Eu quero beijar a boca ao mar!
Beija-lo com força e sem pingo de carinho,
sugar a sua língua para junto da minha
e morde-la e repuxa-la até que lhe doa o freio.
Quero devassar a pureza ao mar!
Leva-lo, à noite, para um bar
e embebeda-lo à má fila
para poder partilha-lo com os meus amigos.
Quero o mar todo despido,
agachado e meio inconsciente
no banco de trás do meu carro.
Quero fecunda-lo e que me observem pela janela.
Quero engravidar o mar à força!
Para que depois, sem ponta de respeito,
o leve a abortar numa clínica em Espanha,
onde quase ninguém me conhece.
Quero que o mar lave a minha roupa
e esfregue o chão da minha casa.
Fazer de toda a sua imensidão
a minha escrava privativa.
O mar tem seios, enormes!
Quem me dera aperta-los sem delicadeza
e trincar-lhe os mamilos até que sangrem
um sangue demasiado salgado para a minha boca.
Zéphyro 12-10-2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Sem descanso
Anseio por cada final de dia,
por poder ir para casa e fugir
do marasmo que se me cola na pele.
Mas nem em casa tenho descanso
pois é de barro o meu silêncio
e é de pregos a minha cama, que inflama
ao invés de aconchegar.
Desejo arduamente cada fim de semana,
para poder prostrar-me e morrer um pouco,
deixando a vida que me apoquenta.
Mas é de ferro a minha poltrona
e mói-me as costas sem piedade
das agruras do meu quotidiano, profano
que me bate ao invés de me abraçar.
Espero esperançado por cada Verão,
por poder deitar-me numa praia
e esquecer o Inverno sem fim.
Mas é o godo em vez da areia
que me acondiciona o corpo massacrado
e me relembra de todas as dores, que sem pudores
fui obrigado a condescender e aceitar.
Sem descanso a vida não é viver...
É apenas uma marcha de desalinhados
ao encontro do sopé do cadafalso.
É meramente um teatro de fantoches,
sem espectadores sentados na tribuna.
É somente uma corrida que sempre perdemos,
mesmo não tendo a quem vencer.
Zéphyro 22-04-2016
por poder ir para casa e fugir
do marasmo que se me cola na pele.
Mas nem em casa tenho descanso
pois é de barro o meu silêncio
e é de pregos a minha cama, que inflama
ao invés de aconchegar.
Desejo arduamente cada fim de semana,
para poder prostrar-me e morrer um pouco,
deixando a vida que me apoquenta.
Mas é de ferro a minha poltrona
e mói-me as costas sem piedade
das agruras do meu quotidiano, profano
que me bate ao invés de me abraçar.
Espero esperançado por cada Verão,
por poder deitar-me numa praia
e esquecer o Inverno sem fim.
Mas é o godo em vez da areia
que me acondiciona o corpo massacrado
e me relembra de todas as dores, que sem pudores
fui obrigado a condescender e aceitar.
Sem descanso a vida não é viver...
É apenas uma marcha de desalinhados
ao encontro do sopé do cadafalso.
É meramente um teatro de fantoches,
sem espectadores sentados na tribuna.
É somente uma corrida que sempre perdemos,
mesmo não tendo a quem vencer.
Zéphyro 22-04-2016
quinta-feira, 17 de março de 2016
Já não me sei quando não te sou
Como uma borboleta que esvoaça sem sentido,
na crueza de um planalto inóspito,
sem flores nem ervas nem vida,
só vento e frio e chuva e solidão.
Sou eu longe de ti, longe de mim, longe de nós.
Sou eu que me rebusco e já não me sei,
apenas porque não te sou.
Um cão aturdido a correr em circulos,
no encalço da própria cauda fugidia,
sem esperança, sem fôlego e sem triunfo,
só estupidez e ânsia e cansaço.
Sou eu quando não me vejo, longe de ti, de mim, de nós,
que me esmiuço e descabelo sem me saber ser,
apenas porque não te sou.
A minha terra é em ti,
onde o eu e o tu se fundem,
num nós que é singular como duas bolachas,
unidas pelo recheio de creme que as faz uma.
Sou da terra onde tu estás,
sem distinguir onde começa o meu corpo
e onde acaba o teu, o nosso,
siameses que somos, pegados pela alma.
