terça-feira, 29 de outubro de 2013

Obliterado

Passou-me por cima uma multidão galgante.
Os transeuntes da azáfama...
Pisaram-me os vincos e gastaram-me
uma e outra vez, sem olhar para baixo.
Fui rechaçado, atirado...
como barro a uma parede incerta.
É incrivel assistir com inferioridade
ao momento em que o passado nos ultrapassa.
É quase doce, vê-lo, em velocidade cruzeiro,
acenar, de passagem, enquanto eu,
colado á janela, o vejo ser um ponto,
cada vez mais pequeno, até desaparecer no horizonte longínquo.
E lá ficará, esperando-nos no futuro,
fazendo questão de se fazer notar em cada presente.
Estou gasto, usado, sujo.
As mãos hábeis da experiência,
fizeram questão de marcar em mim a sua presença.
Vejo-a, sinto-a...
A cada nova ruga que olho ao espelho,
a cada nódoa negra que me dói na alma,
a cada movimento preso,
como um espasmo que persiste e insiste.
Fui obliterado pelo ontem.
Pelo dia que já passou
e que faz parte das lembranças
e do álbum com as imagens da minha vida...
chapas do meu entusiasmo perdido.
Passei de mão em mão,
como uma senha de almoço perdido.
Fui encostado á parede
pelo jocoso viver que apregoo.
Vi-me nu e encardido,
jogado na valeta dos passos que dei.


Zéphyro  29-10-2013

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