escolhido
e jogar segundo as suas regras.
Livre é aquele que se tem só!
Que partilha o que é seu por direito
com todos outros que se alimentam dos mesmos frutos,
que sorvem das mesmas fontes,
sem nunca deles depender.
O livre é desprendido!
O livre é desprovido!
A liberdade...É um emprego, de segunda a sexta,
que mantemos sem chegar a querer.
A liberdade é uma tarefa,
uma ordem, uma jornada.
Um dia a dia que repetimos por instinto,
enquanto esperamos pela chegada da mudança.
A liberdade vive presa!
Presa num sonho sozinho,
num chupa chupa amarelo limão,
na relva verde que se agita,
ao ver passar o tempo como o vento.
Livre é aquele que não tem plano,
só fantasia.
Aquele que não executa nunca
e sempre improvisa cada gesto
de acordo com a sua volátil vontade.
De acordo com a sua sede cega,
por aquém e além, por vida e morte.
A liberdade é um bem comum,
de senso bem comum.
Todos temos liberdade,
todos somos liberdade,
todos invejamos liberdade.
Livre é aquele que não conhece o limite.
Que não reza credos
e não obedece a lei alguma.
Livre é o que imagina,
que almeja montes distantes,
sorrisos anónimos
e anarquias de outrora.


Zéphyro 06/10/2013