Um jazigo que ninguém mais visita,
onde não arde nenhuma chama de companhia,
onde ninguém chora uma ausência demorada
que nem defunto sei ser sem estar contigo.
Sou assim longe de ti, de mim, de nós,
quando me revolvo no solo frio
e não me sei porque não te sou.
Um farrapo de tecido desfraldado,
esvoaçando a meia haste,
uma bandeira de pátria que já não existe,
que só paira triste e consternada e mal amada.
O meu lugar é o chão que tu caminhas,
é a planta dos teus pés, marcada nas areias
brancas e quentes de uma praia só nossa,
de um paraíso longínquo onde ninguém nos sabe, só nós.
Já não me sei quando não te sou,
de tanto que te fui sem me ser eu.
De tanto que respirei o ar que tu respiras,
sedento como o amor que só tenho perto de ti.
Zéphyro 17-03-2016
na crueza de um planalto inóspito,
sem flores nem ervas nem vida,
só vento e frio e chuva e solidão.
Sou eu longe de ti, longe de mim, longe de nós.
Sou eu que me rebusco e já não me sei,
apenas porque não te sou.
Um cão aturdido a correr em circulos,
no encalço da própria cauda fugidia,
sem esperança, sem fôlego e sem triunfo,
só estupidez e ânsia e cansaço.
Sou eu quando não me vejo, longe de ti, de mim, de nós,
que me esmiuço e descabelo sem me saber ser,
apenas porque não te sou.
A minha terra é em ti,
onde o eu e o tu se fundem,
num nós que é singular como duas bolachas,
unidas pelo recheio de creme que as faz uma.
Sou da terra onde tu estás,
sem distinguir onde começa o meu corpo
e onde acaba o teu, o nosso,
siameses que somos, pegados pela alma.
Um jazigo que ninguém mais visita,
onde não arde nenhuma chama de companhia,
onde ninguém chora uma ausência demorada
que nem defunto sei ser sem estar contigo.
Sou assim longe de ti, de mim, de nós,
quando me revolvo no solo frio
e não me sei porque não te sou.
Um farrapo de tecido desfraldado,
esvoaçando a meia haste,
uma bandeira de pátria que já não existe,
que só paira triste e consternada e mal amada.
O meu lugar é o chão que tu caminhas,
é a planta dos teus pés, marcada nas areias
brancas e quentes de uma praia só nossa,
de um paraíso longínquo onde ninguém nos sabe, só nós.
Já não me sei quando não te sou,
de tanto que te fui sem me ser eu.
De tanto que respirei o ar que tu respiras,
sedento como o amor que só tenho perto de ti.
Zéphyro 17-03-2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
As águas turvas do Douro
Tenho em mim as águas turvas do Douro
depois de uma semana de chuvas,
torrenciais e ininterruptas.
Nas estradas, pelas bermas,
desce o entulho e o lodo.
Dos montes e das serras,
escorrem as lamas, as pedras
e os restos de vegetação morta.
Tudo desagua no douro sujo,
castanho como o Zambeze,
que acolhe a morte que vem
invariável com o dilúvio.
Tenho em mim todo esse douro turvo,
lamaçal que corre ribombante
e bate descarado contra os diques,
contra as margens e barragens.
Do alto das serras,
mais parece uma estrada tortuosa,
palmilhando entre os sulcos das vinhas
e dando de beber à paisagem embriagada.
Em mim, como no Douro,
pousa tudo o que já se foi
e que a força do tempo oblitera
e arrasta para fora do leito de morte.
Corre em mim até que,
ao final de longos dias de borrasca,
assenta num qualquer confim do eu,
como sedimentos de terra perdida,
que hão-de ser despojados no mar
e fazer sal das suas águas frias.
Zéphyro 09-03-2016
depois de uma semana de chuvas,
torrenciais e ininterruptas.
Nas estradas, pelas bermas,
desce o entulho e o lodo.
Dos montes e das serras,
escorrem as lamas, as pedras
e os restos de vegetação morta.
Tudo desagua no douro sujo,
castanho como o Zambeze,
que acolhe a morte que vem
invariável com o dilúvio.
