Tenho em mim as águas turvas do Douro
depois de uma semana de chuvas,
torrenciais e ininterruptas.
Nas estradas, pelas bermas,
desce o entulho e o lodo.
Dos montes e das serras,
escorrem as lamas, as pedras
e os restos de vegetação morta.
Tudo desagua no douro sujo,
castanho como o Zambeze,
que acolhe a morte que vem
invariável com o dilúvio.
Tenho em mim todo esse douro turvo,
lamaçal que corre ribombante
e bate descarado contra os diques,
contra as margens e barragens.
Do alto das serras,
mais parece uma estrada tortuosa,
palmilhando entre os sulcos das vinhas
e dando de beber à paisagem embriagada.
Em mim, como no Douro,
pousa tudo o que já se foi
e que a força do tempo oblitera
e arrasta para fora do leito de morte.
Corre em mim até que,
ao final de longos dias de borrasca,
assenta num qualquer confim do eu,
como sedimentos de terra perdida,
que hão-de ser despojados no mar
e fazer sal das suas águas frias.
Zéphyro 09-03-2016
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