Tenho em mim todo esse douro turvo,
lamaçal que corre ribombante
e bate descarado contra os diques,
contra as margens e barragens.
Do alto das serras,
mais parece uma estrada tortuosa,
palmilhando entre os sulcos das vinhas
e dando de beber à paisagem embriagada.
Em mim, como no Douro,
pousa tudo o que já se foi
e que a força do tempo oblitera
e arrasta para fora do leito de morte.
Corre em mim até que,
ao final de longos dias de borrasca,
assenta num qualquer confim do eu,
como sedimentos de terra perdida,
que hão-de ser despojados no mar
e fazer sal das suas águas frias.
Zéphyro 09-03-2016
domingo, 17 de janeiro de 2016
Por entre gatos e gaivotas
Caminho por entre gatos e gaivotas
de encontro a ti, sem pressas.
Sei que não tens mais para onde ir,
chumbada que estás, inexistente,
dentro dessa vil caixa de madeira,
nas tuas ultimas vestes de adeus.
Vou de vela em riste, para ti,
ou talvez para mim...
Nem sei bem se me escutas quando te falo
ou se falo com medo de esquecer que estás cá ainda.
Estás dentro de mim,
na forma do que sou e do que me tornei.
Caminho cinzento, por entre gatos e gaivotas.
Gatos que se enroscam nas campas,
que trepam as arvores para se abrigarem da chuva
e gaivotas que gritam sem respeito pelos outros,
que, como tu, aguardam que chegue o seu alguém.
Vou cheio de fé e pedidos na algibeira.
Saúde, sorte, trabalho para pôr comida na mesa...
Raramente te dou aquilo que mereces,
talvez por não saber se o queres ao certo,
ou se são apenas desejos meus para ti,
como se continuasses entre nós
onde não há gatos e gaivotas.
Onde não há árvores nem chamas trémulas.
Só o medo, o frio e a chuvas de Janeiro.
Zéphyro 17-01-2016
de encontro a ti, sem pressas.
Sei que não tens mais para onde ir,
chumbada que estás, inexistente,
dentro dessa vil caixa de madeira,
nas tuas ultimas vestes de adeus.
Vou de vela em riste, para ti,
ou talvez para mim...
Nem sei bem se me escutas quando te falo
ou se falo com medo de esquecer que estás cá ainda.
Estás dentro de mim,
na forma do que sou e do que me tornei.
Caminho cinzento, por entre gatos e gaivotas.
Gatos que se enroscam nas campas,
que trepam as arvores para se abrigarem da chuva
e gaivotas que gritam sem respeito pelos outros,
que, como tu, aguardam que chegue o seu alguém.
Vou cheio de fé e pedidos na algibeira.
Saúde, sorte, trabalho para pôr comida na mesa...
Raramente te dou aquilo que mereces,
talvez por não saber se o queres ao certo,
ou se são apenas desejos meus para ti,
como se continuasses entre nós
onde não há gatos e gaivotas.
Onde não há árvores nem chamas trémulas.
Só o medo, o frio e a chuvas de Janeiro.
Zéphyro 17-01-2016
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
A invariável minúcia do Nada
Nas dobras dos meus dedos,
nas palmas da minhas mãos,
há calos que falam sobre tudo.
Porém, o tudo em que toquei, um dia,
é tão nada como aquilo que jamais vi.
Nacos de memória, agarrados ao cérebro,
como chiclet que se gruda na sola de um sapato.
Debaixo de um tapete, uma nuvém de pó,
uma bola de sarilho que alguém varreu
e escondeu, como tudo o que estorva.
Mas o pó, é nada!
E o nada estorva, porque nunca o detectamos
no meio da amalgama do que julgamos ser o pleno,
do que tomamos como real e palpável.
Nos escombros de um couraçado,
no convés feito sucata pelo tempo
e no tempo, roubado à socapa pelos dias,
que nada deixaram para trás.
Na nudez de uma folha em branco,
no caule ressequido daquilo que já foi flor
e que desengraçou com o passar da estação.
O nada está em toda a parte.
Como o único deus que existe,
mesmo que, banhados pela cegueira,
nos obriguemos a não crer nele.
A vida é nada!
A morte é nada!
Tudo é nada!
Eu sou nada!
E tu e vós e tudo o que vos rodeia,
são tão nada como tudo o resto.
Desprovidos de sentido,
iludidos com o livre arbítrio
que o nada vos deu de presente,
como um mágico que tira da cartola um coelho,
ou deixa que duas pombas surjam,
esvoaçando por debaixo de uma capa negra.
Na minha voz rouca,
meia presa na garganta de peles descaídas.
Na minha mão trémula e incerta,
de veias que já não latejam,
vazias de sangue que já não corre.
Aí está o nada e toda a sua minúcia.
Astuto como um puto de rua que se fez a si mesmo,
mascarando-se de tudo para nos ludibriar a vista.
Zéphyro 13-01-2016
nas palmas da minhas mãos,
há calos que falam sobre tudo.
Porém, o tudo em que toquei, um dia,
é tão nada como aquilo que jamais vi.
Nacos de memória, agarrados ao cérebro,
como chiclet que se gruda na sola de um sapato.
Debaixo de um tapete, uma nuvém de pó,
uma bola de sarilho que alguém varreu
e escondeu, como tudo o que estorva.
Mas o pó, é nada!
E o nada estorva, porque nunca o detectamos
no meio da amalgama do que julgamos ser o pleno,
do que tomamos como real e palpável.
Nos escombros de um couraçado,
no convés feito sucata pelo tempo
e no tempo, roubado à socapa pelos dias,
que nada deixaram para trás.
Na nudez de uma folha em branco,
no caule ressequido daquilo que já foi flor
e que desengraçou com o passar da estação.
O nada está em toda a parte.
Como o único deus que existe,
mesmo que, banhados pela cegueira,
nos obriguemos a não crer nele.
A vida é nada!
A morte é nada!
Tudo é nada!
Eu sou nada!
E tu e vós e tudo o que vos rodeia,
são tão nada como tudo o resto.
Desprovidos de sentido,
iludidos com o livre arbítrio
que o nada vos deu de presente,
como um mágico que tira da cartola um coelho,
ou deixa que duas pombas surjam,
esvoaçando por debaixo de uma capa negra.
Na minha voz rouca,
meia presa na garganta de peles descaídas.
Na minha mão trémula e incerta,
de veias que já não latejam,
vazias de sangue que já não corre.
Aí está o nada e toda a sua minúcia.
Astuto como um puto de rua que se fez a si mesmo,
mascarando-se de tudo para nos ludibriar a vista.
Zéphyro 13-01-2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Só escrevo sobre o Amor
Tudo o que sei, é escrever sobre o Amor.
Seja ele puro, liberto ou possessivo,
seja ele embaraçado ou desprovido de rubor,
tento saber sobre outras coisas, mas nunca consigo
e só escrevo sobre o Amor.
Gostava de poder descrever o mundo,
de satirizar com o Homem imundo
e com a sua falta de honestidade.
De poder com as palavras, conter a fome do vagabundo,
que corre sujo e de corpo meio desnudo
as ruas movimentadas da minha cidade.
Queria saber de ciência politica,
para falar mal da gente semítica
que governa o nosso Portugal.
Enxovalhar a teologia e a mística
de uma igreja profana e raquítica
que teima em esconder-nos o santo graal.
Mas tudo o que sei, é escrever sobre o Amor.
Sobre o medo que sinto de amar sozinho,
sem te ter deitada ao meu lado,
olhando-me com olhos cheios de carinho,
dando-me a mão, mesmo quando estou errado.
Gostava de falar sobre as mentiras Russas,
sobre as guerras e as escaramuças
e sobre os atentados do estado islâmico.
Queria poder cuspir-lhes nas fuças
e pisar-lhes as mentes obtusas
que vêm salvação em espalhar o pânico.
Quem me dera ser nocivo, como uma âmpola de cianeto.
Ser corrosivo, insolente e violento
como o mundo onde hoje me vejo.
Um mundo chuvoso, feio e cinzento,
fugido do sol e repleto de vento,
sem réstia de esperança, ou ponta de desejo.
Mas só sei falar sobre o Amor.
Amor verdadeiro e desajeitado,
amor meio despido e amor nu.
E vivo assim permanentemente enamorado
e a culpada disso... és tu.
Zéphyro 06-01-2016
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